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terça-feira, 6 de novembro de 2007

- carmen

Isso tudo é sobre como perdi minha namorada. Como terminei na estrada à procura da minha redenção.
Abri a janela do carro. Aumentei o volume do rádio: Joy Division, minha inspiração.
Essa noite me saiu cara. Estava bêbado. Ia começar a madrugada, quando flagrei Carmen com um cara no porão.
Separei ela do safado. Lhe dei uma lição. Dois tiros nos bagos. "Se contorça pelo chão!".
Olhei para Carmen. Ela tremia e gemia como nunca e - cara - não era de tesão.
Os deixei lá. Voltei ao carro. Rádio ligado. Love Will Tear Us Apart, bem alta, pra calar os gritos do mal logrado e de Carmen que implorava ajuda, atormentada de aflição.
Já longe, no caminho, lembrei de Lourdes. Amiga de Carmen. Saberia ela alguma coisa?
Fui até a casa dela. "Acorda sua cadela!" Sexo. Vingança. E indignação.
"Amanhã ela conta pra Carmen!". Me dedura, em nome da amizade pura, sem segredos, na hora da confissão. "Carmen agora tá na merda!" E eu rindo de desgosto. Quanto mais me fodo, maior minha contradição.
Melhor não voltar pra casa. Dar uma volta pela estrada. Twenty Four Hours extravasa. Tanto faz. Fora de mim. Devaneio. Longe da razão. E me bate um vazio. Sinto-me febril. E, quando penso em Carmen, tenho vontade de arrancar seu coração. She Lost Control ao meu silêncio. Se houver arrependimento que ela leve junto consigo dentro do caixão.
Me distraio com a estrada vazia. Ardendo em azia e vontade de vomitar, tamanha é a consternação.
Estaciono em um beco. Descanso meu arrependimento. Durmo um pouco agora. E depois me livro dessa arma, jogando-a num rio, ferro-velho ou num lixão.
No meu sono tenho um sonho. Onde vejo Carmen. Vejo Carmen e meu irmão. Me jogam terra. Dead Souls, eles cantam. Dead Souls. E repetem o refrão. E não usam pás. Não se importam. Eles me plantam ao chão usando as mãos.
Acordo assustado. "Puta sonho desgraçado!" Estou ficando alucinado com essa história de traição.
É então que percebo a arma no meu colo. Já estou atrasado pra me livrar da prova do meu crime. Guardo-a no bolso do meu blazer. Preciso acabar com essa situação.
Três horas da manhã. The Only Mistake estava rolando quando bati naquela van.
E nem percebi nada. Apareceu tão de repente na minha direção. Voei pelo vidro da frente. Esfolei no asfalto quente. Verti sangue até pela imaginação.
Pensei em Carmen. No meu irmão. Naquele filho-da-puta que arranquei os bagos. E em tudo que eu fizera naquela noite até então.
Vi alguém sair da van. Correndo à minha direção.
Era Carmen...
Voltava do hospital onde deixara o bastardo que causei humilhação.
Se aproximou de mim. Não falou comigo. Revistou meus bolsos. Levou consigo minha carteira e o revolver. Antes de se levantar ainda ajeitou meu blazer. - Que consideração.
Ela foi até meu carro e aumentou o volume do rádio. Atmosphere. Minha última canção.
Escutei a van indo embora. "É, Carmen... Sou eu quem estou na merda agora, você não.".
Um outro carro chegou algum minuto depois. Eu já estava quase morto. Mas assisti ao desespero da pessoa que fazia a ligação. "Uma ambulância, pelo amor de Deus!"... Era a voz do meu irmão.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

- maligno

Hoje de manhã, nessa cama de hospital, eu aguardo os que ainda vêm: Um padre, minha mãe e meu jornal. Sofrimento corrosivo. Saciação de sede pela agulha. E a janela dos dias... Me distrai sempre que me sinto mal.
Até para morrer tem que ser difícil.
- Já encomendamos o ataúde. Confortável. Cabe muitas flores de lírios e narcisos. E, ah! é do tamanho ideal!
- Por favor, tragam a morfina. Imaculem este sofrimento desleal! E por favor, fechem a cortina... Não sorrio para dias benignos. Meu câncer maligno. Meu estado terminal.
Já não tenho mais família. Filho e filha foram-se embora com a separação matrimonial.
E ontem minha ex-esposa esteve aqui. Romântica...:
- Assine logo os documentos de divórcio. E também as papeladas do seu Testamento Final.
Antes eu era viril. Um dos melhores atletas corredores da escola. Até ganhei bolsa na melhor faculdade estadual.
Hoje evacuo por uma sonda. Me alimento de um soro insípido. Pele e osso. Amarelado. Olhos fundos. Desfigurado. E daqui só saio carregado para uma necropsia no Instituto Médico Legal.
Que não me vistam em meu terno novo. Que seja aquele que sempre usei para ocasião especial.
Bonito. Frio. E fragoso. Com os lírios e narcisos. No meu leito-funeral.

sábado, 15 de setembro de 2007

- truco, patrícia!

- Carrocel! Que tal darmos uma volta de carrocel?
- Não, isso é muito chato.
- Aí, você é quem é chato. Não gosta de fazer nada!
- Escuta, se quiser eu te pago um sorvete. Gosta de sorvete?
- Não quero sorvete. Queria dar uma volta de carrocel, só isso!
- Acontece que ficar girando montado num cavalinho de plástico feliz não é comigo, dona!
- Nhénhénhé... Chatão! Você quebra todo o clima.
- Que clima?
- Nosso clima. Estamos nós dois, a sós, neste parque, e você fica cheio de frescuras!
- Acontece que você só quer fazer aquilo que você gosta!
- Ai, ai... Olha, por que você me trouxe aqui então, Gustavo?
- Porque era o lugar menos cheio da cidade.
- Como você é filho-da-mãe! Vou embora, seu grosseiro.
- Ei, ei, espere. Deixe-me explicar, caramba!
- Explicar? Explicar o que? Isso é humilhante!
- É que eu não gosto de lugares lotados. Você, com certeza, sugeriria uma balada e eu não curto essas coisas, você sabe muito bem disso.
- Não sei por quê topei sair com você!
- É, eu também não sei onde estava com a minha cabeça...
- Começou de novo! Olha, acho bom resolvermos essas diferenças.
Não te entendo. Você foi completamente carinhoso e educado ao me chamar pra sair, agora parece uma obrigação, mas que merda! Por que isso?
- Você aceitou como se fizesse um favor. E isso foi broxante.
- Olha, eu poderia ter dito não, sabia? mas queria sair com você. De verdade mesmo!
- É, sei... A-cre-di-to.
- Pô, e por que você acha que não?!
- Vi a cara que você fez para as suas amiguinhas quando eu disse "Patrícia, sexta-feira to afim de sair, e pensei em chamar você... tá afim?" Você olhou pra suas amigas com aquela cara de cínica. Elas riram, como que por quererem dizer "ai-amiga-faz-um-favor-pra-esse-nerd-encalhado-e-tira-o-rapaz-da-foça-!"
- Que desaforo, Gustavo! Você não presta! Eu só estou aqui porque eu queria sair com você. Mesmo!
- Não mente, larga a mão de ser medíocre!
- Chega! Não vou aturar mais essa ladainha! Estou farta! Vamos embora!
- Tudo bem, você quem sabe...
- Espera aí... Se você acha que não gosto de você, por que raios me chamou para sair então?
- Isso não vem ao caso, Barbie.
- Pára de me ofender e fala logo! Isso está ficando ridículo!
- Foi uma aposta... Entre os amigos e eu.
- Ah, uma aposta, seu filho-da-puta! uma aposta sem vergonha!?
- Ei, calma, não precisa bater!
- Pô, Gustavo, uma aposta!? Como você pôde me chamar só porque ganhou uma aposta!?
Ah! Já sei, nem me diga! Nem precisa me dizer, já sei! Você e seus amiguinhos nerds Deviam estar pensando: "Olha lá, lá vem a Patrícia, todos nós pagamos um pau pra ela, mas ela nunca sairia com a gente! Somos nerds!" Seus ridículos! Aí, com certeza, algum de vocês proporam alguma aposta do tipo: Quem gabaritar a prova de Física chama ela pra sair!
Aí, você, Don Juan as avessas, deve ter ganho e foi lá... receber o prêmio! Seu ridículo! Se eu soubesse teria dito não!
Seu idiota! Por que tá rindo?
- Bem, na verdade não foi bem assim...
- Ah, não, como foi então?
- Quer mesmo saber?
- Claro! Agora mais do que nunca!
- Bem, tudo bem...
Pra começo de conversa...
Apostamos numa partida de truco.
E eu não ganhei a aposta.
Eu perdi!

terça-feira, 4 de setembro de 2007

- sem pudor

Deitou-se na cama. Esperando o homem que sairia do banheiro.
Abraçada aos travesseiros, ela consentia alguns pensamentos que ansiava em vomitar por horas na cama de quem fosse.
Suava frio. Rezava baixo. Mesmo não conhecendo nenhuma de oração.
- Um tiro entre os seios - rezingava ela - é o que mereço.
De quando em quando se lembrava como costumava brincar com as suas amigas e suas bonecas de porcelana.
Alucinavam-se aguardando o príncipe encantado. Treinavam beijos de cinderelas em seus joelhos ou nas palmas das mãos encardidas de bolinho de terra.
Agora, na cama, nua, não sentia mais aquele delírio de menina a espera de cavaleiro alado.
Havia descoberto que os beijos não têm gosto de bolinho de terra nem de pele de joelho liso, mas sim dos dois quando se arrebenta num tombo e sangra. Gosto de sangue.
Os príncipes sem encanto jamais vieram lhe levar para uma volta no corcel alado. Ao invés disso a montavam como se fosse uma égua a galope.
Nunca lhe deram um vestido de princesa. Apenas calcinhas e lingeries de outras mulheres.
E sempre a chamaram de puta. Pagavam para isso.
Já não queria mais estar ali, vulnerável a quem pudesse pagar. Ansiava a proteção dos tempos de criança. O príncipe em seu corcel.
Envolveu-se no lençol podre e, antes que pudesse ouvir o homem gritar no quarto do motel, ela correu para as escadas dos fundos, para o beco mais escuro, ao canto mais úmido, para chorar sem pudor. Se sentia vil. Uma virgem de tantos hímens quantos necessários para se romperem naquelas lágrimas de sangue violado.
Sentia frio. Sentia medo. Sentia que o diabo a amava mais que todos os anjos e quis morrer uma vez mais.
Dormiu com todos os vilões de seus pesadelos e nunca reclamou. Nunca cederam a ela um príncipe. Nunca.
Era como ser apunhalada nas entranhas toda vez que se dormia com um deles. Era como se sentisse envenenada toda vez que tentavam lhe beijar. Era como se a condenassem anos mais no inferno toda vez que lhe pagavam pelo prazer.
"Que prazer, porra?"
Abortou inúmeras vezes seus pecados sufocados no útero. Ninguém soube. Ninguém a condenou. E se a condenassem ela sorriria porque estar no inferno vale menos que qualquer pena. Agora ali, no escuro do beco, ouvia-se lamentar de tudo. De todos. E de ninguém concreto. Seu príncipe, seu vestido caro, seu beijo de bolinho, queria que tudo jazesse no seu lugar no inferno.
"Filhos-da-Puta!"
Vomitou. Levantou-se limpando os lábios e correu para a redenção.
Subiu as escadas dos fundos e quando passara em frente ao seu quarto viu o vilão abrir a porta do banheiro e gritar:
- Para onde vai sua maldita?! Paguei por uma hora inteira!
Exasperou-se, tropeçou no lençol. Caiu. Não se importou com a dor e o sangue de suas pernas. Eram menores que sua dor do íntimo.
Correu para o alto do motel, às lajes.
Saltou. Se viu princesa enquanto caia, seu vestido de gala das cores do lençol.
E antes de morrer, ali, ao chão. Viu seu príncipe descer do cavalo metálico, preocupado.
- Estava te procurando moça. Escutei você gritar.
Ela riu.
- Tenho gritado há tanto tempo... Só agora você consegue me encontrar...

- agulhas e borrões

Algumas crianças brincavam lá fora, na calçada, e ela se sentou em sua cadeira de balanço, sob repouso de sua jabuticabeira favorita, e ali ficou, para coser algumas de suas velhas vestes.
Não sabia ao certo até quando ficaria ali. Ela ficava ali, esperando qualquer alguém que passasse e a cumprimentasse, ou entrasse para conversar. Às vezes até reclamava, palpitava ou balbuciava algumas palavras impronunciáveis e confusas, como se conversasse com alguém nenhum.
Por se sentar escondida atrás da jabuticabeira, as pessoas que passavam e nada viam tinham motivos suficientes para dizer que ali morava um defunto qualquer, macumbeira que fosse!
Naquela manhã, enquanto rematava seu xale cor púrpura, caiu em seu quintal uma bola de couro surrado soltando as lapelas. Percebeu ser das crianças quando escutou um silêncio daqueles que significava estamos-fritos-perdemos-a-bola-!
Ela nem sequer se moveu da cadeira de balanço. Ali ficou, esperando alguém gritar seu nome no portão.O que não demorou muito.
As crianças todas se amontoaram e espevitavam para saber onde raios a bola teria caído.
- Poxa, aquela velha deve ter enfiado a agulha na nossa bola, do jeito que é treze!
- Não. Acho que ela vai pegar pra fazer macumba... aquela bruxa!
- Eu não quero nem saber, quero a minha bola de volta! Nem que eu pule essa merda de portão.
A senhora, ria para si.
Por seu jardim ser repleto de plantas, flores, ervas, árvores velhas e novas, parecia mesmo que se estavam olhando para um cenário da Inquisição.
Os pais de alguns meninos ainda ajudavam bastante na reputação da velha dizendo “Esse traste de mulher já passou da validade e só por isso deixa a mesma impressão da casa! Não sei por que não contrata alguém para carpir esse lugar podre, imundo!”
Por isso mesmo a senhora não se preocupava, sabia que todo mundo dali, por não a ver andando na rua, como as outras dondocas de meia idade faziam, com seus guarda-chuvas e mortalhas de luto eterno. Ela não.
E naquele dia, como outro qualquer, sentada com a sua solidão de agulhas e forras, esperou que algum dos meninos se manifestasse.
As crianças berravam nomes cabalísticos por não saberem o nome da senhora.
- Ô velha, pega nossa bola, faz favor!
- Traz a bola aí, Dona.
- Joga a bola de volta!
Quando desembestaram a gritar ao mesmo tempo, alguns lançavam ofensas furtivas e perdidas em meio a um pedido de ajuda do tipo “Pega a Bola - Sua Bruxa - pra gente, por favor!”
Ela não se mexeu. Ficou ali, rindo, cosendo seu xale.
Eles ainda invocaram o chamado do que achavam ser a maldição em pessoa por alguns minutos até se cansarem, desistirem e ir cada um para as suas casas, só ficando em fronte ao portão o dono da bola. Emputecido, claramente, pelo prejuízo.
- Vou tentar pular este portão! Não tem ninguém vendo, ela não deve estar. E se estiver deve estar surda, velha maldita!
Armou o bote para cima do portão, escalando cada grade numa sutileza métrica. Não queria que ninguém o visse, de maneira alguma.
Quando domou o portão e pulou para dentro da casa, ele colocou a mão no coração para saber se ainda estava em condições de poder andar sem bambear. “Porra, isso daqui é alto pra cassete... quero só ver como vou voltar!”
Encafifou-se para dentro do jardim que, para ele, parecia um labirinto, mas não pensava em desistir. “Nem Clint Eastwood, nem Jones teriam a coragem que estou tendo!”
Procurou por alguns minutos, mas não via nada em lugar algum. Foi quando optou por mudar de direção e viu, encostada debaixo de uma árvore de jabuticabas, uma cadeira de balanço enorme e rústica, com alguns rolos de novelo e um xale púrpura descansados por ali. “Essa velha deve de estar por aqui!”. Rodeou a cadeira. Tocou. Era mesmo verdade. A velha existia. “Mas aonde será que foi?!”. Calcou o queixo com seu dedo indicador, e, assim como Holmes, disse algumas palavras poucas: “Elementar que ela foi enterrar a minha bola para a próxima macumba! Ou a transformou em linhas para coser estas mudas de roupa!”. A curiosidade louca o fez distrair-se enquanto embaralhava as linhas, mexia no xale e até ria em pensar que alguém, de que tanta ouvira falar, tinha um bom gosto para vestes.
- Mamãe ia gostar disso.
Se perdeu nos minutos e por ali ficou, quando identificou as jabuticabas, as comeu sem pensar se estariam envenenadas, amaldiçoadas ou com gosto dos mortos. Esqueceu-se completamente da sua suspeita de maldições faceiras.
- Gostando das jabuticabas, menino?
Que frio na espinha. Que vontade de cagar, mijar, vomitar! Tudo de uma vez só e nada ao mesmo tempo! Bambeou até o cóccix. Não dizia palavra alguma, ali ficava imóvel, não conseguia engolir as jabuticabas, não conseguia responder alguma coisa para a velha que trazia a sua bola nas mãos.
- Se estiver com fome, coma mais, são boas, as melhores desse jardim!
O garoto não conseguia conter seu pânico e ao tentar dizer algo se borrou inteiro em todos os sentidos.
A velha riu, riu alto, aqueles risos que causavam pânico, e foi o suficiente para que o garoto mijasse, cagasse, tremesse mais ainda.
Quando ela se deu conta que o pequeno era só medo, ela parou e se sentou esperando o garoto voltar a si.
Não disse uma palavra, ali ficou, cosendo o xale. O garoto parecia ter visto a Medusa e não se mexia mais, sua boca escorria a baba com jabuticaba e seu mijo e merda já escarneciam o cheiro aos narizes dos dois.
- Chega, garoto! Chega! Diga algo, já estou criando úlcera!
Ele então mudou de posição, limpou a baba e se envergonhou da falta de coragem de responder o que fosse aquela velha caquética.
Gaguejou bastante para conseguir completar uma frase.
- De-de-desculpe, Dona, só-só-só que-queria minha bola.
- E eu não sei, pequeno!? Acontece que eu a estava costurando. As lapelas soltavam todas, quis te entregar nova em folha.
Ele não disse nada. Não teve mais coragem.
- Agora vá embora, garoto, quando quiser volte para comer mais jabuticabas!
Ele concordou com a cabeça e saiu devagar.
Antes de tentar pular o portão, a velha disse: “Não precisa entrar como ladrão, jovem, meu portão nunca esteve fechado, apenas gire a maçaneta!”.
Ele saiu.
Teve vergonha de se ver mijado, cagado, fedido. Mas teve mais vergonha ainda de ter, junto com os amigos, escarnecido a velha todo esse tempo.
Ali ficou com a bola na mão um bom tempo, olhando para a rua vazia. Suspirou, olhou para si, olhou à bola e riu.
- Se eu soubesse que a Bruxa tinha jabuticabas, meu amigo, juro pra você, teria me cagado cem vezes mais, me mijado outras mil, mas teria entrado antes nesse lugar!

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

- Senhor

Não há nada que eu possa descrever como sendo natural no meio de tantas casualidades. Até porque navegamos sem remos e, quando o vento cessa, você diz que é o mar quem parou de conversar com o céu dos ventos. Você gosta tanto de resmungar; reclamar das coisas alheias que pouco entende quando quer explicá-las ao mundo. As palavras lhe foram castas, embora a vivência seja única e de grande valor.
Ontem eu o vi olhando para o chão, estarrecido, taciturno. Perdido em passos descompassados, como um bêbedo que vem dançando sem um par, numa rua sem vento, em que o vento o carrega para todas as direções. O Sr., com esse sorriso pálido, escarnecido de terror e medo, passou pela minha porta e nem me cumprimentou com o oi diário. Pensei em acompanhá-lo até a escada que desceu trêmulo, respeitando o vento que parecia vir de dentro.
Meus filhos me chamaram a atenção quando gritaram ao Sr. e, novamente, se pareceu perdido ao olhar para o chão e desprezar-lhes a atenção da inocência que carrega um oi sorridente para quem tanto lhe quer bem.
Para onde ias, meu Senhor? Talvez fosse ao bar curar as mágoas...
Não, não foi.
Passou despercebido pela mesa de truco, onde gritavam "seis, porra!" e respondiam afoitos outros bêbedos sujos, com os dentes necessários para chupar uma cana, "nove, cassete!".
Você nem notou quando derrubaram o velho por lhe colarem a carta maior na testa.
Fiquei dali, do fim da escada, acompanhando o Senhor, que descia a ladeira com as mãos no bolso da calça batida da tarde de ontem, amarrotada pelo sofá de hoje de manhã. No céu, sobre sua cabeça grisalha, pássaros de papel de seda armado, voavam e se prendiam aos fios. As crianças ao redor, cirandavam-no esperando ao chão aquele pássaro colorido que tinha uma rubéola de plástico.
Passou em frente de tanta gente, mas não viu ninguém.
Uma vida segredada. Transpirada pelas vestes sujas, sandálias de couro de chita e uma fivela de cinto de corvin.
Um mundo, só, é sempre mais mentiroso que um mundo a dois. Sabes disso, mas não confia nas mãos cedidas. O vi contornar a esquina no fim da ladeira. Quem sabe aonde foi? Pode ser que não tenha ido a lugar algum. Ou ido a muitos.
E mesmo indo nunca ao lugar de sempre, sabes bem, Senhor, que não lhe cabe suficientemente a pena de dançar com o vento.
Chorar para as sarjetas os dias seus que foram de ninguém.
Não há convites para almoços. Não há mulher que coza em casa. Não há filhos com presentes. Há você, Senhor, indo buscar no estreito de algum lugar, um nada cheio de surpresas que não sabe onde guardou.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

- sono

Não consigo dormir. Por mais que eu deite e feche os olhos, hoje eu não consigo dormir.
Rezei para todos os santos, anjos, arcanjos e querubins mas eles nunca responderam. Nem sequer para reclamar tantas rezas aflitas. Olhei para o teto e as trevas eram tantas que pedi para que enxergasse um demônio que fosse, para tomar um susto, daqueles que você se mija inteiro e chama pai e mãe para acudirem a qualquer custo. Não apareceu nenhum.
Levantei-me e vaguei pela casa. No quintal, lá fora, os gatos cantavam para as suas fêmeas alvoroçadas, meu vizinho se levantava para trabalhar, e eu? Eu andava pela casa, simplesmente. Percorri todos os cômodos sem acender luz alguma, apenas com o lume da madrugada.
Sentei no sofá. Na minha frente a televisão desligada. Tanto faz. O filme dos meus olhos é bem mais interessante que a afasia triste dos programas de auditório que temos pela madruga, ou mesmo aquelas vendas de sex shop, encontros de casais e um etecétera bem grande nessa alienação.
Depois de divagar comigo mesmo, senti fome.
Fui para cozinha me alimentar dos pensamentos sentado à cadeira. Café. Chocolate. Leite. Pão. Toalha xadrez. E eu aqui, neste emaranhado de escolhas, sem fome alguma de alimento.
Abri a porta e olhei a neblina que voava pela rua afora. Tateei pelo corredor, até chegar ao portão e depois poder me sentar a calçada, com as mãos no bolso, olhando o asfalto frio e úmido do orvalho das arvores e das nuvens cinzas que não deixariam o sol nascer naquela manhã.
Não entendo como os mendigos conseguem dormir neste frio que congela a espinha e enruga os dedos em apenas tão pouco tempo exposto. Mas também não entendo tanta coisa...
Não entendo nem de estar acordado agora. Penso em voltar à cama, mas está tão tarde para dormir... E é tão cedo para estar tarde.
Não há ninguém para conversar. Nem ao menos para fingir atenção no que faço.
Amanhã quando acordarem, vão me perguntar se dormi bem.
Vou dizer que sim, que dormi muito bem. Olharão aos meus olhos e dirão que pareço cansado. Vou sorrir e dizer que não. Para eles tanto faz se você está ou não. Perguntam por educação.
Acordar sem dormir, apenas por obrigação.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

- absorto

Sente-se.
Puxe uma cadeira, não demorará a terminar.
Sinto que estou longe do fim, ao mesmo tempo, longe do começo.
Não há nada que eu olhe que não lembre algo. Simbolismo.
Este dicionário vazio repleto de sinônimos mortos. Não há significado algum.
Creio estarmos sós. Na minha mente há algo que reflete sempre neste mesmo ponto que sou eu para além de você.
Sou um filme imaginário que criei para mim mesmo. Meu corpo, minha razão. É tudo tão insólito. Não cabe aqui a verdade que não existe. Me vale a certeza em confiança única.
O que é de mim se não eu mesmo?
Penso. E isto me vale como certo.
Vejo os outros como aquilo que penso deles. Você faz o mesmo.
Estou de acordo comigo quando digo que você é um universo inatingível que, tudo que somos e estamos agora, antes, depois a vir, é um universo diferente. Talvez eu tenha penetrado isso, mesmo não sabendo como. Ou talvez você nem sequer exista, mesmo existindo aqui no que eu planejei.
Sou um deus de mim mesmo?
Estou para além de tudo que disse, sem saber aonde vou cair. Sou alienado num principio infundamentalizado que é pensar.
Você me disse algo, eu penso. Reflito sobre a palavra que saiu de tua boca. Mas não chegarei a mesma conclusão que você, até porque, de certo, eu pensarei e associarei de maneira diferente aquilo que nós dois queríamos significar igualmente.
Há certa necessidade de se valer do fim. De se ter alguém como incontestável. Agnóstico.
A existência se dá nas lacunas do nada. Aquilo que se suga é subversivo. Pode ser que seja repetitivo, lacônico, vago, mas está exatamente no fato de não se existir. Imaginamos existência. Pensar é a exteriorização disso. Inventamos uma utopia de palavras, números e regras que são tão absortas. Estamos presos na problemática da razão. A concretização de utopias distorcidas. Tentamos compreender como nos cabe aquilo que um dia foi inventado para exemplificar um problema que um outro inventou porque não entendeu o que um outro quis dizer. Isso é fácil de entender da seguinte maneira: quando você sair daqui, terá uma série de pensamentos que concluiu por ter passado os olhos por cima dessas palavras. Pode ser que pense que sou louco, estou errado, claro, não tiro a sua razão, afinal ela é sua. Pode ser que pense também que isso não faz sentido. E o pior, pode ser você pense ter entendido. E quando tentar me explicar, ou explicar a um outro alguém, mesmo, talvez, pensando aproximadamente igual, por termos associado as experiências de nossos pensamentos e idéias quase que da mesma forma, ainda assim vamos divergir em algum ponto que seja.
É assim sempre, com tudo que existe. Inclusive essas palavras que para mim significam algo e que para você significa o mesmo algo de maneira diferente.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

- o velho e o pai

Sentado em sua cadeira de balanço rústica do começo dos tempos que ele vira muito bem passar, aguardava ao pôr-do-sol, acompanhado do ranger e a sinfonia das marchinhas do rádio à pilha que funcionava de tempos em tempos, quando não havia incidente de tempestades.
Nas suas mãos calejadas segurava uma caneca de bronze amassado pelos brindes comemorados de outros tempos bastardos que nem mesmo sua memória lhe dava conta de lembrar. Ali ficava, sem perceber as horas passarem, olhando circunstantemente para o mesmo ponto do horizonte que, naturalmente, com a obra da rotação terrestre, que, claro, lhe era desconhecida, se incumbia de mudar as cenas de cores nauseantes e trazer a noite de ventos fortes que atravessava seu pomar de narcisos e camélias e sua horta de poucas sustâncias a misturar no meio das ervas-daninhas devido aos maus cuidados que ele sabia muito bem ter cometido, mas que não corrigia porque as pernas já não o obedeciam mais.
Calçava uns chinelos de odor forte por não ser muito assíduo aos banhos. Trocava as roupas íntimas de quatro em quatro dias e sempre costurava um remendo novo a cada lavada de cuecas e meias.
Naquela noite, em especial, que trazia chuva, o velho estava com a sua melhor calça e cueca que havia comprado cerca de oito anos num armazém-brechó da região. Dizia ele, quando ainda falava com o povo da redondeza, que suas calças foram de um homem muito homem que ali viveu e guerreou, depois casou-se com uma índia das mais vermelhas e fogosas, levando-a ao altar num terno de linho branco e com aquelas calças que anos depois de sua morte a levaram ao armazém para esquecer a memória do morto. E agora eram suas, com louvores da premissa e superstição em questão.
Não lia uma vírgula sequer porque achava que a razão dos homens e seus papéis com regras descabidas não tinham valor no seu mundo atrás das cercas da campina. Sempre aprendeu observando o velho pai que falava pouco, esbravejava muito e lhe cobria de cascudos quando não atendia de certo o que lhe pedia, resmungando e mascando sempre seu capim-gordura que lhe dava um ar de robustez como um touro bravo.
Hoje, velho e aprendido segundo os costumes do senhor seu pai, que lhe cuidou bem na falta de sua mãe falecida, por ter lhe parido antes da hora, assistia àquela nostalgia da vida quando lia nas nuvens e nos raios cegos que lhe cortavam as retinas, estórias de tempos passados que há muito não ouvira mais.
Estava ali, sempre, mesmo não estando nunca.
E, mesmo com a caneca vazia, a garrafa de café de ontem, assistia aos fins aguardando outros começos, sem se queixar do vento que, por aqueles lados, sempre eram fortes por demais. Se cobria sempre com uma velha manta, também cheia de remendos, iguais em quantidades das suas cuecas, meias e a calça maltrapilha que pensava ser sua melhor. Nesta noite, em especial, o velho trazia no rosto um humor diferente dos dias anteriores e até mesmo diferente dos demais dias já vividos em seus oitenta anos de capão. Ele admirava o vento em sua humildade e simplicidade natural sem questionar o porque da chuva que sempre acontecia em seguida, mesmo temendo o destelhamento de sua casa alenta, feita de barro cozido e restos de pedras de trilhas nas quais andou em sua vida.
Por alguma razão que ele mesmo desconheceu, mesmo seu pai tendo lhe ensinado tudo que Deus mandou, a chuva se iniciou com um presságio de suas lágrimas. Diferentemente da salobra que escorria de seus olhos, a chuva era doce, mesmo sendo ácida e forte, e o velho riu para ninguém mais que ele mesmo.
O balanço de sua cadeira se tornava mais constante e o ranger diminuía à cerca que o vento assoviava cortando o vácuo do vale. Seu rádio emudecera devido a forte chuva, mas, mesmo assim, em seus pensamentos nostálgicos, ele conseguia ouvir as marchinhas de carnaval que, uma vez na vida, presenciou e riu até soltar as tripas mijando nos ombros do pai que o carregava empuleirado nas costas com a única intenção de fazer o filho miúdo enxergar as moças colombinas e os homens pierrots que adentravam à avenida principal da cidade numa muvuca frenética de aplausos e assovios. Naquele dia, o pai não lhe deu cascudo algum, nem repreendeu o desaforo do mijo com nenhuma bronca, porque estavam felizes ambos, já que nunca haviam visto na vida uma marchinha como aquela ou como alguma outra.
Esses pensamentos todos lhe invadiam os olhos carregados com o peso da idade e das recordações tantas que podiam desvencilhar como num filme mudo, repleto de falas, dentro de seus olhos.
O vento assoviava cada vez mais alto por dentro do vale, tremendo casas, arrancando galhos e arbustos velhos que já não tinham resistência devido a seca dos tempos anteriores. A chuva engrossara e o velho, por sua vez, não fazia nada além de repousar sob o horizonte sua visão frígida de um momento que não aquele, mesmo sendo aquele que, sabemos, ele não via, mesmo diante de seus olhos.
Lembrava de seu pai uma vez mais lhe contando sobre as chuvas, sobre como podar as flores e regar a horta que eles plantaram e cultivaram juntos. Talvez o velho agora compreendera que ensinara ao seu pai mais do que o pai poderia um dia ensinar a ele. Compreendeu isso ao recordar a robustez de seu pai que se tornava branda sempre que os dois adentravam ao jardim, pomar e horta. Via que dentro do velho pai havia um pudor que se desfazia toda vez que se sentava para apreciar as flores que cresciam respeitando o tempo de seu desabrochar. Também sorria com a confusão que via o filho fazer com o nome das verduras e legumes que regava pelo chão.
Hoje, este filho de oitenta anos, assistia ao vento que levava para os céus todas as flores e vegetais que se podia arrancar pelo caminho e que um dia, lá atrás, ele teria chorado se algo ameaçasse machucar seu imaculado cultivo. Agora, ele ria.
O vento invadia o seu pequeno espaço, três cômodos amplos, embora mal-feitos. Dentro da cozinha escutava-se as panelas que batiam violentamente umas contra as outras, derrubavam uns poucos copos do armário e depois o armário. Agora, próximo ao velho, numa velocidade exorbitante e forte.
E o velho de pernas fracas, não podia e nem conseguiria fazer nada.
Buscou no pensamento algo que lhe trouxesse conforto e calmaria, mas não soube como se expressar. Caiu no chão, desengonçado e dolorido, e ali ficou sem pestanejar. O vento destruía tudo e ele não podia fazer nada senão olhar.
Lembrou uma vez mais de seu pai, quando morreu no jardim a enfartar. Correu para resgatar o velho, mesmo não tendo muito para ajudar. Seu pai disse que não tinha jeito, que, nesse mundo, não importa o tamanho da ajuda, sempre somos sozinhos para morrer.
Então o filho ali permaneceu e assistiu ao último suspiro do pai, sem reclamar nada. Enquanto o pai se consumia ele pensava em choramingar suas desculpas descabidas, mas o pai então lhe segurou forte as mãos e resmungou suas últimas queixas e sabedorias para o filho gravar. "Hoje tens barba como eu, já podes se virar. Ensinei a ti o que Deus me deu, então é bom não se esquecer jamais." O filho ali permaneceu e, algum tempo depois, quando pensou em se levantar, o pai ainda lhe disse, antes de sucumbir, umas palavras que ele não pôde se esquecer. "Deixe-me aqui, o vento se encarregará de me enterrar, o mesmo digo a ti, que findará só, nesta campina grande, Também o vento será responsável por te guardar."
Então o velho compreendeu seu fim, ali, prostrado ao chão de cascalho e terra batida.
Sorriu. Viu o vento cortar as frutas, as verduras e legumes que ainda sobravam, e viu adentrar uma vez mais a sua casa que estremeceu até rachar. O velho fechou os olhos e aceitou o fim.
- Tem razão, meu pai, morro aqui no nosso lugar.
A casa lhe caiu sobre o corpo. Ele assistiu às dores sem sequer gritar. Quando por fim morreu em paz, na nostalgia de seus dias, o vento se foi pela campina.
O rádio, no meio dos escombros, voltou a funcionar, e tocou na despedida, a mesma marchinha que o velho escutou quando era filho nas costas de seu pai.

sexta-feira, 27 de julho de 2007

- os traumas de emile

Emile e eu nos sentamos tarde da noite para brigar às custas de nossas diferenças casuais e que de fato valia discutir.
- Você deveria se cuidar mais. Diz querer ter filhos e querer netos, mas não cuida do seu coração - reclamou em timbre alto para que todos à volta soubessem que eu não seria um avô dedicado.
- Você sabe, gosto de fazer apenas o necessário.
Emile reprovou com um não sincero balançando a cabeça e acendeu um cigarro. Naquela hora pensei em falar mal de seus pulmões, mas ela estava muito bonita para eu a reprovar naquela noite.
- Sabe de outra coisa? - apontou nos meus olhos, tragou lentamente antes de pronunciar o que me deixaria nitidamente emputecido.
- Você é bastante egoísta. Parece um velho precoce.
Que mulher ufana, pensei. Confesso que precisei me conter para não ralhar com ela sobre essa incrível capacidade de se achar tão perfeita e com intelecto suficiente para falar mal dos outros sempre achando que a razão lhe cabe. Ela faz terapia há três malditos anos porque seu bendito namorado do colegial descobriu que na faculdade as mulheres davam mais fáceis do que ela -e, que segundo ele, faz um drama quando se trata de sexo.
Eu nunca me importei com os sermões malogrados de Emile porque sempre soube que eram feridas do seu ego mal amado. Mas devo confessar que acho de uma puta falta de senso quando ela compara as suas experiências mal resolvidas com as minhas dizendo que somos todos farinha do mesmo saco. E sempre a bendita termina dizendo, "Você sabe, eu tenho razão, já vivi o que você está pensando em viver.". Porra, se não me fosse a educação do momento eu soltaria umas verdades fundamentalizadas pelas conversas que tive com Evandro, o bancário que a acertou no meio.
Emile acha que três minutos gemendo debaixo de um homem bastam como experiência de vida. Sempre me vem com conversas pós-sexo que presume a definir como a nova filósofa de teorias dialéticas. Evandro disse-me que ela adora conversar sobre o futuro acompanhado do parceiro de travesseiro. Também me confessou que, Emile, depois de um papai e mamãe dos mais aflitos e precoces, disse a ele que já estava na hora de trocar as molas da cama porque aquilo acabaria com a coluna dela e que o lustre retrô desfavorecia a luz do ambiente a cegando quando olhava ao teto durante o coito.
Porra, pensei, não sei quem é mais ruim de cama, até porque, Evandro, depois de desconjurar a ninfa arquiteta, disse-me que naquela noite tudo deu errado porque a contabilidade e as consultorias iam mal das pernas em seu departamento de gerência do banco.
Um pensando no colchão king size para a coluna e lustres que façam dormir como um anjo tragado pela luz branca do paraíso e o outro que pensa nos clientes - de quatro, talvez - que o fará rico com as maletas gordas.
Seria melhor e mais justo para os dois alegarem dor de cabeça e dormirem cada um com os seus problemas.
- Em que você está pensando, homem? Vês, por isso que todo mundo diz que você não irá a lugar algum. É um avoado das idéias. Enquanto te falo coisas importantes, você fica aí se desgraçando com esses pensamentos baratos!
Quem essa decoradora do prazer, arquiteta das noites, se tornou? Se ela soubesse metade do que pensei já teria me abandonado nesta mesa me xingando e condenando às suas amigas e amigos de todos os cantos que ela pudesse profetizar as minhas confissões que a difamaram, porque, como sempre, ela é a vítima e a poderosa, tudo no mesmo instante, basta saber qual a favorece.
- Emile, você não vale um puto furado. Nem mesmo as palavras que fala.
- Você sabe que tenho razão, não tente me fazer de idiota, meu querido, sabemos quem não vale o que come.
Emile sempre acha que me traga nas suas invasivas de blefe. Ela acha que a vida é uma partida de truco. E ainda pisca, sempre, depois que diz uma frase de impacto achando que aquele foi o zap. Eu rio, até porque se eu a xingar, difamar ou mesmo insinuar algo que a condene, ela acabará com o espetáculo fechando as cortinas e dizendo para eu ir embora, como sempre acontece toda noite que se é possível tentar conversar.
- Minha terapeuta disse que eu devo esquecer o Evandro saindo com outros homens.
- Você não precisava ter pago cento e cinqüenta reais para ouvir isso daquela velha quase surda. Eu disse isso a você.
- Eu sei, é por isso que estamos aqui, querido.
- Não entendo, passei de avoador barato para príncipe em corcel alado rápido demais.
Senti que ela se perturbou por mexer nos curtos fios da franja. Apagou o cigarro. Baforou na minha cara e disse:
- Você sabe, nossas diferenças nos aproximam.
- Sim, sei... - Na verdade não sei de nada, só disse isso para saber como ela concluiria aquilo tudo, já que expressava nos olhos uma súbita e leviana confissão que só lhe caberia me comprazer naquele momento.
- Reformei meu apartamento. Comprei um novo lustre, um colchão de molas... Ficou lindo, querido.
Naquele momento tive que rir. Pelo flerte e pelas nuances que ela retratou. Era claro, evidente e mais que notório que ela gostaria de curar as tardes de divã que pagou por causa do bancário.
- Como você é ridícula, Emile. Você consegue ser mais egoísta que eu. Comprou uma cama de molas e um lustre!
- E? O que isso tem a ver com egoísmo?
Claro que ela não entendeu, eu tinha que falar, mas já preparava para partir em retirada depois das verdades. Antes que ópio me tomasse gosto na boca trazendo junto a covardia, tratei logo de incinerar a ponta do charuto e me levantar. Assim que baforei nas ventas dela respondi:
- Não precisa de mim. Acenda a luz e pule na cama, você se divertirá mais. Você acha que eu vou até seu quarto para assistir a você gemendo ao novo lustre e às molas?
Pisquei para ela. Sai sem olhar para trás.
Dias depois, encontrei Evandro. Disse-me que ele e Emile haviam se acertado porque ela implorou perdão chorando. Mas ele não entendia uma coisa: por que diabos ela adquirira o hábito de fumar charutos depois do coito?

domingo, 15 de julho de 2007

- as begônias do jardim

Deixe-me dizer uma coisa antes que você saia por esta porta e não volte mais.
Não há  muito a se lembrar, nem um drama mórfico para se esquecer.
Estamos todos velhos demais, e, daqui para pior, as coisas começam a entrevar, como num ranger descomunal de móveis velhos de carvalho. Todo movimento é passível à dor. Sinto que não sou mais como nos nossos tempos virís em que fazíamos aquele sexo frenético de horas a fio na madrugada do inverno. Sufocávamos ávidos nas paixões e não nos cansávamos embora as horas passassem rápidas e os minutos fossem nossos segundos de transpirações.
"Estas noites curtas para nossas vidas" se dizia, e hoje elas são tão longas para minha consciência que se perde em fios de lembranças confusas, desde a hora em que levanto até a hora em que anoitece, às dezoito horas, e já me cansa os olhos os vultos das estrelas que acendem para inflamar o céu.
Antes que fechemos a porta de nossa casa e você carregue todas suas begônias coloridas cada uma com a cor de seu humor particular, gostaria de te lembrar sobre como suas mãos eram tão frias, e como as preserva imóveis agora diante de mim, segurando estas flores da cor de seu humor perpétuo.
Antes que saia agora por esta porta, deixe-me fitá-la uma vez mais de olhos bem fechados, neste vestido de colombina que há tanto tempo não o via em seu corpo com perfume das flores.
Quero guardar comigo este pensamento, para quando amanhã de manhã suas irmãs carregarem sem meu consentimento suas roupas de outros dias e seus pertences para a casa delas.
Antes que eu chore com a tua partida por lembrar os pormenores de nossas conversas e divagações que nos levava a milhares de idéias e invenções que mundo discordava e que nos fazia desejar o que não existia, mas que para nós satisfazia muito bem.
Deixe-me olhar uma vez mais ao seu estado, para que eu reclame comigo mesmo na discordância das horas que não mais pertencerão a nós e sim a minha ignorância grosseira de falar o que der na veneta comigo mesmo, sem você discordar ou reforçar com medos e pretensões.
Antes que você saia e não volte mais, deixe-me dizer mais uma coisa: Leve com você este cheiro de morte, estas begônias todas que colhi e plantei ao seu redor em seu pequeno espaço eterno, para que você plante consigo na terra, e que estas begônias mantenham-na perfumada por toda eternidade ou ao menos para quando eu for lacrado daqui a algum tempo ao teu lado, sinta o perfume e saiba onde você está me esperando, com a begônia de humores nas mãos, para oferecer para mim no jardim do Éden que você plantou.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

- gustavo brito póstumo

- Você conhecia o Gustavo Brito desde quando?
- Bem, o conheci muito cedo, quase sempre estudávamos juntos.
- E como era conviver com ele?
- E ele sempre foi meio nonsense, sincero e bastante crítico. Jamais o vi agir de outra forma, o que lhe dava a impressão de ser chato e ter bastantes inimigos.
- E ele reclamava muito?
- Não digo que ele reclamava muito. Na verdade ele enxergava muitos problemas nas coisas, que, de fato existia, mas as pessoas não gostavam de acompanhá-lo. Ele sempre estava sentado especulando sobre algo, por mais inútil que fosse, ele tentava tirar algum proveito.
- E você sabe quando foi que ele começou a escrever?
- Sempre o vi escrevendo, e é até bizarro de responder a isso porque ele sempre tinha umas viagens em relação a escrever. Quando não escrevia, desenhava. Lembro até de um episódio dele, quando era bem pequeno, uns quatro anos, e desenhou uma figura do livro e, puta merda, ficou idêntica! E as professoras contestaram, disseram que ele tinha colocado por cima, copiado; porra, lembro-me que ele ficou totalmente puto, xingou a professora por desacreditar dele. Levou uma advertência... Aquelas coisas pra criança: "seu filho desacatou a professora" mas, pra ele, aquilo foi um absurdo, ele realmente levou muito a sério.
- Alguns amigos dizem que ele tinha muitos medos, é verdade?
- Sim, é, embora ele nunca tivesse dado o braço a torcer, ele era muito medroso, e eram medos que na maioria das vezes eram abstratos. Ele tinha mais medo de espíritos a noite do que ladrões. Para ele, era pior acender uma lâmpada repentinamente a alguém bater à porta as 3 da manhã. Mas ele não falava muito de ter medo... Acho que por ser muito orgulhoso, de fato ele era bastante orgulhoso, e, quando a depressão aflorava, ele se sentia um bosta. Dizia que não gostava muito das pessoas, de viver, e que tudo o entediava. E de fato parecia ser verdade.
- Você esteve com ele todos esses anos e até mais ou menos perto de quando ele morreu. Sabe se ele estava com medo?
- Não, não, ele estava muito bem. Sua esposa, filhos, família... Enfim, estavam todos ótimos, e ele não se preocupava. Também não teria como, né, ele não ia prever uma morte tão casual assim. Ele sempre teve medo de saber que ia morrer, de ficar velho... Honestamente, acho que morrer assim, repentinamente, para ele, foi como um presente de Deus.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

- aurora boreal

Um suspiro para que comece o dia, e para que ele morra logo após o café da manhã, sem manteiga, sem pão, sem café. Cortinas amareladas, e ratos que transitam pelo meio do corredor. Eram duas da matina, quando os raios de não sei o que me cegaram os olhos, trazendo a calamidade da realidade. A Preguiça que se contorcia, e se exasperava pela porta, temendo a efêmera Esperança que se atirava pela janela. Calavam-se no meio do vento a Sinceridade e outra senhora que eu temia ser a Morte - Tá legal - pensei, hoje depois das dez, eu sairei para trabalhar. Correrei por entre os becos, virarei algumas latas de lixo, procurando um leprechaun. Mas, ali, naquela hora, eu só queria ver a Esperança pulando do sétimo andar para lugar algum. A Preguiça a salvaria, se não fosse esse o seu nome.
Meu café chegou frio à cama. Preguiça...
Quando a Esperança jazia agonizando entre os arbustos de urtiga, a Morte veio e lhe tocou a música mais sublime na harpa. A Sinceridade lhe disse palavras duras, e depois cuspiu no túmulo herbívoro, culpando a defunta de ser amiga mais íntima da Utopia.
- Valha-me desta morada... Se não fosse pelos cantos quentes.
Ainda são quatro horas. Como a Esperança fede rápido. Já posso ver os carniceiros atacando-lhe a barriga fina... - que fome, pena estar cru. Olhe, veja! Estão ali, dançando em frente à lareira, duas bailarinas e um político. As bailarinas de terno, o político de collant. Quis dançar também. Romper o silêncio d'alma numa dança frenética com vaga-lumes e bailarinas empenadas.
Estou cansado. São quase cinco, vou me deitar.
Sempre que durmo, morro mais uma vez. Uma morte falsa que visito onde nunca fui, nunca estive, mas conheço bem.
- As pessoas gostam do falso, desde que não seja mentiroso...
O que sou eu nestes trapos? Esta roupa com pele e pêlos. O que sou eu afinal? Acordar para morrer de novo em mais um dia. Na serenata da noite, junto com meus amigos oniscientes: damas e cavalheiros.
Prefiro a amiga Insônia, que, junto com a Preguiça, jogamos cartas, falamos mal da Felicidade - que nunca veio visitar a minha casa. Mandou a irmã: Alegria. Coitada, acanhada, insegura, de vez em quando nos faz rir com seus lapsos.
Hoje, quem sabe, aparecerá a Ilusão, lhe devo dinheiro, ela vem cobrar. Vem junto com a Angustia - desgraçada amiga que me dá náuseas.
São oito horas. A tão esperada hora do suspiro. Insegurança me traz um chá.
- Receio que seja a hora, amigo.
Ela tem razão.
- Mas não vi a Culpa, gostaria de saber porque não veio me visitar.
- Já está tarde, amigo. Vá ou vai se atrasar.
- Estou sempre a tempo, querida Insegurança. Tchau, se cuide.
- Tentarei. Bom trabalho, Tédio.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

- a vida lá fora

Lá fora se tornou comum demais...
Pessoas passam o tempo todo,
multiplicam-se no meio da multidão.
Pernas descompassadas driblam umas às outras,
em meio ao concreto batido com bitucas de cigarro e chiclete mascado.
Sabe, lá fora é monótono demais.
Olhar da janela já não basta.
Luzes acesas, trânsito caótico,
e árvores de folhas tingidas de negro carbônico,
regadas com a chuva ácida pela manhã!
- Hum, que bom! Inalando minha dose de bronquite asmática perto dos musgos que se prendem na parede do meu prédio!...
Sabe, olhar lá fora amedronta demais.
Ver pessoas correndo, ávidas, em ponto de bala,
para alcançar o último ônibus que se aproxima da parada.
Alguns driblam becos, desconfiados,
achando que as paredes destes virarão braços.
As luzes dos postes, olhos famintos em busca de vítimas.
Se você corre: é ladrão. Se anda: é aladroado.
Sabe, lá fora é chato demais...
Por todos os dias, você vê amanhecer.
Vê o lixeiro brigar com o mendigo nômade ou com o andarilho faminto em busca de uma lata de lixo premiada.
Vê aquela senhora comprando o leite,
repartindo com o gatinho estimado que ela cuida.
Vê um pai arrumando a roda do carro,
com o celular na orelha esquerda e na direita escora o cigarro.
Vê crianças indo à escola com suas mães, algumas só, chutam latas na rua.
Nossas vidas são comuns demais, poucos vêem o tanto que passa.
Descrever menos ainda.
Mas, sabe... lá fora a vida acontece demais.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

- revolução indivdual

A vida é um eterno rascunho de abstrações que se tornam concretas com idéias de outras pessoas, mas que querem se passar por nós generalizando aquilo que lhes convêm.
E permutam pensamentos convencionais sobre aqueles que concordam com palavras difíceis sem saber ao certo o que querem dizer. E insistem em dizer as mesmas coisas que queriam ser ditas ao contrário, por se encaixar em dúvida com a efemeridade inconstante de seus problemas.
Pouco honesto, quanto menos suficiente, mas insistem em colaborar nas desgraçadas palavras devoradas por seus dicionários lingüísticos de sabedoria ditosa! Engolem verbos, provérbios e substantivos adjetivados de mentiras cabulosas!
Aparecem na mídia expansiva por serem papas regidos pelo deus capital. Comandam a nós, fantoches e equilibristas da realidade assalariada, num mínimo de paciência e notas frias.
Torcemos para que o amanhã venha e vença e nos inunde de uma coragem trombetante, e que nosso canto sem compasso ensurdeça os ouvidos dos que ouvem aquilo que ainda não foi noticiado.
Calemo-nos. Esperemos a voz do poder falar mais alto, e quando ela se rebelar, apontemos nossos dedos sujos de óleo e terra, suor e sangue, acusação e negação. Riamos do teatro político que encena bem na realidade.
Vomitemos o alimento fatídico que sacrificamos para conseguir o sonho de viver. Xinguemos sem ter motivo, mas pelo simples fato de termos vontade à invocação da liberdade.
Mostremos a eles - idólatras de merda! - que não somos parte de uma geração sem luta concreta, e que o deus que nos cerca é mesmo da física, do cristão, do muçulmano, do hindu e ateu. E o que implica a nossa reza é a vontade de cuspir no político profeta que escandaliza o país numa festa frenética de corrupção de indultos salários ao seu povo rico tornado plebeu.
Filhos da puta de nossa geração! Acordem!
Vistam a bandeira como uma camisa e cuspa nos mártires de razão manipuladora, dos esquivos ladrões de impostos de renda, mestres do caixa forte, caixa dois e igrejas - tantas, escravizadoras de pobres que vendem um lugar no paraíso confortável com uma grande parcela de seu pagamento.
Digam a verdade, invoquem a coragem e batam no próprio peito urrando o amor de si próprio. Chorem por existir, chorem de amor pelos sonhos que alcançarão. Chorem por aquilo que verão. Pelos campos verdes e únicos, pelas manhãs de chuva. Pelos tempos difíceis na seca, no frio, geada e neve.
Chorem por sangrar. Chorem por chorar de rir, mas chorem, porque o que fortalece é aquilo que se sente e se interpreta como apelo de seres únicos. Sejamos únicos, sejamos seres mais humanos. Sejamos aqueles que evoluíram no escândalo da natureza e reconhecemo-nos através de turvas águas como sendo a nós mesmos os únicos a sabermos como nos movimentar!
Minta para si mesmo e viva na ilusão de merda acreditando nas palavras que você sonhava ser verdade em segredo, mas sentiu preguiça de querer realizá-las.
Viva invejando, morra na derrota. Viva lutando, morra na tentativa. Viva hesitando, morra insípido. Viva aprendendo, morra ensinando.
O que você quer para si? O que você quer levar até quando puder resmungar na velhice lembrando daquilo que fez e se corroendo por ser o que foi?
Sempre terás a sensação de vazio, por mais completo que aches que seja. Sempre sentirás frio, por mais aquecido que se sinta. Sempre morrerá sozinho, por mais acompanhado que estejas.
Mas, sempre! sempre! Sempre se lembrará de ter sido aquilo que sonhou ser, aquilo que sonhou ter. E sempre será um pouco a mais ou a menos, dependendo do dia que você viver.
A morte define sua história toda nas lágrimas e lamentos de palavras daqueles que viveram ao seu redor. Ou se morre honrado, ou apenas se morre.
Por mais que escrevam resenhas e versos, discursos e noticias sobre sua vida. Você apenas levará consigo aquilo que deixou para eles entenderem depois de chorarem.
Você morre, para que eles comecem a viver.
Portanto. Aprenda, experimente, indague, busque, sinta, arda, lascive... Faça o que puder para valer a pena o seu ponto final.
Não existe uma borracha para que apaguemos aquilo que já foi vivido. A vida é um rascunho repleto de experimentos fóbicos e excitantes, e você os molda, mas não sabe onde vai chegar. É como as palavras... você as diz, mas não sabe como vai atingir.
Esta é a graça da vida. Tudo depende daquilo que está por vir, daquilo que vem, e foi. Depende de sentir ou não sentir. E de pensar que eles entenderam da maneira que você desejaria ouvir.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

- balada da mulher controversa

Sem titubear nas lágrimas ela abraçou o seu ursinho de pelúcia encardido de outros dias de choro e deitou no chão do quarto, sobre o tapete aveludado que exalava o aroma mórbido de cão molhado. Lá permaneceu em suas longas horas de angustia escarnecida que lembrava os pobres cães abandonados ao léu sem rumo para tomar. Se lhe fosse válida todas aquelas lágrimas bastardas que lhe escorriam por entre os poros fervidos de ódio, quem sabe ainda ela poderia se lembrar o motivo total das enxaquecas seguidas de febre e choro constantes, uma paixão doentia, bucólica, que adentrava as mamas cruas de um coração forte.
O incomodo não a permitia abrir os olhos, talvez por remeter dentro destes um filme mudo, cheio de falas que ela conhecia muito bem, que não eram decoradas, pelo contrário, eram ditas unicamente com o coração ardente em chamas, frases completas que dispensavam a febre dos punhos de um poeta árduo que se fizesse rogado em sonetos ou versos livres.
Seus lábios vermelhos de ternura e confissão se contraíam entre os dentes que os prendiam, seguravam, para não confessar na sonoridade da voz calma sua enaltecida palavra sentimental.
Agarrava, com as unhas vermelhas e largas, as entranhas da pelúcia que se contorcia, assim como seu ego frágil e censurado pelas mentiras de outrora. Sua posição fetal mostrava toda fragilidade, como se desejasse alguém para lhe tomar nos braços, alguém que a socorresse, que a fizesse sentir o calor do colo, do abraço ardente que a incinerasse por dentro e transformasse a angustia numa palavra tola, sem sentido para seus lábios vermelhos.
Seus pés descalços, talvez por se sentir sem chão, se sentir sem uma base que a plantasse na realidade tátil.
Àquelas horas lânguidas, aquela ilusão sua, um ventre cheio de sentimentos nauseantes, uma mente sem razão, mergulhada nas lágrimas, sem uma barca para repousar o corpo e secar o sal de pecados passionais.
Se não fosse a sonoridade dos segundos que a embalasse no silêncio inexistente da sua utópica imaginação, as tormentas lhe sangrariam mais e mais, até que se pudesse senti-la agonizar em prantos, numa morte lenta daquele dia, para nascer num outro e morrer novamente.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

- cólera da solidão

Na solidão das noites, num emaranhado de cobertores que não conseguem aquecer as pontas de meus dedos, lembro-me quando ela veio aqui em casa e se desvencilhou por entre esse mesmo cobertor que hoje me cubro só. No baú, ao pé da cama, ela se sentou, nua, e me contou como eram as coisas. Naquela noite rimos bastante. Não nos importávamos com a escuridão que se tornava cada vez mais o amanhã. Era como se não houvesse paredes, mas também como se não houvesse ninguém ou alguém que pudesse nos ver. Lembro também de me contentar em tocar seu rosto fino, sua pele quente e de flertar bem dentro dos olhos dela procurando uma dúvida que ela não transpassara jamais. Ela ria, cada parágrafo que terminava de pronunciar. Colocava a mão sobre os lábios, demonstrando uma vergonha, uma inibição que eu também sentia... mas por medo de tocá-la. Não seria pecado algum denunciar-me para ela, estávamos a sós. Eu figurava naquele cômodo meu como um desconhecido que nunca estivera ali. Ela sabia bem que eu não conseguiria demonstrar-lhe minha paixão. Quando deixava a minha mão deslizar sobre seu rosto, num súbito suspiro trêmulo, ela se confortava por entre o palmo, repousando ali a face, fechando os olhos, numa transpiração leve e quente. Pensei em beijá-la, mas não me vale os atos, quando os pensamentos já fazem tudo que se quer fazer. Se envolvendo nos meus braços, como num abraço sem medo da cólera do amor, ela parecia querer repousar sobre mim. Tive medo. Confortável, mas com medo. A utopia em lençóis que queimava de verdade, incinerando-me por dentro a cada instante eloqüente que ela me despertava numa chama de toques, suspiros e vozes ruidosas ao pé do ouvido. Naquela madrugada fria, o calor duo que nos circundava era cada vez maior. Intenso. Se me fosse vago, incendiário e forte, seria mais uma vez como nunca. Na verdade, como nunca foi antes.
Era a unicidade que me colocara ali, disposto a ela, e ela a mim. Não haveria um amanhã naquela noite que adormecia para nos deixar a sós. Não houve barulho de relógio, tampouco as horas passaram naquele instante único que se fez perpétuo. Éramos sós. Éramos dois dentro da solidão dos tempos, apenas com o frenesi dos pensamentos quimerizados em toques.
Figurar-se-ia em ti mais uma vez e mais outras, quem sabe, se naquele instante não houvéssemos percebido o quão distante era a solidão. Estávamos tão juntos e tão longe do que nos afligia que se fez capaz de ver novamente as horas e o dia claro que nos cegava e nos brindava com a ressaca de nossas sensações ardentes.
Agora fico só, com os pés frios, congelados, esperando que a noite volte, que o tempo pare, que o silêncio se quebre em ruídos teus.

domingo, 29 de abril de 2007

- Cavillar

Se não fosse o atendimento rubro do vizinho, dono da taberna e homem de 5 gueixas que ele dava conta muito bem, talvez o coronel e mais alguns outros soldados da infantaria reagiriam mal no recinto do homem de bigodes magros.
No fim de tudo, era mais um alívio sem presunção alguma, até porque, quando se olharam por entre os ombros, disfarçando a vergonha alheia, se via no catre dos rapazes a angustia para puxar o gatilho.
- Valha-me Deus se não for verdade que essas gueixas que você acolhe forem realmente japonesas!
Naquela noite desgovernada, todos estavam pardos, exceto pela voz do varão do recinto. Aquele homem mirrado que abraçava as japonesas que não eram amarelas.
Do outro lado da mesa, perto da porta do sallon, prostrava-se o coronel de longas datas, um homem forte, uma exuberância grisalha de gordura e suor. Seus subordinados, que dragavam as mulheres das mesas eram como ele, só que mais taciturnos na postura de soldado velho.
Com aquela condolescencia de poucos amigos, mascando sua folha de coca e segurando o cinto que quase desaparecia embaixo da barriga redonda, olhou com o olhar de desprezo para toda aquela gente que tremia frígida nas mesas, paralisavam pelo respeito legendário do homem que mais uma vez fingia ser a força de cidade estampada de um fulgor sem serenidade nos olhos de cada cidadão.
- Senhor Coronel!- gritou um gajo na multidão.
O coronel cessou no instante seu cerrar de dentes e bufou para a direção do homem corcunda que lhe pedira a atenção.
- Fale, homem, de que me vale este braço erguido?
As mulheres do sallon, com seus leques imóveis, olharam para trás procurando o corajoso da noite que tentava explicar, sem medo de perder os bofes, o que se tratava aquela rechaça de gueixas monumentais que não eram amarelas.
- Senhor, as gueixas vieram no desembarque da semana passada, junto com os elefantes brancos que divertiram nosso povo no circo.
Poderia ser verdade, se não fossem os vestidos de cigana que as mulheres vestiam.
- Sei, e tu queres que eu acredite que essas grampolas são orientais? - replicou passando a mão na barba casta e cuspindo a folha de coca. Caíra na mesa da dama de vermelho que mostrava suas vestes particulares ao sallon, não notara, pois, estava hipnotizada por aqueles homens de rifles e ordens condecoradas. E ai daquele que reclamasse a sorte, poderia levar chumbo nas ventas se ousasse falar sem ter a ordem.
- Você fala feito maricas, velho caquético - gritou o coronel.
O homem suou frio e se escondeu atrás da mesa, encurvando a espinha trêmula e olhando por entre os joelhos pensando ter se mijado todo.
Passando o olhar pelo povo, o coronel sustentou sua arma por entre os dedos, apoiada no catre e ali ficou, metrificando o espaço com os olhos ávidos e a destreza sabida dos tempos de guerra de trincheiras que lutara quando novo. Seus subordinados, acompanhavam, mas não olhando para os arredores, e sim para as damas que se insinuavam, não por tesão ou prazer inato do momento, mas pela misericórdia do medo que atentava explicitamente de lhes rifarem um chumbo nas entranhas.
- Vou levar essas orientais comigo, Cavillar, e ai de ti se se queixar da sorte!
Não houve protesto. Cavillar apenas perguntou aonde as levariam, mas o coronel se fez rogado e saiu sem lhe responder, apenas apunhalando na mesa um punhal com a inscrição da delegacia central.
Continuaram todos, quando os subordinados e o mandante saíram do lugar, suas bebedeiras desgovernadas, como se não houvesse acontecido nada. Apenas Cavillar ficara desolado com sua fúria de vinte e sete anos que pouco sabia administrar na força da magreza de seus ossos. Ficou por tempos, estático, olhando à porta do sallon e imaginando se abusariam de suas musas não amarelas que conquistou num impasse de herói arrombador de trens.
- Se tocarem em uma que seja, lhe corto os bagos, filhos da puta!
***
- Cavillar irá diretamente para a delegacia, homens, que lhes fiquem claro o aviso. Escondam essas putas num hotel barato, mas hajam como se elas fossem suas damas.
Não houve objeção de parte alguma. Os soldados raramente abriam a boca para pestanejar ou reclamar o assunto. Viam naquele homem - fora o suor aparente e carniceiro - um respeito intransigente que lhes cortavam as falas e calavam a razão, submetendo-se nas regras cuspidas o comum asco de coca e uísques desviados do trens da capital. Eram sete homens, dois deles eram sangues nobres do governo da cidade, filhos da força política que desgrenhavam ordens e participavam das corrupções extravagantes, sustentando-se nas costas do povo, já que não haviam objeções aos seus rigores, e eram feitas vistas grossas para estes homens que mais pareciam peças de um monumento público, que cheiravam as cagadas das pombas, a mijo de mendigos e as cusparadas e vômitos de bêbedos que dormiam no antro da cidade e viam esta demonstração sem pudor que estes dois homens se sujeitavam.
Para o coronel isto era mais que natural, desde que lhe fosse participado algumas das regalias.
Seus outros cinco homens eram todos filhos do estado, estavam ali unicamente pelo fato de ter de sustentar um rebanho de filhos e uma ou duas esposas roliças e algumas amantes luxuosas que desfrutavam no sallon todas as sextas-feiras, e diziam as suas madames redondas que estavam a serviço do governo, num plantão obrigatório.
Coronel era o único que não participava destas artes no sallon, tampouco se interessava. Sujeitava-se a ficar assistindo a noite cair por de trás dos morros, tomando seu uísque e mascando sua folha de coca. Quase não dormia, e quando já lhe entediava o prazer da noite, saía por dentre as periferias e se consternava na capela da igreja, para se redimir nas considerações de seu santo Senhor, inteiramente bêbado, já que só assim a lucidez de sua alma se mostrava para si próprio e escondida de todos os outros. E claro, não podiam saber de sua devoção.
Quando acordava, bem cedo, antes dos fiéis chegarem para a benção do padre, o coronel se exasperava para a estação de trem para saber com seus subordinados, se havia chegado alguém sem visto ou com algo que lhe fosse de interesse para confiscar. Era sempre assim. Talvez por isso tivesse tanta birra das grampolas de Cavillar, pela razão de num daqueles dias ele ter conseguido confiscá-las primeiro que o mascador de coca.

domingo, 15 de abril de 2007

- tão perto, mas tão distante

Não vou bater a sua porta esperando que você entenda. Até porque seria um desperdício de tempo, gastar meu tempo assim, como se ele não valesse muito.
Por todos aqueles caminhos que andei jamais vi algum que florescesse desta maneira, com arvores e flores que sustentam uma luz própria e até na noite mais minguante consegue sustentar um caminho vívido.
Desculpe não limpar meus pés em seu capacho. Não penso que meus pés estejam sujos. Muito pelo contrário, até penso que meus pés não podem pisar nesse seu chão tão imundo. Você não entende. Não venho aqui procurando amor. Não trago na mão uma rosa das mais vermelhas e apaixonantes. Também não carrego comigo aquela face alegre e distante da realidade, tragada pela paixão. Tenho por você a visão fúnebre do meu fardo real. A minha vida de vinte e quatro horas que passa por palavras que esperam as respostas que não vêem.
Não penso que lerás isso, tampouco me importa. Até porque, cada dia, eu penso mais, entendo menos. Sei que soube de coisas que eu não saberia explicar.
Apaixonar dói. Lutar sangra.
Diga-me, há algo nesse mundo que não sustente a dor?
Levo essa vida só, mentirosa. Uma vida só é mais mentirosa que uma vida a sós.
Nos velhos tempos, com retratos figurados, cheios de rostos lindos, eu era aquele que vestia um terno cheio de romances. Um terno de flores de diversas mulheres que eu não tive, mas fingi ter.
A impaciência pela busca de alguém que me completasse e me dragasse para dentro com aqueles lábios únicos e verticulados.
Procurei palavras sólidas nos pensamentos de quem pensei saber ver. Segurei nas mãos de muitas, mas não soube o que era ir além. Sempre carreguei o beijo diário na minha mente, já que não sabia como agir para ter na realidade.
Não sou um sapo. Não me tornarei príncipe.
Sou aquele, no canto, com as mãos no bolso. Observando as situações.
Olhando de lado para aqueles que vêem e vão numa fila compassada de acasos. Tento sempre entender demais. Mesmo que não possa, desgasto-me com isso. Já passeei por jardins que supuseram ser secretos, sentei e esperei que viesse aquela dama num vestido branco, toda angelical. Uma espera tola, digo. Com certeza é. Mas às vezes é necessário saber que isso não irá acontecer de verdade. Sentir que não existe.
Ainda corro por seus olhos...
Talvez você não entenda o que eu quero dizer. Por mais que eu tente dizer, e viva nessa espera. Pode ser que não se manifeste. Que prefira voltar suas atenções aos lados, fingir que não se importa; enquanto eu fecho os olhos e finjo estar com aquela dama de branco, que corre pelos campos e deita sobre a grama do jardim secreto. E no fim, quando removo o véu, descubro que é aquela que sempre se fez distante.

sábado, 31 de março de 2007

- monólogo com espelho

Eu sempre achei que não fosse chorar por coisas simples por se tratarem de serem tão simples.
Ainda acho que a temática da vida é algo tão subliminar que esvai dos pequenos gestos a todos os lados, todos os instantes. Você respira aquilo que traga e pensa querer demonstrar tudo de maneira contagiante. Sempre quis ter o elmo dos melhores guerreiros. Sempre quis ser um deles. Aliás, nunca fui nada de tão importante para ninguém. Não que eu não me queixe. Mas algumas vezes a necessidade faz a situação. Algumas vezes a situação não existe. E, você fica a ver navios, mesmo que não haja água. São muitos os horizontes que temos que buscar no intuito de ser aquele memorável ser de palavras castas, comportamento nato, único, que, até nos detalhes irrisórios eram tomados como importantes leviandades que desobedeciam a tendência do agradável, porém tedioso.
Sempre achei que me repercutiria o hábito de valer a vida aos redores de todos os cantos ovais do mundo. Também achava que me valeria toda pena ser um fantástico homem, daqueles que são representados em fotos com um sorriso caricaturático, que as damas flertam, suspiram e gemem em orgasmos deturpantes abraçadas com a foto na cama. Uma lástima, não? Principalmente quando eu regresso a minha realidade de inacabado. Hostilidades a parte, ainda acho que me sou viável para quem quiser notar. Não porque sou bonito, aliás, passo longe.
Não serei galã de novela. Meus dentes não serão do comercial de pasta de dente, tampouco meu cabelo vale uma ventania de estúdio para poses de xampu. Eu sou palavras. Aquelas que poucos ouvem e que preferem retratar à face amarga, amassada, ríspida e de tonante sem graça. O cara ignorante. O chato.
Dou-me de ombros para aquelas madames, àquelas que se acha o favo único, que têm os brincos caros, as vestes de grife. Não me vale nem o hálito sepulcral das manhãs às xucras, muito menos xucras ricas.
Quis ter o dom das palavras calmantes, mas essas também me passaram longe.
Não viverei para todo o sempre e é uma pena. Uma pena sagaz.
Não sou recomendado para muita gente, mas o pouco que tenho de recomendação finge me levar a sério, o que sobra, diz que eu sou um cara "bacana". Se você olhar no espelho, não verá nada demais.
Coloco as mãos no bolso, saio pela rua, muitas vezes falando sozinho e olhando sempre à frente para não chamar atenção dos outros. Mesmo assim acabo chamando por falar um pouco alto, quem sabe, ou por falar mal demais de mim mesmo. De vez em quando adentro um bar, quase nunca compro nada, olho os preços e me convenço de que estou quebrado até mesmo para matar a sede.
Ser algo dói no bolso - é a verdade que carrego.
Ainda mais eu... que sustento um álibi colecionador.
Não tenho visto amigos, não tenho tido tempo de pensar muito. E quando tenho me torno retraído pela versão dos outros, que me conforta mais que a minha que tem sido turva, cada vez mais turva. Sei que ainda sou um tanto novo para reclamar, mas gosto quando as palavras vêm e eu posso então fazer aquele prólogo suado e destemido de mim mesmo que funciona melhor que surra de pai quando sabe que você fez uma merda tremenda e ainda ousou xingá-lo só para fingir que era mais homem que ele, o homem que te fez homem.
Engraçado! Eu sempre me lembro das coisas que fiz – como tenho saudades delas. Também tenho saudade do que ainda estará por vir. Deve ser pelo fato de eu ter um palpite de que muitas coisas não acontecerão se os planos do lado de cá, agora, não derem certos. Sabe como é, não sou filho de patrício rico. Tenho umas poucas economias, e nem sou filho do Verne para dar volta ao mundo num balão.
Tenho uma amabilidade pela minha introspecção, e quando uso o espelho não é para me pentear, passar fio dental, escovar os dentes, ou tirar catota do nariz. Geralmente o tenho para conversar. Acho mais engraçado divagar comigo mesmo. Do outro lado um eu mais eu do que nunca, que nunca me concorda na situação de ser eu mesmo. Dói-me às ventas. Sei de cor que as coisas do lado de cá são melhores do que do outro lado - sendo um reflexo meu, julgo ser melhor que ele, que é oposto, mesmo sendo eu. Acho que meu eu, tão dramático do outro lado, não concorda comigo exatamente pelo fato dele estar ao oposto. Mas se sua esquerda fosse exatamente a minha, seriamos um e eu não seria aqueles dois que lutam para ter a certeza de um só.
Estão falando por aí que um dia ficarei louco. Idiossincrático. Discordo. Afinal, a normalidade é uma máscara que o tédio usa quando quer ser bem visto. E se fôssemos normais, não teria graça. Aliás, serei honesto, quase não acho que exista graça agora, imagina na normalidade.
Prego que, ser o que sou, exige um tempo considerável de esmo. Sei bastante sobre inutilidades. São tão inúteis que nunca me serviram para nada. Nem mesmo para arrumar um carro quebrado ou consertar um móvel tolo cheio de cupins da sala de jantar. Aliás, eu não gosto de carros. Prefiro as bicicletas. Demoram mais, cansam mais, mas são mais engraçadas, exatamente pelo fato de você estar exposto e sentir aquele ar de rua, de cidade. O que me incomoda é não ter lugar para que eu guarde minha bicicleta. Puta que pariu.
Uma situação que sonho para mim é ter aplausos. Não sei porque, mas, aplausos me encantam. Me encantam mais que músicas tristes. Sempre que vejo alguém sendo aplaudido sinto-me lisonjeado e comovido pela pessoa. Não há melhor demonstração de afeto, satisfação e gratificação do que um coro de aplausos com aqueles assobios perdidos no meio da platéia aguçada em clap-claps. Um dia serei aplaudido, nem que seja por um punhado de crianças que diga que sou um bom pai, um bom tio, um bom psicanalista, um bom contador de histórias bobas.
Terei um cão. Um cão sóbrio. Aliás, preciso de um cão. Dizem que é o melhor amigo do homem e que sempre sabemos o que ele sente só de nos mostrar a língua. Ele será o meu amigo e companheiro de filmes em horários de tédio. Penso em não alimentá-lo com ração sempre. Deve ser muito sem graça. Se é o melhor amigo do homem, um melhor amigo merece sempre as melhores coisas.
Darei festas de cabaré na minha casa. Daquelas que você senta-se à mesa e come alguns petiscos e conversa sobre aquela nostalgia toda e ri acompanhado de um monte de pessoas que você conhece muito bem e que estão todos casados, desquitados ou arranjados em algum "ramo" da vida. Penso bastante em viajar. Não sei aonde, quem sabe, a algum lugar que eu me sinta importante e esquecido ao mesmo tempo, possa deitar na grama e respirar fundo, numa relva de inimagináveis pensamentos.
Poucos amigos, mas amigos.
Como não posso ser imortal como nos vídeo games que basta um reset. Quero uma vida confortável, e que me valha Deus de ser sôfrego. Não por mim, mas pelo meu redor.
Se minhas palavras um dia não couberem num livro, coloquem em dois, três, quatro, cinco... Quantos quiserem. Espero que eu não seja como muitos, mas não quero ser pouco. Quero ser o equilíbrio entre ser e estar.
Se um dia eu faltar a alguém: amigos, única mulher-amante, filhos, família, não pensem que faltei por simples incompetência. Tenho pelos outros, que penso ser o tal amor uma dívida de caráter e formação de personalidade. Todos, digo, todos, mesmo que não me tivessem proveito, construíram a minha pessoa pela influência. Não peço que me amem todos, nem que me digam isso a fio, sempre. Seria hipocrisia de sua parte, meu caro. Mas quero que me venha alguém e grite um "eu te amo" bem saudoso daqueles que ensurdeça até as ventas e que cale as dúvidas e o sigilo caquético que precisa de uma cola forte.
Não me mime. Não puxem meu saco, não queiram me ter pelo dinheiro. A verdade me vale mais que as honras de muitos homens, embora eu tenha um apreço muito grande pela minha.
O orgulho, bem... O orgulho se me ferir eu desfaleço em partes bastante pequenas, mas penso que muitas vezes isso é necessário para que você aprenda a positivar-se no futuro com os negativos pares do passado.
Quero ter cenas clichês na minha vida. Nada que Hollywood ainda não tenha feito, ao contrário, alguns clichês até podem nos desconcertar muito pela sinceridade. Pôr-do-sol, vinho caro e importado, jantar a luz de velas... Coisas óbvias e às vezes insignificantes, quando não se está no momento certo, é claro.
Não me deixem desistir, por mais que eu diga que vá. E sempre que eu querer sair triunfante, puxe-me pela manga da camisa e diga para que eu fique com um bocado de palavras românticas ou sinceras. Não coloque a culpa nos pronomes indeterminados quando quiser se referir a mim. Colocar-me na terceira pessoa até perdôo, mas nunca me esconda no meio "deles".
Por mais que eu me enjoe de mim mesmo, será comigo que viverei pela vida toda e não posso mudar isso. Talvez nem quisesse, mesmo o atrativo não sendo meu forte, minhas roupas não serem as melhores e mais caras, mesmo eu não gostando de fazer a barba e as mulheres dizendo o tempo todo que não pareço muito com alguém.
Vivam a realidade e deixem que eu compartilhe meu mundo, deixem-me reclamar e digam quando eu estorvar. Dêem-me um abraço. A mulher, um beijo longo.
Gravarei minha vida num filme mudo, fotos, desenhos, pinturas e todas as palavras que ousar escrever ficarão por aqui, no meu esconderijo, onde muitos poderão ver.
Espero que quando eu estiver indo aos médicos geriatras, e não caduco, claro, eu possa ter um tempo para viver a nostalgia daquilo que fui. Suspirar ao lado de alguém que repartiu comigo o elo ambíguo de passagens descomunais na experiência de ser o que se é.
Bastante tempo?
Pouco?
Quem sabe?
Ah, se soubesse... não saberia o que dizer.