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sábado, 20 de março de 2010

- tom da amizade

Já ouvi dizer que amigos vêm e vão,
como cadências.
Sonoras, ou não,
tocam nossas vidas
transformando em composição.

E, no entoar de uma nota ou melodia
dizimam tendências
que refletem expressões harmoniosas
das mais variadas entonações.

Sejam amizades de valsas,
de repentes ou cantigas de amor,
Não importa, cada um a canta,
toca ou a declama
da maneira que for.

- escrito em: 15 de setembro de 2006

sexta-feira, 19 de março de 2010

- temporal

Queria mais memórias desta vida que vai rápida.
Nossas vidas distribuídas em calendários e relógios
numa intensa contagem regressiva
para o tempo que avança.
Um aprendizado finito-regresso,
condenandos na busca da verdade.
O relógio, cheio de engrenagens, não falha,
como nosso coração pulsante.
A vida em função do tempo, que a todo momento
chega sem atraso.
Não se vence o tempo.
Você o respira, o come e o dorme.
Nasce, amadurece e envelhece com ele.
O tempo assiste, pacientemente,
o tempo passar.

escrito em: 31 de outubro de 2006, 17h25.

quinta-feira, 18 de março de 2010

- rosto amigo

Atende a voz incrédula
que oculta atrás da porta
- Veja o que se mostra!
Rosto esse desfalecido,
Mutilado. Apodrecido.
Figura escrota que me olha,
desgraça vívida... escória.
O toque de sua mão,
em meu coração,
fez-me cair putrificado,
agonizando, ao chão...
morte sem perdão
provocada pelo rosto amaldiçoado
que bateu à minha porta
e encerrou minha solidão.

escrito em: Santo André, 2005.

domingo, 30 de novembro de 2008

- brinde!

Um brinde a esta noite que se estende
Por de trás dos morros que já não se vê.
Um brinde a esta madrugada quente
Que, eu assisto, de terno, à minha mercê.

Um brinde ao verde crepuscular,
Ao orvalho, árvores e este chão barro molhado.
Um brinde, pois, eu beberei até o sol raiar
Ou cair embriagado pelo cansaço, enfado.

Um brinde à maré alta.
A esta maresia que pactua ondas.
Um brinde à vida que ainda me falta.
O convite que o mar me faz...
Confunde-se com o medo de minha vida pronta.

Um brinde ao nascer do sol
Que agora vence o luar.
Leva dos portos a luz do farol.
Mas ingenuamente traz consigo o despertar.

Um brinde! Um saudoso brinde!
Aos tempos que prometem se arranjar.
Às pessoas que vivem no requinte.
E aos simples, todos eles...
Como este champanhe barato, inspirador, que comprei no bar.

- eles e eu

Na tentativa de ser aquilo que não sou
Escrevo sobre a razão de ser ou não alguém.
Indo a algum lugar sem caminho, mas sei aonde vou,
Desejo coisas que não existem, que não competem a ninguém.

Falo sobre o que não entendem
E a mim faz total senso.
Escuto ruídos que não compreendem
Mas, para mim, soam como orquestras de som intenso.

Visto apenas carne e pele, o que aos outros é uma afronta.
Saio pela rua pintando a pura arte da nudez.
Corpos, para muitos: armas do sexo. A mim: Arte que se apronta.
Com o tempo envaidece, ano a ano mais cortês.

Desenvolvo teorias, as entendo muito bem!
Mas aos outros não existe explicação alguma.
Calculo com palavras e pensamentos, coisa melhor não tem!
Não utilizo fórmulas, palavra se aprende uma a uma.

Por isso vivo neste mundo caótico.
Sem entender o entendimento que a eles convém.
Vivo por mim, sem líderes apoteóticos:
Farsa vestida de gente! Profanam mártires do além.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

- as entranhas da morte

Vi por entre as entranhas da Morte
Caminhar dessemelhantes vidas.
Algumas perdidas de má sorte,
Outras de má sorte consumidas.

Reclamavam vidas,
Imploravam perdões,
Naquela digestão de almas,
Uma a uma sendo digeridas.

Uns outros, inconformes,
Rasgavam as entranhas da Morte
Lhe causando arfante azia.
Uma dor que deveras aturdia.

A morte no chão ajoelhava,
Com a mão no ventre, dizia:
- Por Deus! Parem de me machucar!
Temo o sono profundo que vos condeno todos os dias.

segunda-feira, 17 de março de 2008

- coeso

Quero conhecer o ignóbil;
O ateu, cético e ao crente confidente.
Todas as crenças, fobias e medos,
Sem mostrar-me comovente.
Quero conhecer a fundo
As marcas da vida
Que nos faz viventes,
Quero conhecer o mundo
E me tornar um pecador coerente.

- esferas da realidade

Quantas horas, estas, me fizeste comum!
Tantas outras mais, me deformaram.
Estou me alimentando bem, mas continuo em jejum;
Evitando pensamentos que me desgastaram

Disforme é o mundo, tanto mais meus pensamentos.
Titubeio pelos cantos, alimento-me do momento.
Armadilhas que condenam num disforme tratamento;
Ora chora, ora ri, tudo depende do vão contentamento.

Estar liberto requer paz, coisa que eu não tenho.
Alcanço a satisfação por meio de meu empenho
Alimento-me muito bem, sempre estando em jejum.
Aprendo em muitos livros que não se vende em lugar algum.

Do real eu pouco gosto, sufrágio que não convém.
Arremeto-me ao meu conforto, de modo que me sinto bem.
Esferas da realidade nos olhos me provêm
Sinto-me satisfeito, por não dividir pensamentos com outrem.

domingo, 16 de março de 2008

- meu dia noturno

Tenho sono.
Não consigo dormir.
Não consigo descansar
Nesta cama vazia.
Absorto, levanto,
Dirijo-me à lua.
Confesso inverdades.
Algumas tão nuas.
Me faço acreditar.

Àquele infinito negro iluminado,
De pequenas estrelas que navegam constantes
Neste oceano cálido.
Não precisam de porto com farol.
Tampouco, ser guiadas a lugar algum.
Elas conhecem seus destinos perdidos.
Vagando neste infinito caminho
Guardando almas confusas sem lume jus.

Eu navego junto.
Neste oceano turvo
De ondas curtas,
Repletas de interrogações.
Então, me curvo.
Olho à água negra.
Iluminando a areia...
Perco a razão.

Sem respostas frígidas
Busco a lua tímida,
Sua palidez vívida
Reflete em minha face
Memórias antigas,
Velhas intrigas
De lugar nenhum.

Eu esmaeço e caio.
Um tom de desmaio
Penumbro e, de mim, saio.
No aconchego calmo.
Quando o dia nasce
E o sol renasce,
Eu canso, num impasse.
Desse dia manso.
E, enfim, durmo,
Nesta luz comum.

escrito em: Sexta-feira, 22 de setembro de 2006, 00h59.

- homem-retrato

Sabes que sou feito de sentimentos:
De atos verdadeiros, recíprocos, e desconfiados momentos.
Sabes que meu sorriso, embora eterno,
Também acolhem mentiras, sofrimento de um mundo hiberno.
Sabes que meus olhos, embora negros,
Já assistiram a diversos acontecimentos abruptos, hoje tornados segredos.
Sabes que minhas mãos, tão bem desenhadas,
Já acolheu donzela, lutou em guerras e cumprimentou mãos respeitadas.
Sabes que este busto forte
Já resistiu a flechas, tiros e se moldou no esporte.
Sabes que estas pernas, fortes e homéricas,
Já percorreu mapas, colonizou Américas.
Sabes que estas vestes, tão simples e sofisticadas,
Já estiveram suadas, banhadas em sangue e despidas pela amada.
Sabes que este corpo detalhado um artista esculpiu.
Este homem-retrato: nasceu, cresceu, amou, venceu.
Hoje, jaz em um passado que ninguém jamais viu.

- reza sertaneja

Toda labareda tem carvão.
Toda missa tem sermão.
E o nordeste é lampião.
Em festa de São João.

Toda essa vida tem um vão,
Amargura de paixão,
Bandoleiro de plantão
Que vive na contramão
Reclamando o coração
Que já passou da precisão.

- Eita, nossa, vida de cão!
Que vai levá sem te perdão
Todas nossa procissão,
Enrriba da condenação.

- Tenha dó ô danação
Dos minino sem irmão,
Sem famía e sem morão
Eles vive do sonho bão
De encontrá água e pão
Nesse diacho de sertão!

- desabafo natural

Modesta sutileza, esta, que me incomoda no instante...
Perdera eu toda nobreza devotada em meu estandarte?
As aparências tomam conta de idéias controversas,
Todas estas, jogadas ao léu, repudiam longas conversas.
Caracterizam-se idéias mil sobre amores e perdições.
Mas nenhuma vale a pena quando espalham exclamações.
Se contares verdades, amigos, vos direi mentiras,
Para completar calunias aflitas, destas abertas feridas.

Memorizo alvos, por alguns instantes, estes todos, errantes,
Morrem mentalmente, em mim, com culpas circunstantes.
Deveras, vos digo outras palavras mil, tolas, que, em fim,
Mandarei-te por livre culpa e total anseio gris.

Palavras doces, contemplantes, todas estas eu almejo.
Segredos incertos, profundos versos, ao fim tudo escrevo.
Mas guardo em uma página afim, Versos quentes e glamurosos,
Todos eles com triste fim, ceifado por dedos tortos.

Cálido, amargo e ansioso, meticuloso, frio e sórdido.
Reconcilio avessos, dou graças pelos fins mórbidos,
Todos incertos, mas de total gracejo quando digo em voz:
- Mundo este, tão insólito.

escrito em: Mauá, 01 de Setembro de 2006

- experiência mona

- Você é a mais bela do lupanar...
- Oh, meu amor, não conheço tal flor.
É bonita?
- Sim. E costuma dar em becos.

escrito em: Mauá, 22 de Junho de 2006.

- inanidade

Eu sou o visionário do mundo concreto
...O rascunho que poderia ter dado certo.
Eu sou a estrela que você não viu brilhar
...O pingo que você não sentiu molhar.
Eu sou uma palavra invalidada
...A sua roupa inutilizada.
Eu sou um plano incorreto
...Um mito levado ao incerto.
Eu sou o vinho deixado no copo
...O momento congelado em foto.
Eu sou a folha levada pelo outono
...Desprovido no abandono.
Eu sou seu sentimento pequeno
...Seu inestimável veneno.
Eu sou o insignificante
...Que paira no momento errante.
Eu sou o nó que não conseguiram desatar
...A carta que não souberam jogar.
Eu sou o palhaço que você não riu
...O momento que te desiludiu.
Eu sou um fenômeno natural
...O instante crucial.
Eu sou a lápide do seu enterro
...Um simples erro.
Eu sou a bateria descarregada
...Uma casa abandonada.
Eu sou um rascunho na parede
...Mais uma erva ao gramado verde.
Eu sou uma pedra no caminho
...Uma flora com espinhos.
Eu sou o trauma que você curou
...A chaga que cicatrizou.
Eu sou a poeira varrida ao canto
...Um papel deixado em branco.
Eu sou um cachorro sem casa
...Um pássaro sem asa...
Eu sou uma canção incompreendida
...Uma chance perdida...
Eu sou aquele que você esqueceu
...Um ignaro que morreu...

Talvez eu esteja incerto sobre minha razão,
Mas sei que a tortura reside em meu coração.
Tenho pena de mim mesmo por ser indiscreto,
Por tudo que eu fiz ser incorreto.
Entenda estas palavras agonizantes,
Tudo que eu fiz para ser importante
Não foi percebido em nenhum instante.

escrito em: Mauá, 2005.

- pensei que soubesse amar

Achei que viver fosse mais engraçado.
Que as coisas teriam maior valor;
Sentimentos belos.
Achei que amar não seria pecado,
Que não teria pudor;
Tudo seria sincero.

Pequenos detalhes são irreversíveis.
E os momentos incríveis deixam de ser honesto.

Agora querem que eu acredite;
Que o amor é lindo,
Infinito e belo.
Mas o vejo desconfiado.
Doloroso, incerto.
Logo abaixo do meu chinelo.

escrito em: Mauá, 2005.

- ode à revolução

Correndo contra o tempo
Que não volta e nem me procura.
Espero encontrar a verdade
Que pra mim é a Cura.

Fardado a perder-me
Em meu próprio mundo.
Deposito em todos a minha esperança
Neste louco segundo.

O desejo de mostrar ao mundo
A verdade eminente.
Plantar um sorriso na boca do povo
Cheio de dentes.

Encoraja-los a lutar com fé.
Colocar todos os enfermos de pé.
Pintar nossas peles com tinta a mão.
E acabar com toda Discriminação.

Recolher as armas da destruição.
Unificar o povo como uma só nação.
Ser amigo de todos quebrando tabus.
Partilhar a água escassa do mundo azul.

Preserve o verde
E os animais em extinção.
Alerte o mundo
Sobre a poluição!

Pra que tanta religião?!
Deus é um só de misericórdia e paixão.
Guerra Santa! Destruição!
Para se tornarem mártires da ilusão.

Aids, Câncer, Enfisema pulmonar.
Drogas ilícitas, vendidas pra matar!
Pouco a pouco, o fim e a destruição.
Calam nossas vidas que agonizam pelo chão.

Tecnologia sem restrição,
Bomba nuclear em toda nação.
Querem me enganar dizendo ser proteção.
Mas sei que nossas vidas estão em suas mãos.

Desrespeito, vandalismo! Educação?
Agora não me calo, até começar a revolução.

escrito em: Mauá, 2005

- inspiração

A inspiração não tem hora pra chegar,
Não tem tempo para voltar,
Não tem hora marcada,
Não é calculada.
Ela é sentida!
E vem na hora certa...
Para calar suas duvidas indefinida.

escrito em: Mauá, 2005

segunda-feira, 3 de março de 2008

- menina flor

Ontem caminhei pelo jardim.
Vi dessemelhantes flores
Algumas, jamais conheci.
Uma chamou-me atenção:
Tronco forte, modelado.
Uma tonante deveras gris
Que me deixou ressabiado.
Era polidamente parda no miolo.
Pétalas escarlates,
Suscetivelmente dançavam ao eolo.
Aproximei-me para sentir de perto tal perfume;
Extravagante e frágil, mas de intenso volume.
Tangi as pétalas, perfeitamente coroadas,
Senti o doce delicado, lascivo, almejado.
Sutilmente ensejadas, as pétalas dançavam.
Quando vi a formosa flor, de rosto – que ardor!
Ela, então me relatou:
- Tenho namorado, sinto muito, meu senhor!

domingo, 2 de março de 2008

- caí

Caí!
Levantei-me batendo o pó.
Vestes sujas, desajeitadas.
Esburacadas, causava dó.

Olhei ao chão:
Traços do ajoelhado.
Toquei em mim,
Um tanto quanto ensangüentado.

Tentei andar;
Longo caminho só.
Porém, despreparado,
Tornozelos me faziam dó.

Acendi o pito,
Empoeirado.
Bradei ao fogo
Sem ter-me queimado.

Perguntei fronteiras,
Caí no vil.
Mais uma vez;
Inocente cio.

Sentei-me um pouco,
Bestificado.
Tamanha estrada;
Me fiz cansado.

Estive a ponto
De desistir,
Molhei o rosto
Encorajei-me a rir.

Tamanha dor,
Me incomodava
Estanquei o sangue.
Adormeci sem casa.

Caminho longo,
Mas, sigo em frente.
Um tanto bobo
Sem dividas pendentes.

Corri um pouco.
Depois, segui a levante.
Me apaixonei,
Uto-flora exuberante.

Amadureci,
Feito fruto forte.
Galhos robustos,
Machado algum causava corte.

Enobrecido
E bem cuidado,
Sentenciei-me
Um condenado.

Apodreci.
Fruto bastardo.
Em meio aos galhos,
Desajeitado.

Caí, de novo,
Despedaçado.

escrito em: Mauá, 1° de Setembro de 2006

- dalila

Com lágrimas nos olhos, Dalila desabou:
Chão frio, madeira rústica.
Prendia seu manto no assoalho batido do verniz secular.
Engolir o choro não basta.
Quando se encanta com beleza externa,
Esquece-se das frases completas.
Espelho fazia de Dalila; linda, sagaz.
Luzia paz.
Quando cessou, vi Dalila ao chão.
Cerrando suas unhas vermelhas,
Desbotando o verniz e carne.
Assoalho nobre, sangue forte.
De fronte, cadeiras brancas, janelas rubricas.
Dalila crua.
Ver dias como este,
onde não se acende chama de cigarro
pós-longa noite lasciva.
Sem ter lençol amassado, ou vestes em gavetas entreabertas.
Dalila ria, masóquica.
Dalila sofria só...
Dalila.