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domingo, 30 de maio de 2010

- meu infinito eu


Acabo de regressar de uma longa viagem
onde descobri que minha vida
não está limitada a esta breve passagem.


Mas desconheço os trâmites da infinitude.
Se de fato sou uma ressonância do passado
por que ecoo pelo espaço tempo, amiúde?


Eu ainda não compreendi a essência.
Mas, naufragado nessa existência,
espero conhecer sobre a matéria e a vida

Sem me importar com o fim
de minha infinitude comprida.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

- tudo

Na mente
sou o instante
um segundo
caibo na Eternidade
pois sou do tamanho
do mundo

Sou um pensamento
que se transforma
na longevidade
do momento
pois sou completamente
difuso

Mas se você me perguntar
quem sou de verdade
eu responderei,
do modo mais profundo:
sou
tudo

sexta-feira, 26 de março de 2010

- sobre quando me ocorre a morte iminente

A preocupação me é dilacerante
quando penso que posso morrer
a qualquer instante.

Mas estou disposto a pedir piedade
para poder viver um pouco mais,
pois quero ver meus filhos crescerem

e não quero passar sem dizer
o quanto eu amo meus pais.

sábado, 13 de março de 2010

- aleph

Por que nos crucificamos
vivendo nessa letargia
como se fosse possível
mudarmos o que somos
da noite para o dia?

Eu não defendo a Ciência,
a Religião, a Arte ou a Filosofia,
pois já são suficientes
os conflitos resilientes
para tentar desvendar qual é
o significado de infinito e fé.

Mas eu acredito
que não chegaremos a lugar algum
se continuarmos com a fantasia
de que há certo ou errado,
limite ou pecado,
ou qualquer que seja a megalomania.

Há de se libertar das crenças,
geradora ilude de dualidades
e maquiadora da real existência.
Quando o fizer, será Deus:
Absoluto e livre de ausências.

quinta-feira, 11 de março de 2010

- o crucificador

Todos assistiam,
bastante assustados,
ao tamanho do monumento
que aquele homem levava,
como um mastro.
Senti um mal-estar e,
por um momento,
eu fui hipnotizado
pelos seus olhos fissurados.
Ele, quase desnudo,
e ensangüentado,
ali, na minha frente,
cedeu, caindo desajeitado
na direção do sol
de intensa luz.
Suas feridas,
de diversos dias,
abertas e reabertas,
jorravam sangue e pus.
No chão, de olhos fechados,
ele ignorou aquele público
que o seguia desde o passado.
Então, enfim eu me aproximei
e aos outros ordenei
que o deitassem na cruz
que ele deixou cair ao meu lado.
Pedi que, vagarosamente,
o abrissem os braços,
de modo que ficasse rente,
e que me trouxessem o martelo
e os pregos forjados a aço.
Observei seu corpo teso
para saber se estava mesmo
ocupando todo o espaço.
Depois, ajoelhei-me,
perto de sua face
e o chamei perto dos ouvidos;
e, embora ele não me escutasse,
eu sabia que ainda estava vivo,
mas não interromperia sua meditação
para falar comigo.
Então eu tomei a sua mão
e mirei o prego em sua palma.
Bati!
Pude ver o aço perfurando
os ossos e a articulação
e, instantaneamente,
ecoou seu grito,
vindo do fundo de sua alma.
Os outros o seguravam
como forma de pretexto,
pois sabiam:
eu ainda estava no começo.
Segurei o segundo palmo
observado por olhos que choravam
e, novamente,
perfurei o alvo...
ele suspirava e gemia,
tamanha a euforia.
Me apressei às suas pernas
e posicionei seus pés vermelhos
um sobre o outro.
Pedi para que o segurassem
na altura de seus joelhos,
pois perfuraríamos onde mais doía.
Mas, eu sabia,
ele seria o primeiro
a suportar mais essa agonia.
Então, mais uma vez eu bati
cravando toda estrutura,
desde sua reles pele,
até a madeira dura.
E ele nem mesmo reagiu.
Mas na expressão dos outros
estava figurado o que aquele homem sentiu.
Me levantei limpando a veste
e os outros ergueram o pregado,
como um estandarte.
De modo que ficasse exposto
como uma obra de arte.
A massa se calou
e o admirou por toda tarde.
O céu enegreceu.
Veio a tempestade.
Muitos abandonaram o local.
Permanecendo apenas seus amigos.
E sua mãe.
assistindo a carne sendo lavada,
revelando sua forma visceral.
Ele já não se movia.
E pelo que me parecia
já estava morto.
Pedi para que averiguassem.
Então o perfuraram
na lateral do corpo.
Havia apenas água na sangria
e nenhuma expressão em sua face.
Graças a Deus, havia acabado.
Ordenei que o removessem.
Depois dispensei todos os soldados.
Eu estava física e mentalmente cansado.
Que alívio...
O que me confortava
era saber que eu chegaria em casa
e teria alegria
ao lado da minha família.

segunda-feira, 1 de março de 2010

- visita noturna

Às vezes, no meio da madrugada,
Eu desperto aos gritos de desespero.
É sempre o mesmo pesadelo,
E a mesma voz amargurada.

Eu sei, é a Morte.
Falando ao meu ouvido,
Sussurrando seu pedido:
- Vem, vem comigo...

E eu já não posso dormir
Porque, a qualquer momento,
Ela pode vir, e eu temo querer
que ela me leve consigo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

- pecado original

Se você olhar para céu,
A qualquer momento,
Você pode ver a luz,
Pode sentir a imensidão,
O infinito.

Você pode respirar a eternidade
E, sem sair do lugar,
Pode ser absoluto,
Pode ter qualquer idade.

Você pode ser um astro
Ou apenas um rastro
Que reflita a incerteza
Neste Universo vasto.

Você pode ser o tempo;
Pode ser o espaço,
Mas, para além de tudo,
Você é um pensamento
Que transforma tudo em fato.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

- falso meio

Ás vezes, minto para alcançar um propósito,
e até invento histórias de contextos ilógicos.

E mostro-me tão sóbrio
que eu mesmo me convenço
de toda falta de senso.

E, então, no meio de todo imbróglio,
eu disfarço a ironia de meus olhos,

calo meus pensamentos
e, na mentira contada,
eu me concentro:

- Não...
não descobrirão o que se passa aqui dentro.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

- o pulso

Sinto um intenso desejo em compor.
É quase semelhante ao meu desejo de morte.
Guarda apenas uma única diferença:
Na escrita, o meu pulso não esgota.

domingo, 17 de janeiro de 2010

- obra de arte

No mais íntimo do recôndito
as pessoas se parecem:
desde o histo dos corpos
até os personagens que vestem.

Mistam-se na personalidade
e, embora difiram de cultura,
cores, classes e moldura,
são todos tonalidades de uma mesma pintura

de merda pura.

domingo, 13 de dezembro de 2009

- o ermo

Ando triste e desiludido
pois sei que há coisas
que apenas acontecem comigo,
que fogem do controle
e me obrigam a procurar abrigo.
E, sinceramente,
eu não sei se consigo
aturar dias e dias
me sentindo assim:
pobre de espírito e oprimido.

Às vezes, cansado,
eu olho ao redor
e torço para eu não ser
O único fodido.
Mas é estranho...
pois sempre parece
que as pessoas caçoam de mim
ou simplesmente fingem
que eu não existo
ou que eu já tenha morrido.

Confesso que já questionei
muitos e muitos
procurando uma razão,
um simples motivo,
mas todos dão de ombros,
dizem:
- Você está louco,
só pode estar fingindo,
pois você sempre está
rodeado de amigos.

Cogito então a possibilidade
de tudo ser obra da minha mente,
do meu ego ferido.
Como se fosse
meu desejo latente
ser abandonado,
esquecido.
E assim eu teria a razão,
o motivo,
que justificaria o meu ser,
e a tudo daria sentido:
o meu suicídio.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

- repouso lascivo

Não é bonita,
vejo.
Mas a tua carne
me excita
quando a percorro,
detalhadamente,
aos beijos.

Você é puro orgasmo
- e como grita...
E, em meu ápice,
selvagem e febril,
ao te confessar,
gaguejo:

quero estar em teu útero,
onde repousa e habita
a raiz de tudo que a faz linda:
os teus desejos.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

- a carne

Sinto-me contaminado sempre que a toco.
Ao penetrá-la, transcendo
ambos os corpos.
Toda vez que a possuo acabo louco.
Minha pele escarnece, falta-me ar,
E por tempos permaneço inerte,
Como um morto.
E, passado o transe,
recobro-me de tudo:
você exausta,
recolhida em posição de feto,
pouco a pouco,
cessa os gemidos,
os gritos surdos e roucos.
E seu corpo descoberto
agora descansa o cio,
e apouco agia como um demônio vil
extirpando o prazer da carne
- de cor e gosto fortes... -
e o que resta agora
é apenas o órgão trêmulo e frio,
desbotado e triste,
à própria sorte.

domingo, 20 de setembro de 2009

- a invenção humana

O ser humano inventou os mitos,
a mentira, a verdade,
os Deuses e todos os seus inimigos.
Fez da Terra o reino de suas calamidades,
partindo do desejo que os consumia.
Tudo pelo orgulho próprio
e para evidenciar seus conflitos
- que antes não eram muitos,
e os que eram, era explícito.
Porém, a essência e o óbvio foram extintos.
E, construindo a ciência e a artes,
o ser humano se dividiu:
cada um com sua parte,
obedecendo aos seus reis de carne
e a liberdade, que de algum modo os repeliu.
Os princípios da sociedade,
que por eles respeitados,
representava o princípio que os uniu.
União instável,
repleta de rebeldes que a aboliam.
Houve propostas de reforma,
de recriar os seus espaços,
expandir a igualdade,
confraternizar os laços
segundo seus diretos,
mas estes terminavam
onde as leis começavam.
E houve guerras como solução,
o resgate dos mitos à salvação.
Fez-se de tudo para que houvesse harmonia:
houve drogas para as dores,
para não pensar horrores,
para substituir a solidão.
Houve de tudo e qualquer coisa
para que o cérebro se unisse às mãos.
Há de se considerar também os profetas de religiões,
os filósofos e políticos de partido,
que rememoram os tempos de tempos
onde Deuses eram vistos,
o pensamento era livre,
e não havia guerras ou veredictos.
Mas é mentira...
depois do ser humano
jamais houve momento,
nesse planeta finito,
em que a Terra concluísse por si só
o seu ciclo.
E se houver dúvidas
consulte nos livros de História.
Está lá, tudo escrito.
Mas, assim como tudo,
o que está lá não é verdade,
é humano.
É o lixo que sobrou dos mitos.

domingo, 30 de agosto de 2009

- o velho decrépito

Já não sirvo para o tom jocoso,
mal intento e duvidoso,
que a muitos aturdiu.

Não mais me articulo com gozo,
falando sobre teorias e esboços,
daquilo que jamais se ouviu.

Agora, recolho-me ao canto,
com meu orgulho manco,
este humor senil.

Pois, mesmo não sendo tanto,
a paz que eu tinha,
se exauriu.

E sei, sou treva,
e procuro a trégua
em tudo aquilo que se consentiu.

A existência tornou tudo efêmero,
e aquilo que temo,
como doença, me contraiu.

E só percebo agora, à arrelia,
que não sou o mesmo há muito tempo.
Mas isso já não me importa,
pois mandei tudo e todos à puta que pariu.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

- móvel

Sou frio;
mais do que me conheço.
De quando em quando eu rio;
mas na maioria das vezes me aborreço.

Não suporto tempo estio.
Me atrapalho com começos.
Café e cigarros curam meu vazio,
mas no último trago, novamente, entristeço.

Não gosto de elogios;
A vida já tem tanto excesso.
E eu basicamente os recrio
em minha existência, nesses versos.

domingo, 16 de agosto de 2009

- carne e cio

Dilui-me em teus póros,
Atritando teu corpo aos meus lábios.
Abandona-te completamente ao meu cólo
Para que eu a domine...
Valendo-me de gestos calmos e ágeis.

Quanto mais te entregares ao gozo,
aos prazeres do cio e da excitação,
sentirás - da carne ao osso -
o desejo ardil de abandonar-se em meus braços,
e de tê-la invadido o útero e o coração.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

- a reza

Meu Deus,
gostaria que amanhã
tu findastes por outros sete dias,
calasse para toda prece sã,
e cegasse aos pecados que remirias.

Rogo-te, desça aqui.
Aprecie tua obra-prima,
tão diferente quanto daí de cima.
Intensas formas, crenças e humores,
que disseste ser parte de ti, de teus labores.

Por isso peço:
não castigue com a tua ira
os que o esconjuram todos os dias.
É que já estamos pensando
que nos abandonaste à arrelia.

Como se não mais se reconhecesse
na dogmatizada fé e sabedoria,
nós, humanos, aniquilamos a carne,
o desejo e a frustração
de não conceber o princípio como o seria.

E dia após dia,
carregando a cruz de nossas vidas,
questionamos sobre ser o que se é:
resultado da Ciência,
dos pregos de Nazaré,
ou da abstração da Filosofia?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

- o ápice

Moderações do óbvio são tolas,
Não há porque obedecer à retórica
Nem tentar encontrar na bula.
A verdade é um mito,
É folclórica.

Quando você entender o limite
Entre o que é fato e fantasia
Estará sujeito ao chiste,
Ao orgasmo natural,
Que é o abstrato e filosofia.

domingo, 7 de junho de 2009

- jecoral

Esta sensação monótona de dor
aliena-me pelo íntimo,
transcorrendo pelas veias
a circulação fúnebre e dolorida.

O fel que não tem cor
demora-se em meu paladar, feito rícino.
O facínio do horror me golpeia,
abato-me lastimado orando pela vida.

Sinto-me como um feto sem amor,
recolhido em meu íntimo.
E tudo que sou, ao chão se semeia...
É o vomito! que anuncia minha carne já apodrecida.