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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

- promessas

[conto alterado e publicado no bloguezin do gusta]

Sabe... ainda dói ter que me acostumar com a ideia de que você não se faz mais presente. De que, talvez, - e aqui cabe um sincero talvez - você tenha se afastado para se curar desse mal chamado "nós". Confesso que lutei e relutei bastante com a ideia de ter que abrir mão do que sentia por você. Na verdade, não é honesto dizer que abri mão deste sentimento porque este sentimento ainda jaz em mim. Jaz, mas não descansa. Rola, se enrola e desenrola na tumba aberta da vida, esmagando as flores da memória precoce de nossa mútua devoção.
E para que os dias doessem menos, precisei me desfazer de tudo que me lembrava de você: esboços de poesia, contos e crônicas, desenhos, telas, esculturas, amuletos e até aquele velho acordo de promessas que tínhamos de cumprir. Você não sabe o quanto me doeu ter de enterrar essas promessas. Mas, apesar de tudo, um enterro necessário.
Além do mais, tinha que levar em consideração a premissa do nosso acordo: se abandonarmos essas promessas, seguiremos cada um o seu caminho, separadamente, e não olharemos pra trás, não importa o que aconteça. Por isso, concluí que precisava escolher um local em que eu não acessaria facilmente e assim exumar o símbolo de nossas memórias. E na esperança de encontrar o mais rápido possível esse local depositário, carreguei o papel embotado de nossas promessas, dobrado e escondido dentro daqueles box de Camel.
Ah sim, o Camel... Bem, como você sabe, depois que a conheci, passei a levá-los comigo no porta-luvas do carro, pois "os Camels" - como você dizia - "são importantes para a filosofia da vida, e para as questões da humanidade" - como se você mesma não fosse um ser humano demasiado humano.
Então deixava os Camels ali, guardados, para que você tivesse fácil acesso quando necessitasse filosofar. E mesmo depois que você se foi, os mantive no mesmo local, para, de certa forma, mantê-la presente.
E num desses dias fatídicos, quando circulava pelas noites de São Paulo, parado no trânsito de cruzamentos, me lembrei da ocasião em que você abriu o porta-luvas, se queixando "olha, desculpe, mas vou fumar aqui mesmo" e assim que deu o primeiro trago iniciou seu monólogo diletante a respeito da metrópole caótica e como isso afetava o ser humano - como se seu cigarro também não o fizesse também. Mas me recordando disso, abri o porta-luvas e saquei uma vez mais o papel embotado de nossas memórias... Dias e dias, e eu ainda procurando o local mais adequado. Começava a me sentir puto e triste porque a busca parecia infinita.
Foi quando, passando olhos sobre as nossas promessas, naquele trânsito da Avenida Paulista, fui acometido de um  uma ansiedade estranha e súbita - e como um presságio, um sobressalto do interior - e me vi guiando [ou sendo guiado, não sei] para o interior da vida. Dirigi por horas e horas nas rodovias solitárias e madrugais, até chegar a uma pequena cidade marina e costeira. Nem um quilômetro sequer nas cercanias da cidade e já me deparei com uma placa que sinalizada um bloqueio: Limite Rodoviário - Proibido a circulação de veículos automotores. Logo depois da placa, vi que começava ruas e ruelas de areia. Ao que decidi encostar o carro, tirar os sapatos, pegar o box de Camel e iniciar uma daquelas caminhadas reflexivas e cinematográficas.
Foda o quanto o som do quebrar das ondas e o vento minguante  da madrugada morna pode deixar a gente inspirado e emocionado.
Acendi um cigarro. A caminhada que me propus a fazer, não tinha tempo especifico a cumprir, mas imagino que a concluí em uma hora... ou seis cigarros mais tarde.
Depois desse rolê, avistei, ao fim da praia, uma encosta de pedras, e um pedaço de ilha. E ao canto oposto da ilha, na encosta, havia uma escada de madeira que levava ao seu topo, e que provavelmente reservava uma vista linda para o mar e - dado ao tempo investido - para o nascer do sol. Olhei ao redor para saber se necessitava de permissão para subida da encosta, mas nem mesmo uma placa que me proibisse. E, por isso, subi.
Lá em cima, um descampado gramíneo quase virgem, de brisa ainda mais leve e relaxante. E lá no fim da onde a vista alcançava, notei uma pequena árvore, entre o limite da encosta e do mar. Sua curvatura me fazia acreditar que ela estava a admirar a distância e a altura entre a encosta rochosa e o mar.
Ali, acendi mais um cigarro, e iniciei o meu caminho até a corajosa árvore. Durante a caminhada, me pus a imaginar o quanto aquele pedaço secreto de paisagem tinha tanto em comum com nossa história. A distância, a solidão, a singularidade...
Quando alcancei a arvore, fui logo matar minha curiosidade de enxergar e ver o que ela via e, me apoiando em seu tronco, me lancei à frente para olhar para baixo. Lá embaixo, o cataclismo rítmico da água entre as pedras, também me fez encontrar uma vez mais - ou devo dizer relembrar - a similaridade entre nós dois: opostos que se chocam, que se fundem e se moldam com o passar do tempo, de forma cíclica - e que parece ser deveras atemporal.
Essa descoberta pedia mais um Camel, mas ao buscá-lo dentro do box, tudo que me veio aos dedos foi o papel de nossas promessas. Confesso que nesse momento me escapou um sorriso pelo canto dos lábios. E ali me dei conta que a arvore observadora seria a grande guardiã de nossas promessas.
Satisfeito com a minha escolha, cavei um pequeno buraco com as mãos, de mais ou menos quarenta centímetros de fundura, e ali repousei, dentro do box do Camel, a velha folha de caderno, com nossas letras de juízo.
Depois da cerimonia de enterro, fiz meu caminho de volta para o carro. Já era manhã e o sol das primeiras horas me lembrava que eu ainda precisava dormir. Desci as escadas e parei na areia da praia para olhar uma vez mais o quebrar das ondas na parede da encosta. Refleti um pouco mais sobre tudo o que ocorrera até ali. Foda dizer isso, mas gostaria que o meu sentimento por você tivesse também sido enterrado ali, na encosta de terra úmida. Mas mais foda ainda é ter a consciência de que mesmo mudo, cego ou surdo... mesmo que eu abandone esse meu corpo, transformando-o numa carcaça entalhada, o sentimento ainda reverberará, pois é parte integrante de tudo que compartilhamos, está marcado em nossa alma... E quando no vazio das minhas distrações, na ausência de ocupação - como agora observando o sol - sempre rememoro o sentimento de você.
E por isso tambem faço um mea culpa: pois você sabe muito bem que aos olhos de muitos,  nessa realidade considerada normal, o meu desejo por você é anormal e doentio: um descaminho de um homem insensato e amoral, um libertino sinistro que se alimenta da inexperiência alheia. Quando penso nisso, me envergonho e me sinto triste. Porque não é verdade. Mas justificar não muda a verdade dos outros, então me reservo no direito de não justificar nada a respeito disso. Apenas reitero que ainda me esforço, diariamente, na tentativa de compreender a finalidade dessa peça que a vida nos pregou. E resvalo sempre no mesmo ponto: o de ter colocado sua vida em risco, e talvez a exposto a um sofrimento desnecessário, reforçando a sua visão de que os homens são indignos do amor de uma mulher. Quando, na verdade, desejava revelar que o amor pode - e deve - ser sentido, falado e experienciado e jamais deve ser olhado de longe, como tabu, como um estado de espírito inalcançável que somente nos faz doer e sofrer.
Mas fato é que se tentarmos invocar o amor com palavras de encanto e magia, gestos corporais compassados ou sexuais, com roupas e perfumes ou comprar lugares para impressionar terminaremos por nos enamorar no vazio da libido e no labirinto sentimental do pensar e do sentir. A famosa paixão. Complexidade e potência não são amor, e sim paixão. Amor é outra coisa.
Amor é...
Bem, amor é...
É difícil explicar. Talvez nem caiba explicação. Sempre que tentei explicar me tornei brega, contraditório ou obsoleto.
E sabe o que é mais foda? Toda vez que me pediam pra falar sobre você era a mesma ladainha "ora, ela é... Bem, ela é..." porque era difícil, quase impossível explicá-la para quem quer que fosse. Mesmo que fosse para mim mesmo. E desde o dia que você pediu para que eu me retirasse da sua vida, tenho tentado trazer a essencia do que você significa para a lógica, para a razão da consciência. E o dia que isso de fato acontecer, já não me sentirei mais brega, contraditório e obsoleto. Mas enquanto isso não acontece, me resta me perder nos interiores da vida, enterrando e desenterrado os fragmentos sobre você.

terça-feira, 23 de junho de 2015

- dias Perpétuos [ou a musa atemporal]

Por entre as disforias do tempo, sei que já estive com você em diversos outros desdobramentos de realidade. Mas mesmo assim, ainda hoje, os nossos encontros e nossas palavras me doem como nunca. Um resquício fúnebre de outra vida, por assim dizer. Uma tênue perspectiva: “Sinto medo de perde-la novamente ou de matá-la por dentro agora que tivemos uma segunda chance”.
E quando a encontro – por entre os portais de eras e eras – ainda me sinto carnal e pobre pelos sentimentos que nutro... e entre suspiros e sussurros, eu me prostro, no sobejar de nossas conversas, a te admirar distante, triste e inócuo.
O invólucro do tempo – esta miragem – que insiste em nos manter distantes e nos devorar a cada passada ilusória dos segundos, dos minutos e das horas... infinitamente supressivos, como a frágil expressão do agora.
E do fundo do meu coração melancólico, gostaria de confessar o quanto eu a amo... mas daqui desse plano não posso, não consigo. Por isso, resta-me o mudo movimento das palavras impregnadas de pensamentos que trespassaram no silêncio retumbante dos séculos sendo ditas e escritas, ecoando pelo universo para confrontar os corações daqueles que, assim como eu, ainda sofrem no além-tempo com a confusão do sentimento e das emoções.
- Mas sabe... quando ainda encarnado, apenas no mirar profundo de seus olhos, sem nenhum apelo sensual, me percebia perpétuo e edificante – tal como um avatar, um imortal. Ridiculamente humano, eu sei. Porém, tendo o amor terreno deflagrado por entre as memórias arquetípicas de minhas outras vidas, você – e somente você – tornou-se símbolo eterno de minha busca. Das minhas conquistas. Minha musa. Meu Deus, travestido em feminilidade e deleite. És – e para sempre será – a essência da minha chama espiritual.

domingo, 25 de agosto de 2013

- the Lasting Love [Chapter I | Coffee Shop]

I grabbed a cup of coffee fast and sat reading the reports about that pokey afternoon. The rain, outside, was gliding on the showcases and the neon lights was fading out to dusk. I’ve dried myself out from the dispersing drops outdoors, heating me with some swigs of ristretto.
I’ve kept on looking through the showcases when unexpectedly noticed a hasty figure with its desperate steps coming to the coffee shop. Her heavy breathing could be seen as little cloudlets of storming thoughts.
“She’s beautiful, anyway”
The doorbell rang. And every single person turned to look at her, as they were also following her steps and breaths outside the sidewalks. I’ve burst into a silent laughter and tried hacking it, pretending to clear my throat.
She sighed closing her wet umbrella, then looked for an empty spot. Worried with something but the rain, she sat oppose to me babbling some swear-words.
- I damn espresso, please! – She ordered shivering.
She sighed again and elbowed to the table disentangling her soaked hair. I could hear the whimpering. The sole whimpering.
The door slammed behind us. A wretched man, with a loathsome posture and a wary sight seems to be looking for someone, chasing with his eyes a recognizable face that must be so anxious to meet with.
- Oh, no! Not in here – She murmured hopelessly.
When I looked backward, the rascal was nearby and, suddenly, I just could feel the stride pulling me out of his way as I was a fucking petty obstacle that must to be removed to reach the target.
- You asshole! – She shouted full lungs.
He jabbed her right in the nose passing her out instantly. Then he watched his artwork, the unconscious body on the floor, and signed with a spit.
- That is the price for paying, you fucking hooker – He pulled the tables out and disappeared crossing the street corner.
Nobody moved a muscle. I watched the silence for few moments while trying to figure out what just happened. Senseless. I pulled myself together and bent next to her analyzing the whole damage.
- Hey – said the man behind the counter – get rid of that bitch, I don’t want the cops at this place, did you hear me?
I nodded. But wouldn’t be sensible wandering around in the rain with a fainted girl surrounded my arms. Well, could be romantic, if I were Gene Kelly performing Fred Astaire’s melodies. But I am not. Moreover, both men that referred to her called her “bitch” – not a good score of fan page, I suppose.
- Come on, dude, get this woman out of here.
- Ok, man. Chill out! We are going away – I held her in my arms, calmly, to avoid further injuries, and we went out of the coffee shop. Under the awing, preventing from the rain, I wondered where we could go. So instantly occurred to me that the hospital would be honest and plausible.
- Well, ma’am, let’s see the doc, but, ‘till there, think the rain will help out to wash and heal your wounds and bruises away.
We were one block from the city hospital, which would give me about two minutes to make up a story with some good plots.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

- o livro das musas [estou bem agora]

[prólogo]

Anteriormente, quando ainda estávamos juntos, dividindo nossa intimidade – até vinte e quatro horas em determinados dias – eu não conseguia ver para além de mim mesmo, eu não enxergava você. O egoísmo me consumia. A frieza do meu caráter era esboçada pelo meu semblante de poucos amigos, minha fala lacônica e meu sentimento embotado de desinteresse e de preguiça frente às situações que você considerava bonita e interessante, mas eu não.
Foram longos meses de tentativas sua que acabaram por frustrá-la ainda mais. A minha posição de vítima e de único ser humano a compreender as questões e as dores do mundo, não deixavam-me enxergar a beleza de tudo aquilo que você tentava me fazer entender. Foram vários os dias que você desistiu de dormir para me educar com seus monólogos sobre a sanidade e a importância de viver e não existir somente. “Ame a si próprio”, você dizia, “só assim você conseguirá sentir gratidão em relação às outras pessoas”. Mas eu me tornava cada vez mais solitário, frio e condescendente.
Não me importava mais em machucar os outros só para inflar meu ego, me afirmar como ser humano. As minhas respostas eram geralmente grosseiras e terminavam por projetar meu ego inflado, agressivo e resistente. Eu jamais pedia desculpas. As pessoas me achavam temperamental e hostil, mas eu insistia em pensar que elas é quem eram ignorantes demais para compreender a raiz dos meus pensamentos. Eu sempre tive preguiça de me explicar, de perder meu tempo em fomentar detalhes sórdidos e recorrentes, só porque as demais pessoas não entendiam as coisas que eu dizia de forma natural.
Eu sempre estava criticando algo ou alguém pelo simples prazer da crítica – uma grande masturbação egocêntrica – e a envergonhava perante as pessoas que você admirava pelo simples fato de eu me julgar superior com as minhas afirmações e hipóteses pomposas e carregadas de preconceitos e de hipocrisia.
Não entendia como você podia me suportar.
Em algumas situações, você me pedia, “pelo amor de Deus” para, “pelo menos uma vez”, ser empático, e eu sempre respondia inflamando meus pulmões de motivos baratos e envoltos pela frustração de ser eu mesmo: “Não estou a fim de vestir uma máscara e comprazer com esse mal-estar social, fingindo que está tudo bem no reino da desgraça”. Você então ficava louca, temendo que eu ferrasse com tudo, desrespeitando as pessoas que estariam com você. E, geralmente, eu a decepcionava, com o louvor da missão cumprida de um miserável.
Lembro-me até hoje do dia em que causei embaraços dos mais constrangedores em sua casa, quando seu pai, depois de instalar seu novo pacote de tevê por assinatura, me perguntou o que eu tinha achado da cobertura de setenta e cinco canais. Respondi dizendo para ele tomar cuidado, pois “a tevê não trará a solução para todos os nossos problemas, seja em alguma novela, em algum programa de culinária ou mesmo nos jornais sensacionalistas que valorizam tanto a tragédia alheia e repetem-na, mais de mil vezes, com a intenção de aumentar o ibope”. Mesmo percebendo que ele me fitava encabulado, coçando a nuca e o bigode, e, às vezes, desviando o olhar para os lados na busca da vergonha que se esvaia pelos cômodos, complementei afirmando: “olha, não estou a fim de compartilhar meu tempo com essas idiossincrasias baratas e nonsenses da tevê, seja com um ou com setenta e cinco canais, pois não dará em nada nunca”. Seu pai então desligou a tevê e se retirou, chamando pelo seu nome com uma voz quase ausente. Segundos depois, você apareceu com suas passadas de  gigante irada, e me perguntou que raios eu tinha feito desta vez. Dei de ombros julgando não precisar explicar a minha razão e, você, com sua paciência monástica, discursou a respeito da empatia e da humildade e, ao final, com argumentos válidos, sentenciou: “Você não está na sua casa. E, pior, você acaba de humilhar o dono da casa. Quem você está pensando que é? Aonde você quer chegar agindo desse jeito? Custava você zapear os canais e tecer algumas palavras gentis? Algumas vezes é necessário cedermos pela paz de uma situação cotidiana. Por exemplo, como eu sempre faço em relação a você. Cedo pela paz dos nosso relacionamento. Você não pode fazer isso nem mesmo por uma tevê? Como você pode ser tão alienado em si mesmo?”. Emputecido, novamente não quis ouvi-la e, no auge de minha ignorância, reagi com argumentos insólitos e vazios, estancando todas as nossas chances de amor. “Olha, eu não estou a fim de participar ou defender seus ideais pacifistas, não pretendo me filiar a ongs, não quero adotar alguém e muito menos fazer revolução. Estou comodamente alienado e prefiro assim: nada na cabeça e dinheiro no bolso. Se quiser, vista você o seu cabresto social, afinal, a vida é um reality show de setenta e cinco canais, não é mesmo minha querida?”.
Pela primeira vez, você alterou o tom de sua voz, e, com lágrimas nos olhos, me levou até a porta da sua casa. “Vá embora, por favor”. Escutei seus gemidos inconsoláveis intercalados pela ausência de fôlego e dos soluços. “Como você pode odiar a vida? Como você pode não gostar de ser feliz, de se sentir bem, nem ao menos por um dia?”.
Embora eu tivesse a chance de permanecer calado, ir embora e refletir sobre o que você havia dito – pois hoje considero palavras carregadas de sabedoria – eu ferrei com tudo defendendo minha ideologia do ego, vazia e sem fundamentos. “Pessoas como você acham que podem simplesmente passar um corretivo ou mesmo oferecer um paliativo para todos e pronto: fica tudo muito bem! Olha, se você acha que sua vida seria bem melhor em um mundo colorido pela comunidade da alegria, me desculpe, mas não adiantaria. A humanidade teria de ser exterminada e a evolução natural teria que dar conta do recado para que outra espécie evoluísse para algo melhor, menos ansiolítico e impulsivo. Chega a ser gritante a corja de alienados que orbitam seus próprios umbigos e que, de tempos em tempos, vomitam nos nossos ouvidos metade de tudo que ingeriram com as demais pessoas. Ah!, também tem aqueles filhos da puta que culpam a natureza e seus fenômenos pelo fato de sermos rendidos em desastres. E agora que a coisa está completamente irreversível, querem que nós nos responsabilizemos - cada um de nós! - a trazermos à tona uma vida mais verde e ‘inalável’. Eu simplesmente não estou afim! Não vou salvar um panda. Não vou reciclar. Não vou racionar. Não vou tomar banhos curtos, - não importa a estação do ano - pois não estou a fim de mudar o planeta. Desculpe, mas eu já me cansei dessa violência simbólica e material. Eu não quero mudar de sexo. Não quero lutar no exército. Não quero ser pop, não quero ganhar na loteria para ser o milionário da vez e, eu, definitivamente, não vou mudar a merda do mundo só porque estou passando uma corrente maldita ou porque eu apaguei a luz do abajur do meu quarto por uma hora. Estamos pra lá de longe de nos sentirmos bem. Estamos tão doentes e tão desgraçados que já não vale mais a pena medicar. Isso apenas prolongará o sofrimento. O meu sofrimento. Você diz que eu odeio a vida, mas, pense bem, pense bem! A morte pode fazer muito mais sentido para uma espécie tão escrota como a nossa. Tão escrota que sublima tudo que pode para viver com menos desprazeres e depender mais de seus desejos egoístas!”.
- O único egoísta aqui é você com seu discurso de vida limitada e frustrada! - Você me interrompeu com um grito histérico, e então me estapeou na face na tentativa de reprimir meu desconsolo humano perante a tudo que se revelasse com disposição para vida. Você ainda negaceou com a cabeça, de olhos fechado, e confessou, enfim: “apenas queria que você ficasse bem!”.
A porta se fechou.
Eu me retirei da frente de sua casa com meu rosto inflamado e avermelhado. Andei pelas ruas tentando esconder a expressão de dor e constrangimento. Li as placas na esquina. Procurei uma direção. Eu estava a muitos quilômetros de minha casa. As pessoas me mediam, ora com repugnância, ora com deboche, meu rosto vermelho como uma maquiagem de palhaço. O formigamento e o ardor me recordavam nitidamente do tamanho de suas mãos, agora bem delineadas pelo vermelho coagulante. Mesmo depois de andar por cerca de uma hora até chegar ao terminal e embarcar no primeiro ônibus que vi, ainda sim podia sentir nitidamente o ódio expressado pela marca dos seus dedos. Eram oito horas quando o ônibus partiu. Eu levava como bagagem os seus sentimentos por mim, gravados em minha face; e meu coração apertado, de vergonha e dor.
Me sentei só no último banco tendo como vista os campos enegrecidos e sutilmente contornados pelo lume da lua. Na solidão da noite, sem conseguir dormir, me lembrei de suas palavras. De todas as suas palavras. O meu peito apertou e, na agonia, lágrimas saltaram lentamente escorrendo pelo meu rosto. Foi uma noite difícil e acabei adormecendo de cansaço, dor e arrependimento.
Quando acordei, seis horas depois, permaneci deitado, olhando para as lâmpadas do teto. Não me lembro quantos dias vieram depois, meus pais não me falaram. Me mantive ali, imóvel, observando as mesmas lâmpadas e as mesmas janelas por dias e dias. Meus pais disseram que você ligou e perguntou como eu estava. Eles também disseram que você garantiu que seu pai não está mais com raiva de mim e que agora tem cem canais na tevê por assinatura. Mas eles não disseram muito, pois logo eu apaguei devido a uma nova crise e precisaram chamar a enfermeira...
A visita para mim foi suspensa mais uma vez.
Eu sei que oito meses se passaram desde o dia que eu voltei de sua casa. Mas meus pais disseram que eu ainda não superei... que eu ainda não superei.
Eu tentei me matar.
Meus pais disseram que te contaram em um dos telefonemas.
Sei que você se culpa, mas não foi por sua causa. Eu era fraco. Um grande egoísta e ingrato.
Compreendo agora tudo o que você queria dizer a respeito da vida, sobre ‘viver e não existir’... são respostas para o que eu procurava e não percebia.
Mas agora, aqui, onde estou internado para reabilitar-me dos meus monstros particulares, aprendi muito. Consigo compreender e valorizo isso. Aprendi dizer ‘eu te amo pai e eu te amo mãe’. Agradeço a tudo. Sou mais aberto aos estranhos que me abordam e puxam assunto. Não julgo mais o que eu não conheço pelo simples fato de defender uma ideologia qualquer. Dedico um tempo para a contemplação de mim mesmo, me livro de toda alienação: divago sobre ser e existir, sobre mim, e descubro que eu posso cada dia mais, que eu sou infinito, que não existe razão alguma para doer e que apenas justificamos a nossa vida quando compartilhamos, quando somos com o outro... como você sempre tentou compartilhar comigo. Por isso, eu apenas queria que você soubesse que eu estou bem agora. E que nada nesse mundo será capaz de me alienar.
Nada.

domingo, 22 de janeiro de 2012

- o livro das musas [misto-quente, sexo & Jazz]

[prólogo]
[cd & vinil]
[um Platão a mais]

Naquela noite, eu insistia para não sair do aconchego da minha casa. Já havia preparado meu café e, também, organizado meu espaço de tintas para começar a pintar novas telas. Foi quando meu telefone tocou.
- Hoje é o meu vernissage! Não se atrase! Começará às dez.
- Perfeito! – obviamente não estava nada perfeito, mas, de qualquer forma, eu iria – Ei, não poderei ficar muito tempo – inventei –, tenho um compromisso.
Não tinha nada. Compromisso nenhum.
Apenas complementei meu visual com uma blusa de lã e um sapato velho.
- Assim está ótimo.
Eu sabia que muitas pessoas estariam lá enchendo o saco. Pessoas que gostavam de comparar masturbadoramente toda a arte, como se suas críticas esdrúxulas fizessem alguma diferença real para qualquer dos artistas plásticos vivos ou mortos do planeta Terra. Eram sempre ladainhas como “veja bem esses traços inspirados no impressionismo de Monet”, “me lembrou a fase azul de Picasso”, “nada como as entrelinhas do surrealismo de Miró” – uma verborréia explícita sem sentido algum. Por isso, assim que cheguei ao vernissage, tentei não chamar muita atenção, mas logo percebi que meu plano não funcionaria: eu estava vestido como um mendigo francês – o que poderia me render confusão, pois era como se eu fosse um deles.
No saguão, minha amiga recebia seus convidados com taças de espumante e os direcionava para as dependências do ateliê que compunha a instalação de suas obras. Depois de parabenizá-la pela conquista, me servi de uma taça do espumante com gosto de vinagre e desfilei meu visual parisiense decadente dos anos 20 pelo ateliê. Eu já havia visto todas as telas dela anteriormente – algumas até no processo de inspiração e criação para suas namoradas proibidas que nunca conheci – por isso tentei permanecer próximo daquelas sem muita adesão, para evitar os comentários pomposos. Despistando os almofadinhas do ateliê, adentrei um cômodo silencioso e solitário, com mantos enegrecidos, velas e crisântemos. No centro, havia duas telas, uma de frente com a outra, e ambas pintadas de negro, denominadas Les Ombres Ensemble. “Essa eu não conheço” pensei “deve ser mais uma dedicada às suas ex-namoradas secretas”.
- Espero que os crisântemos gostem de vinagre... – e esvaziei minha taça num dos vasos utilizados como adorno. Foi quando, do meu lado, percebi que havia uma moça observando a tela negra. Disfarcei escondendo a taça atrás do arranjo de crisântemos.
- Isso é falta de sexo, não acha?
- Me desculpe, não entendi – disse a ela.
- É. Falta de sexo. Pênis. Sabe?
- Do que você está falando? – ri.
- Dessa tela... o que leva uma pessoa a fazer algo tão desinteressante assim? Ladear duas telas negras e dar o nome de “As Sombras Juntas”. Não tem sentido algum. Só pode ser falta de uma boa foda, você não acha?
Perdi o fôlego de tanto rir. Mas tentei manter a compostura de um decadente segurando o riso com as mãos, até porque minha amiga podia estar por perto.
- Ainda bem que ao menos você acha engraçado, pois essa tela é uma piada de muito mau gosto – tragou o espumante – alguém deveria dizer a essa mulher que foi tinta desperdiçada.
- Se você quiser eu digo, aliás, eu a conheço.
Ela riu sem graça.
- Sério que você a conhece?
Afirmei com a cabeça.
- Mas, dane-se, o fato é que você, agora, tem que impedi-la de pintar lixos como esse. Ampute as mãos dela, se for preciso.
Foi exatamente assim: excêntrico. Ela não se importava com o que eu poderia pensar. E o mais interessante de tudo isso é que, segundo me disse depois, enquanto circulávamos a procura de alguma bebida que não fosse vinagre, ela não havia sido convidada por ninguém; entrou ali simplesmente porque serviam bebida de graça.
- Eu só me dei conta que não era festa, quando entrei naquele cômodo e vi você jogando o espumante nos crisântemos. Pensei “Ele também deve ter acabado de se dar conta que é uma exposição de arte!”.
Não conseguia mais conter o riso.
 - Estão gostando do vernissage?
Percebendo que minha companheira excêntrica avacalharia com as telas se abrisse a boca, atravessei pigarreando:
- Ei, essa daí é a responsável por essas belíssimas telas.
Ela a olhou atravessada, desviou o olhar, suspirou profundamente, relutando para não se exaltar e estendeu as mãos para cumprimentar minha amiga. Foi um cumprimento inerte e triste.
- Você nunca me apresentou a ela... estão saindo há quanto tempo? – minha amiga perguntou desconfiada.
Antes que minhas palavras tomassem som e forma a pergunta foi respondida:
- Estamos saindo há apenas uma semana, talvez por isso ele ainda não tivesse contado a você.
"Que loucura" pensei. Minha amiga pareceu não gostar do que ela disse ou, talvez, do modo como ela havia dito e, por isso, se retirou sem dizer mais nada.
- Que tal sairmos daqui para bebermos de verdade? A bebida aqui é uma merda.
Ela me puxou pelo braço e lá fomos nós.
No meio do caminho reencontrei minha amiga e tentei justificar a minha saída frenética e repentina dizendo que, aquela mulher, na verdade, “era a desculpa do meu compromisso” como falado no telefonema anteriormente, mas ela não me escutou ou não quis me ouvir. Como já estava perto do saguão, não insisti.
- Ei, mas aonde vamos?
- Não sei ainda, mas vamos – disse sacando sua cartela de Lucky Strike.
As ruas estavam calmas. Apenas encontrávamos casais decadentes e famílias desbotadas nas varandas dos casebres e também sobre a velha ponte rangente de águas sujas. Havia também algumas tendas noturnas permeando a praça central, onde as figuras clericais e os aposentados com visuais de adolescentes solitários esperavam ganhar a noite com alguma mulher fácil. Enquanto o alvo propício – entenda-se como alguém que estivesse afim – não aparecia, eles se esbanjavam de bebidas quentes e conversavam bucolicamente sobre suas vidas feudais com amigos tão jovens de roupa quanto eles.
Depois de acender seu cigarro, ela me levou para um beco perto das tendas da praça central. Um lugar com pouca luz, mas de visão privilegiada.
- Espere aqui.
Ela correu para onde os velhos estavam, não muito longe dali, e agarrou pelo braço um senhor parecido com o Clint Eastwood. Conversaram por alguns minutos. Ela se sentou com ele numa velha mesa de ferro oxidado e, pelo que percebi, pediu para que o velho comprasse uma garrafa de vinho. E lá foi ele. Curiosamente, quem vendia os vinhos eram os padres – Padres (?).
Antes que ele se sentasse para cortejá-la, ela fez mais um pedido, desta vez era algo para comer. Vi o velho Clint indo para a barraca de doces, mas, então, enquanto ele dava as costas, tropegamente, na enorme fila repleta de outros velhos e também beatos e carolas, ela agarrou a garrafa de vinho e correu em minha direção.
- Corre! – saímos por um dos becos que havia atrás das tendas. Ela ria como uma adolescente desgovernada, daquelas que desobedecia seus pais fugindo à noite com os amigos. Quando já estávamos a uma distância considerável do antro geriátrico, paramos para descansar o fôlego.
- E agora, para onde vamos?
- Vamos andar e beber vinho.
Caminhamos rumo a lugar nenhum. Era possível escutar as folhas das árvores, a dilatação de metais dos carros estacionados nas sarjetas e nas esquinas, e o vento, o vento que ecoava um bramido delicado e triste pelas bocas de lobo. A calmaria silenciosa da escuridão logo se transformou num cenário solitário e gélido, com pouca luz para iluminar nossa vista às próximas ruas à nossa frente. Nessas nossas andanças, enquanto revezávamos a garrafa de vinho, ela relatou o tanto de vez que já roubara garrafas desses velhos perversos nas praças do centro. Rimos muito. Ela então estendeu sua mão para mim, pedindo com os dedos a garrafa. Mas, mesmo sabendo que ela desejava o vinho, fingi não perceber dando a ela minha mão, envolvendo a ponta de seus dedos, até alcançar sua mão por inteira. Ela não reagiu. Assim, de mãos dadas, compartilhamos o caminho das ruas e os goles de vinho. Percorremos ruas e mais ruas até nossas pernas adormecerem de frio. Paramos para descansar em frente ao Forte da cidade. Apesar de ser um patrimônio municipal ainda era bem cuidado. Lugar estrategicamente projetado para o alto, proporcionando maior visão para se defender possíveis ataques e invasões do passado, mas, atualmente, era apenas utilizado como reduto de casais românticos, velhos solitários e nostálgicos e pré-escolares e suas visitas obrigatórias do liceu, nos horários comerciais. O portão nunca estava fechado, pois não havia nada para ser furtado. Somente os velhos canhões de chumbo de três toneladas, mas, como eu disse, eles têm três toneladas.
- Vamos subir? A vista de lá é linda.
Concordei.
Era possível perceber o reluz em alguns casebres do longínquo. E a névoa. A névoa, como um manto, envolvia o horizonte. As gotículas de orvalho eram carregadas pelo manto de névoas e, às vezes, alcançavam a nossa face como um chuvisco invisível mas latente.
- Ainda bem que temos a garrafa de vinho para nos mantermos aquecidos.
Debruçamo-nos no parapeito. Ela acompanhava distraidamente o contorno da névoa no horizonte da cidade. Era possível enxergar sua respiração, o volume de seu sorriso, o som de sua voz.
- Veja só, ainda há muitas luzes acesas... – ela riu com o canto dos lábios e completou – quantas pessoas você acha que estão trepando nessas casas?
Ri.
- Por que você diz isso? Você gosta de trepar somente com as luzes acesas?
- Ah, tanto faz... Mas você já reparou que algumas pessoas têm complexos corporais e preferem a penumbra, o escuro. Acho que é válido fazer o que se tem vontade. Quando os casais estão sintonizados essas coisas não são importantes. Agora, aquelas pessoas que iniciam rituais para transar são broxantes. Coisas como “só faço de luz apagada”, “não faço essa posição”, “não faço sexo oral”, “não visto fantasias” enfim, não há necessidade dessas proibições, pois desejos como esses podem até enobrecer ainda mais a relação.
Concordei balançando a cabeça.
- Sou da opinião que pessoas que impõem limites precisam de terapia freudiana ou então, se mesmo assim não resolver, o fim do relacionamento... – mexeu em sua bolsa e tirou seu Lucky Strike – Quer um cigarro?
- Eu não fumo.
- Como assim você não fuma? Que diabos você é?
- Nunca tive vontade de fumar. Só isso.
- Pois então hoje você vai experimentar. Tome, pegue o meu que já está aceso. Vou te ensinar a tragar.
Foi assim que comecei a fumar. Enquanto observávamos os casebres do sexo, ela me ensinou como eu deveria puxar a fumaça e como deveria expeli-la de maneira que não incomodasse a garganta ou as narinas. Tossi algumas vezes, mas logo já estava parecendo um dos Corleone.
- E ai, o que achou do Lucky Strike?
Senti gosto de engarrafamento, de janela de apartamento, de esquinas, de cotidiano de cidade. Talvez por isso eu não soube descrever a ela o que achei do gosto do cigarro.
- Eu gosto de conversar fumando. Pode parecer bobo, mas é inspirador. Deve ser porque todas as personalidades que me influenciaram diretamente na adolescência também fumavam, sabe – tragou – como Charles Bukowski, David Bowie e Salvador Dali.
- Quem é Charles Bukowski? – perguntei tossindo os pulmões.
- Você não conhece o velho Buk? Cara, de novo, o que você faz da vida, afinal? – Antes que eu pudesse responder ela continuou, estridentemente – Isso é um absurdo! Quando chegarmos no meu apartamento vou te emprestar um livro dele.
Seu apartamento?! – boquiaberto com o que acabara de ouvir, a taquicardia começou.
- Ei, calma! Meu apartamento não é tão longe assim. São apenas duas quadras daqui. Chegaremos lá antes de acabar o efeito combustivo do nosso vinho.
E assim foi. No caminho para o seu apartamento, ela me contou sobre suas músicas favoritas do Bowie e também sobre as suas interpretações particulares e nefastas dos quadros de Dali. Ela não era como os almofadinhas. Nossas idéias batiam. Não comparávamos ninguém. Apenas dizíamos o que achávamos e como nossas influências marcavam nossas vidas.
- Chegamos.
Suspirei profundamente. Senti meu peito vibrar. A sensação reverberou pelo meu corpo inteiro e, por alguns instantes, permaneci estacado em frente à escada do condomínio sem conseguir me mover.
- Venha logo! – ela gritou da porta da recepção – o elevador já está aqui!
Despertando do meu transe de confusão particular, corri para alcançá-la. Ao entrarmos no elevador, recostei à parede e olhei para o teto. Assim como os quartos de motéis, aquele elevador tinha um espelho. E, assim como todos os elevadores, esse também tocava músicas pop dos anos setenta e oitenta. You Don’t Understand Me, do Roxette, era a música da vez. E nessa balada particular foi que, pela primeira vez, pude fitá-la detidamente, me atentando a seus traços. Ela estava num vestido vermelho. Seus cabelos confusamente emaranhados pendiam para suas orelhas pequenas e delicadas. Diante da luz peculiar do elevador, sua pele contrastava com seus lábios vermelhos.
- Eu definitivamente não gosto de música de elevadores – disse ela me acordando do transe da contemplação. A porta do elevador se abriu. Percorremos alguns passos na penumbra. Apartamento 101. Entramos. Ela jogou suas chaves no sofá e foi para a cozinha. Permaneci inerte, com as mãos no bolso, enquanto observava ao redor. Havia pôsteres da Françoise Hardy, da Marilyn Monroe e da Liv Ullman espalhados pela parede. Na estante alguns amontoados de LPs de Jazz e R&B, como Nina Simone, Dinah Washington, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Etta James e Areta Franklin.
Numa escrivaninha, ao lado da estante, havia um pequeno álbum de fotografias. “Uma oportunidade de conhecê-la melhor” pensei. Indiscretamente, enquanto escutava os barulhos da demora dela na cozinha, folheei algumas páginas do álbum. Uma viagem para Paris. Fotos clichês no Louvre, na Torre Eiffel, no Arco do Triunfo. Me apressei pulando algumas páginas de paisagens e mais paisagens de tundras e mais tundras, foi quando, num estalo, percebi escapar pelos meus dedos uma foto de um beijo. Voltei, tentando reconhecer a imagem que acabara de escapar das minhas mãos. “Achei”: Eram duas silhuetas contra o sol. A reconheci como uma delas. A outra silhueta, bem... a outra silhueta também era a de uma mulher. Frustrei-me. Devolvi o álbum à escrivaninha, do mesmo modo que havia encontrado, fechado.
“Merda!”. Todas as minhas expectativas foram dizimadas.
- Quer cerveja? – ela adentrou a sala com uma garrafa já aberta.
- Obrigado.
Me sentei no sofá e recostei minha cabeça olhando para o teto. Esfreguei o rosto com as mãos, tentando fazer me esquecer daquela fotografia do beijo de silhuetas.
- Ei, venha aqui no meu quarto, preciso te mostrar uma coisa.
Lá, ela me mostrou suas prateleiras de livros. Havia diversos títulos, mais do que eu planejei ler à minha vida toda.
- Você já leu tudo isso?
- Sim – disse ela tateando alguns de seus títulos.
Naquelas fileiras intermináveis, havia também títulos em francês e em inglês. Ela puxou um e me entregou em mãos.
- Toma. Esse é para você. Quero que você o leia e depois me diga o que achou.
Se chamava Misto-quente, e era do Charles Bukowski.
- Fechado.
Me sentei em sua cama e folheando o livro, enquanto me distraía com suas idas e vindas do banheiro para o quarto, ora vestida, ora enrolada em toalhas. Confesso que eu não estava animado para ler aquele livro. Não mais. Ainda mais depois dos meus pensamentos concluírem que não haveria mais finalidade alguma, pois ela tinha namorada.
- Não precisa lê-lo agora. Temos coisas mais interessantes para fazer aqui – e jogou suas toalhas no meu rosto. Quando me livrei das toalhas, vi que ela estava nua. E caminhava lentamente em minha direção. Seus pés eram delicados e silenciosos, pareciam flutuar rente ao chão. Em seu pé esquerdo havia uma pequena tatuagem de Shiva, que suavemente contornava o calcanhar. Me detive em contemplá-la por inteira. Percebi que suas pernas magras e fortes combinavam com sua estrutura esquálida. Seus seios firmes, macios e pequenos eram perfeitamente moldados ao tamanho de minha mão. Seu pescoço era longo e elástico. A sua marcha sensual e demorada era envolvida pela fumaça do cigarro, acompanhando-a como uma névoa emanadora de prazer. Arredia, parou em minha frente. Sorriu. Se virou de costas, observando suas estantes de LPs. Escolheu um com a capa parecida com a do Pulp Fiction.
- Agora você me escutará cantar – ela sussurrou enquanto se apoiava em sua vitrola de 45 e 78 rotações. Me sorriu mais uma vez, cruzou os braços, tragando o tempo e a sedução pertencentes somente a ela. Uma voz linda ecoou pelas quatro paredes. Era My Funny Valentine, na voz de Bernadette Seacrest. Ela balançava, na velocidade do som. Em seu corpo, cada instante da música era reproduzida e a melodia parecia exalar de seus poros. Seus lábios mudos imitavam perfeitamente os versos sentimentais – até mesmo a reprodução dos momentos de silêncio eram idênticos aos de Bernadette.
- Melhor que a versão do Sinatra que eu tenho em casa – aplaudi solitário.
Ela riu e, com passos silenciosos, estacou em minha frente, cantando lascivamente:
- My funny valentine. Sweet comic valentine. You make me smile with my heart… – com suas mãos, ela percorreu meu rosto e me beijou na face – Your looks are laughable. Unphotographable. Yet, you’re my favourite work of art.
Delicadamente, percorri sua cintura com minhas mãos, deslizando-a até contornar todo o abdômen. Tomei-a então pelos braços e lentamente os descansei em meus ombros para dançarmos. Dançamos enquanto ela continuava a cantar com seu silêncio suave para os meus ouvidos. Alternávamos os versos tristes com beijos lentos, envolvidos um ao outro pela hipnose da melodia apaixonada e melancólica. E sob a névoa do incenso que ela tragava, eu a dominei em meus braços. Deitamo-nos na cama, nos beijando. O soar da voz e da melodia se esvaeceram suavemente, pouco a pouco, até desaparecer por completo, dando voz aos nossos suspiros e gemidos descompassados pela ansiedade do prazer. Transamos. Transamos ainda quatro vezes mais embalados pelo álbum de Bernadette Seacrest, até que, cansados da nossa longa noite, retesamos um ao lado do outro enquanto falávamos preguiçosamente como nos sentíamos ao escutar Jazz e Blues.
Ela dormiu quando o sol penetrou na janela do quarto. Permaneci ainda por algum tempo ao seu lado, contemplando sua beleza, mas logo a monotonia se configurou no cenário da janela. A acomodei de maneira que não despertasse seu sono e me levantei. Enquanto esfregava meu rosto para me manter acordado, vi jogado ao chão o Misto-quente do Charles Bukowski. “Vou ler até a hora que ela acordar”. Me sentei na varanda com o sol da manhã. Li cerca de quarenta páginas. Senti fome. Fui até o quarto, ela ainda estava dormindo. Vesti minha roupa e desci para comprar alguma coisa. As ruas continuavam tristes e vazias. Vasculhei um mercado em busca de comidas rápidas. No caixa, uma frase do Bukowski começou a ecoar repetidamente na minha mente “Os cigarros Camel eram mágicos”.
- Ei, cara, me vê um maço de Camel – disse para calar a premonição.
Quando voltei ao apartamento, escutei o barulho do chuveiro ligado.
- Vou fazer um café para você – gritei.
Enquanto passava o café, experimentei meu Camel.
Não sei descrever o que senti quando traguei, pela primeira vez, um Camel.
- Sem dúvida são mágicos! – Jamais o troquei por outro.
Ela se sentou à mesa vestindo sua toalha úmida e assim tomamos juntos nosso café do meio-dia, enquanto fumávamos e conversávamos a respeito do que eu estava lendo do “velho Buk”.
- Preciso te apresentar para alguns amigos meus – ela disse – eles vão adorá-lo. Aliás, podemos vê-los hoje à noite, que tal?
- Tudo bem, mas antes preciso ir para casa.
- Fechado.
Ela marcou numa cafeteria, no centro. Onde sempre iam.
Fui para minha casa, tomei um banho. Quis ler um pouco mais do Misto-quente do Bukowski, mas o havia esquecido na casa dela. Entediado, esperei a hora passar. Acabei dormindo, estava exausto das andanças e, também, de tanto trepar. Acordei atrasado. De qualquer forma, sai sem pressa e, novamente, mal vestido. Depois de muito andar pelas ruas e becos por cerca de quarenta minutos, encontrei a cafeteria.
- Lá está ele. Eu disse que ele viria – ela gritou, me identificando para os seus amigos.
Acenei em resposta, um pouco desapontado – não por chegar atrasado, mas pelos estereótipos que a acompanhavam.
- Pensei que você fosse me dar um cano depois da noite que tivemos – ela sussurrou em meu ouvido rindo.
Me sentei ao lado dela enquanto era introduzido ao clube noir de pseudo-intelectuais que viviam na belle epóque. “Merda, esses filhos da puta estão em todos os lugares”.
Não me lembro do nome de nenhum, pois instantaneamente à apresentação, os reconheci de acordo com suas pseudo-qualidades: havia o crítico de cinema e arte, que usava os óculos parecidos com o do Woody Allen e se vestia como um jazzista de New Orleans, com direito a boina e suspensório; havia uma que se vestia como a Cindy Lauper, fazia critica a todo e qualquer artista que estivesse na mídia e gostava de bandas que ninguém conhecia, classificando-as sempre como blasé ou hype; havia também uma que, ali na mesa, não falava com ninguém, parecia estar bem puta com o mundo, e na apresentação a chamaram apenas pelo apelido de Françoise – porra, Françoise?
- Você precisa vê-la falando em francês!
Perfeito, tínhamos europeus, norte-americanos e paga-paus, não falta mais ninguém.
A masturbação logo começou. Falavam de escritores que não leram, de lugares que não visitaram, de filmes que não assistiram e de peças que não viram. O mais sabido de todos era o Woody Allen de boina. Suas declarações pomposas e quiméricas eram postulados de ordem. Depois de duas horas de ejaculações verborrágicas do clube noir meu estômago já estava corroído de azia – e não era nem pelo excesso de café e Camels –, o fato é que eu já não agüentava mais.
- Vamos embora – segredei no ouvido dela.
- Calma. Teremos a noite inteira para ficarmos juntos.
Ela estava muito interessada naqueles assuntos insuportáveis. E eu apenas queria ir embora. Para ganhar tempo, pedi licença e fui até o banheiro. Lavei meu rosto e permaneci olhando para o espelho enquanto imaginava uma maneira de me livrar daquela situação nauseante. Mas nada me ocorria. Bati contra a pia, estapeei o rosto, xinguei todos de filhos da puta e voltei. Quando saia do banheiro, Françoise me puxou pelo braço.
- Por aqui – disse enquanto me arrastava pelos degraus da saída do café.
Paramos na calçada, do lado dos ativistas do Greenpeace, que distribuíam panfletos sobre os dentes de marfim dos elefantes brancos. Ela sacou sua cartela de cigarros e depois de tragar contra o vento, disse:
- Percebi que você também não gosta daqueles maricas. Só topou vir aqui porque está trepando com aquela idiota – pigarreou – mas eu preciso te advertir sobre uma coisa a respeito dela.
Dei de ombros.
- É sério, cara.
Topei em escutá-la, afinal, era a melhor maneira de acabar logo com tudo aquilo. Ela pigarreou mais um vez, amassou os panfletos do Greenpeace e disse:
- Ela era minha namorada.
Acendi um cigarro para amenizar mais uma vez o rubor da frustração.
- Mas não é mais, certo?
- Não.
- Ótimo! – traguei devolvendo meu hálito nebuloso na cara dela – agora vamos lá para dentro; podem sentir a nossa falta.
Quando chegamos à mesa, todos eles tomavam vinho. Soube então que o Woody Allen de boina havia escolhido a safra. “Safra? De onde tiraram esse cara!?”. Eles papagaiaram cerca de mais duas horas fermentando a barriga com álcool de uvas portuguesas colhidas no inverno, segundo apurou o mago do Jazz. A minha paciência estava se esgotando. Entendam: eu não tenho nada contra os intelectuais, sejam eles artistas ou representantes do submundo da arte, mas quando figuras como estas assolam minha vida, se metendo a falar sobre coisas que não sabem, que nunca sequer viram ou ouviram de fato para dar testemunhos sóbrios, a minha vontade é uma só: que morram.
- Ah, mas essa safra é muito hype!
Foi o estopim.
- Me desculpem, mas se eu continuar nessa mesa serei obrigado a mandar vocês tomarem no meio do cu. E, para que isso não aconteça, estou indo embora.
Boquiabertos, eles me seguiram com os olhos enquanto eu me levantava. Françoise pigarreou e desviou o olhar quando passei por ela. Enquanto dava as costas para todos, pude escutar minha garota pedir desculpas em meu nome e, em seguida, senti seus passos me alcançarem perto da saída.
- O que você fez? Você ficou louco?
- Seus amigos são um pé no saco.
Sem saber o que dizer, ela cessou os passos ali, na calçada, imediatamente após a minha fala. Mas continuei minha marcha para o metrô. O pessoal do Greenpeace a cercou para profetizar a favor da causa dos dentes de marfim. Enquanto descia as escadas do metrô ainda pude escutá-la vociferar.
- Saiam daqui! Que se fodam os elefantes!
Apesar de ler as placas  e os mapas do metrô, eu não via sentido algum em qualquer das direções. Com as mãos no bolso, permaneci olhando para o vácuo dos túneis, para os trilhos da linha. E esperei. Esperei para saber para onde ir.
- Você sabia que eu viria atrás de você, não é?
- Você é imprevisível. Não me assustaria se você saísse com um dos caras do Greenpeace logo depois que ele te falasse dos dentes de marfim.
Vi Françoise descer as escadas alucinadamente até nos alcançar na plataforma.
- Ei, aonde você pensa que vai? Eu te disse que ela era minha namorada.
Nossa namorada não disse nada.
- Verdade. Você me disse, Françoise – fechei meus olhos; ignorei a presença de Françoise e volvi meus olhos para ela – Me recordo agora do álbum de fotografias que vi em sua casa ontem à noite, enquanto você estava na cozinha. Eram fotos de Paris. Nesse álbum havia silhuetas se beijando. Em todo caso, você não me disse nada sobre Françoise, embora eu já imaginasse, depois do que ela me contou na calçada, que fosse ela na foto das silhuetas de Paris.
Françoise arregalou os olhos. Ela segurou nossa namorada pelo pescoço gritando freneticamente.
- Sua vaca! A gente nunca foi pra França! Nunca tiramos sequer uma foto juntas porque você dizia que seus pais não podiam nem sonhar que você era lésbica. E agora esse filho da puta me diz que você tem uma foto beijando uma mulher que não sou eu! – Françoise chorou – Quem é ela?
Nenhum de nós, afinal...
Maculada de uma dor intrínseca e irreversível, ela tirou as mãos de Françoise de seu pescoço e, depois de nos observar por algum tempo, diante de um silêncio permeado por culpa, ela sentenciou:
- Por que você acha que eu estava naquele vernissage ontem? E por que você acha que sua amiga ficou tão puta quando te viu comigo? E os quadros negros chamados Les Ombres Ensemble?
Compreendi.
Me curvei esfregando os olhos, negaceando com a cabeça, enquanto ouvia o metrô estacionando na estação. Antes de embarcar, olhei para Françoise. Ela estava sentada no chão da plataforma. Chorando como uma criança perdida. Seu coração estava despedaçado.
- Tchau.
A porta se fechou. Vi quando os guardas da estação vieram ao encontro de Françoise. Olhei nossa ex-namorada, pela última vez, e sorri. Ela também me sorriu de volta, enquanto serrava os olhos, lentamente. Pouco a pouco sua imagem se tornou distante, até desaparecer na primeira curva do subterrâneo. Percorri algumas estações com essas lembranças do passado de ontem. Depois de ir e vir por cerca de uma hora, desci e vaguei pelas ruas do centro até chegar em meu apartamento. Me deitei no sofá e por horas e horas eu não me movi, olhando para o teto, indisposto e melancólico. Não vi a noite passar. Não senti sono. Não vi o dia nascer. Não senti fome. Acredito ter perdido a noção do tempo.
Escutei a campainha soar, rompendo meu transe hipocondríaco.
Pensei em deixar tocar, mas poderia ser ela.
Esfreguei meus olhos e fui até a porta.
Era Françoise. Ela me olhou de cima a baixo.
- Você está com essa roupa há dois dias?
- Foda-se.
- É. Ela realmente acabou com a gente.
Percebi que Françoise não havia aparecido ali para brigar comigo, pois seu humor era bem diferente de quando a conheci. Talvez tivesse percebido que a culpa não era nossa.
- Eu te trouxe... - era um lindo embrulho - Te trouxe como pedido de desculpas. Por ter te aloprado na estação de metrô e tudo mais. Você não teve culpa de nada. Ela é quem foi uma grande filha da puta.
- Muito obrigado, Françoise.
Ela circulou ao meu redor enquanto eu abria seu presente.
- Você tem uma vista bonita daqui do oitavo andar – disse voltando seus olhos para os prédios e casas da varanda.
Abri. Era o Misto-quente do Bukowski.
“Como ela sabia?”... Fui até a varanda do apartamento, onde Françoise se debruçava no parapeito.
– Como você sabia que eu estava lendo esse livro?
Françoise não me respondeu. Aliás, ela não me escutou. Estava compenetrada, observando o longe de sua imaginação. Permaneci ao lado dela, respeitando seu silêncio, que também era a razão do meu. Depois de algum tempo, Françoise irrompeu nossas ausências com um riso tímido e crescente.
- O que foi? – perguntei.
Ela mirou às casas e aos prédios com seus olhos e disse:
- Quantas pessoas você acha que estão transando, agora, com essas luzes acesas?
Olhei para Françoise. Apenas sorri timidamente.
Eu sabia o que fazer.
- Ei, Françoise, você já escutou My Funny Valentine, do Frank Sinatra?
- Não. Nunca escutei Frank Sinatra.
- Venha comigo.
Levei Françoise para a sala. Servi para ela uma taça de vinho, enquanto ligava minha vitrola de 45 e 78 rotações. A voz de amor do velho Frank começou a soar pelo ambiente.

“My funny valentine.
Sweet comic valentine.
You make me smile with my heart…

'Françoise fechou seus olhos sorrindo, balançando seu corpo delicadamente, se espalhando pela minha sala'.

Your looks are laughable.
Unphotographable.
Yet, you’re my favourite work of art”

Enquanto ela dançava, silenciosamente me despi da camiseta, da jaqueta, do jeans e dos sapatos e caminhei em sua direção. Tomei as suas mãos e as envolvi ao redor do meu pescoço, conduzindo-a na valsa do Sinatra. Dançamos enquanto eu cantava para os ouvidos dela com meu silêncio rouco. Ela me sorria. A deitei no sofá, lenta e delicadamente. Despi de suas roupas. A voz e a melodia de My Funny Valentine tomaram conta da sala e dos quartos, se esvaiu como um eco surdo pela varanda e transformou o vento e atmosfera da cidade numa melodia única e transitória...
... e todas as pessoas que transavam, naquele exato momento, assim como nós, puderam escutá-la, perfeitamente.


[de o play e escute My Funny Valentine na voz de Bernadette Seacrest]