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quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

- promessas

[conto alterado e publicado no bloguezin do gusta]

Sabe... ainda dói ter que me acostumar com a ideia de que você não se faz mais presente. De que, talvez, - e aqui cabe um sincero talvez - você tenha se afastado para se curar desse mal chamado "nós". Confesso que lutei e relutei bastante com a ideia de ter que abrir mão do que sentia por você. Na verdade, não é honesto dizer que abri mão deste sentimento porque este sentimento ainda jaz em mim. Jaz, mas não descansa. Rola, se enrola e desenrola na tumba aberta da vida, esmagando as flores da memória precoce de nossa mútua devoção.
E para que os dias doessem menos, precisei me desfazer de tudo que me lembrava de você: esboços de poesia, contos e crônicas, desenhos, telas, esculturas, amuletos e até aquele velho acordo de promessas que tínhamos de cumprir. Você não sabe o quanto me doeu ter de enterrar essas promessas. Mas, apesar de tudo, um enterro necessário.
Além do mais, tinha que levar em consideração a premissa do nosso acordo: se abandonarmos essas promessas, seguiremos cada um o seu caminho, separadamente, e não olharemos pra trás, não importa o que aconteça. Por isso, concluí que precisava escolher um local em que eu não acessaria facilmente e assim exumar o símbolo de nossas memórias. E na esperança de encontrar o mais rápido possível esse local depositário, carreguei o papel embotado de nossas promessas, dobrado e escondido dentro daqueles box de Camel.
Ah sim, o Camel... Bem, como você sabe, depois que a conheci, passei a levá-los comigo no porta-luvas do carro, pois "os Camels" - como você dizia - "são importantes para a filosofia da vida, e para as questões da humanidade" - como se você mesma não fosse um ser humano demasiado humano.
Então deixava os Camels ali, guardados, para que você tivesse fácil acesso quando necessitasse filosofar. E mesmo depois que você se foi, os mantive no mesmo local, para, de certa forma, mantê-la presente.
E num desses dias fatídicos, quando circulava pelas noites de São Paulo, parado no trânsito de cruzamentos, me lembrei da ocasião em que você abriu o porta-luvas, se queixando "olha, desculpe, mas vou fumar aqui mesmo" e assim que deu o primeiro trago iniciou seu monólogo diletante a respeito da metrópole caótica e como isso afetava o ser humano - como se seu cigarro também não o fizesse também. Mas me recordando disso, abri o porta-luvas e saquei uma vez mais o papel embotado de nossas memórias... Dias e dias, e eu ainda procurando o local mais adequado. Começava a me sentir puto e triste porque a busca parecia infinita.
Foi quando, passando olhos sobre as nossas promessas, naquele trânsito da Avenida Paulista, fui acometido de um  uma ansiedade estranha e súbita - e como um presságio, um sobressalto do interior - e me vi guiando [ou sendo guiado, não sei] para o interior da vida. Dirigi por horas e horas nas rodovias solitárias e madrugais, até chegar a uma pequena cidade marina e costeira. Nem um quilômetro sequer nas cercanias da cidade e já me deparei com uma placa que sinalizada um bloqueio: Limite Rodoviário - Proibido a circulação de veículos automotores. Logo depois da placa, vi que começava ruas e ruelas de areia. Ao que decidi encostar o carro, tirar os sapatos, pegar o box de Camel e iniciar uma daquelas caminhadas reflexivas e cinematográficas.
Foda o quanto o som do quebrar das ondas e o vento minguante  da madrugada morna pode deixar a gente inspirado e emocionado.
Acendi um cigarro. A caminhada que me propus a fazer, não tinha tempo especifico a cumprir, mas imagino que a concluí em uma hora... ou seis cigarros mais tarde.
Depois desse rolê, avistei, ao fim da praia, uma encosta de pedras, e um pedaço de ilha. E ao canto oposto da ilha, na encosta, havia uma escada de madeira que levava ao seu topo, e que provavelmente reservava uma vista linda para o mar e - dado ao tempo investido - para o nascer do sol. Olhei ao redor para saber se necessitava de permissão para subida da encosta, mas nem mesmo uma placa que me proibisse. E, por isso, subi.
Lá em cima, um descampado gramíneo quase virgem, de brisa ainda mais leve e relaxante. E lá no fim da onde a vista alcançava, notei uma pequena árvore, entre o limite da encosta e do mar. Sua curvatura me fazia acreditar que ela estava a admirar a distância e a altura entre a encosta rochosa e o mar.
Ali, acendi mais um cigarro, e iniciei o meu caminho até a corajosa árvore. Durante a caminhada, me pus a imaginar o quanto aquele pedaço secreto de paisagem tinha tanto em comum com nossa história. A distância, a solidão, a singularidade...
Quando alcancei a arvore, fui logo matar minha curiosidade de enxergar e ver o que ela via e, me apoiando em seu tronco, me lancei à frente para olhar para baixo. Lá embaixo, o cataclismo rítmico da água entre as pedras, também me fez encontrar uma vez mais - ou devo dizer relembrar - a similaridade entre nós dois: opostos que se chocam, que se fundem e se moldam com o passar do tempo, de forma cíclica - e que parece ser deveras atemporal.
Essa descoberta pedia mais um Camel, mas ao buscá-lo dentro do box, tudo que me veio aos dedos foi o papel de nossas promessas. Confesso que nesse momento me escapou um sorriso pelo canto dos lábios. E ali me dei conta que a arvore observadora seria a grande guardiã de nossas promessas.
Satisfeito com a minha escolha, cavei um pequeno buraco com as mãos, de mais ou menos quarenta centímetros de fundura, e ali repousei, dentro do box do Camel, a velha folha de caderno, com nossas letras de juízo.
Depois da cerimonia de enterro, fiz meu caminho de volta para o carro. Já era manhã e o sol das primeiras horas me lembrava que eu ainda precisava dormir. Desci as escadas e parei na areia da praia para olhar uma vez mais o quebrar das ondas na parede da encosta. Refleti um pouco mais sobre tudo o que ocorrera até ali. Foda dizer isso, mas gostaria que o meu sentimento por você tivesse também sido enterrado ali, na encosta de terra úmida. Mas mais foda ainda é ter a consciência de que mesmo mudo, cego ou surdo... mesmo que eu abandone esse meu corpo, transformando-o numa carcaça entalhada, o sentimento ainda reverberará, pois é parte integrante de tudo que compartilhamos, está marcado em nossa alma... E quando no vazio das minhas distrações, na ausência de ocupação - como agora observando o sol - sempre rememoro o sentimento de você.
E por isso tambem faço um mea culpa: pois você sabe muito bem que aos olhos de muitos,  nessa realidade considerada normal, o meu desejo por você é anormal e doentio: um descaminho de um homem insensato e amoral, um libertino sinistro que se alimenta da inexperiência alheia. Quando penso nisso, me envergonho e me sinto triste. Porque não é verdade. Mas justificar não muda a verdade dos outros, então me reservo no direito de não justificar nada a respeito disso. Apenas reitero que ainda me esforço, diariamente, na tentativa de compreender a finalidade dessa peça que a vida nos pregou. E resvalo sempre no mesmo ponto: o de ter colocado sua vida em risco, e talvez a exposto a um sofrimento desnecessário, reforçando a sua visão de que os homens são indignos do amor de uma mulher. Quando, na verdade, desejava revelar que o amor pode - e deve - ser sentido, falado e experienciado e jamais deve ser olhado de longe, como tabu, como um estado de espírito inalcançável que somente nos faz doer e sofrer.
Mas fato é que se tentarmos invocar o amor com palavras de encanto e magia, gestos corporais compassados ou sexuais, com roupas e perfumes ou comprar lugares para impressionar terminaremos por nos enamorar no vazio da libido e no labirinto sentimental do pensar e do sentir. A famosa paixão. Complexidade e potência não são amor, e sim paixão. Amor é outra coisa.
Amor é...
Bem, amor é...
É difícil explicar. Talvez nem caiba explicação. Sempre que tentei explicar me tornei brega, contraditório ou obsoleto.
E sabe o que é mais foda? Toda vez que me pediam pra falar sobre você era a mesma ladainha "ora, ela é... Bem, ela é..." porque era difícil, quase impossível explicá-la para quem quer que fosse. Mesmo que fosse para mim mesmo. E desde o dia que você pediu para que eu me retirasse da sua vida, tenho tentado trazer a essencia do que você significa para a lógica, para a razão da consciência. E o dia que isso de fato acontecer, já não me sentirei mais brega, contraditório e obsoleto. Mas enquanto isso não acontece, me resta me perder nos interiores da vida, enterrando e desenterrado os fragmentos sobre você.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

- cortina do tempo [ou sobre o que sinto quando não estou com você]

Agora são três horas da manhã. Não consigo dormir. Lá fora, mais uma vez, a chuva.
Estas noites insones, me fazem lembrar da primeira vez em que acordei do sonho de alvorada, em que me vi tragado pelo mar de seus olhos perpétuos. Em queda livre para o interior de seus pensamentos e de suas verdades mais profundas... E lá, dentro de você, me encontrei.
Eu simplesmente não consigo entender...
Sempre que este déjà vu me assola, dirijo-me para a varanda e deito-me no chão para meditar com o retalho de luzes que corta o céus da madruga. Gostaria de compreender como tudo isso aconteceu? Por que diabos sinto o que sinto?
Quando investigo as miríades do tempo, num olhar de dentro, a conclusão que chego é que este sentimento já morava em mim há muitas eras, mas não fora explorado na ausência de você,
Eu que me considero um cara resoluto e decidido, senti-me perdido, como um náufrago de continentes por não saber o que fazer com essa emoção recorrente que incandescia o meu peito. Passei a partilhar com as estrelas a minha angústia; e confesso que - muitas vezes - implorei para o tempo e o vento apagarem da minha mente o desejo de estar com você. Mas foi inútil, e este desejo apenas crescia e as lagrimas já não me deixavam esconder.
Ponderei muito, e temi que isso a fizesse sofrer e que no fim me odiasse, mas, percebi, que se por essa vida eu passasse sem lhe dizer o que sinto, teria que conviver com a suposição de algo que um dia até poderia se tornar realidade.
Foi quando decidi revelar sobre o que guardava no peito e, meio sem jeito, sem nenhuma classe, te declarei a minha verdade e - ainda mais - também deixei escapar os planos que pensei serem nossos num futuro não muito distante. Nesse dia, seus olhos profundos se tornaram mar, mas nada podia acalmar as ondas que vinham de dentro.
- Sabe, sinto que às vezes você me acha louco, que isto tudo que sentimos está errado e que uma hora vai passar; sei também que você evita falar a respeito, pois teme que este sentimento possa te machucar. Mas foi quando tentamos ignorar o que sentimos um pelo outro que passamos a sangrar. Fizemos as palavras de arma e nos tornamos frios e esquivos, como se não fôssemos dignos de compartilhar os nossos momentos.
Entendo, que algumas vezes você prefira se resguardar e ficar sozinha para pensar a respeito de tudo isso. Até porque, my dear, por ora, não há outro jeito. Mas aqui fica a minha confissão de tolo romântico dos velhos tempos: saiba que insisto em incomodá-la com mensagens de palavras, pois vez ou outra sinto sua falta [para não dizer constantemente]... e até mesmo me pergunto se você sente o mesmo? E quando me remeto a você nas mensagens, às vezes me sinto culpado, pelo fato de temer perturba-la, machucá-la ou entristecê-la. Em todo caso, gostaria que soubesse que não estou aqui para iludi-la, tão pouco para transformar nossas escolhas em erros insignificantes.
Do seu lado eu serei constante, mesmo se o tempo de sua história me vestir de coadjuvante.
Mas se um dia sentir por mim o que sinto por você, prometa-me que será honesta,..
.. pois jamais deixarei de ser.

domingo, 26 de julho de 2015

- aqui e agora

É difícil explicar para as pessoas o que sinto quando me dou conta de que estou vivo, de que existo, de que participo do Agora. E que minha percepção de realidade está além dos fluídos que circulam e circundam por entre as fibras e vísceras da carne e dos ossos desse corpo efêmero. Percebo-me, tendo a consciência plena de que respiro, de que meus sentimentos e atitudes sobre o breve instante que se desdobra e se esvai, segundo a segundo, moldando e transformando a experiência de ser em mim.
A todo instante, escrevo minha história através das experiências que crio e recrio – sejam elas mentais ou corporais. Tenho dúvidas reais e persecutórias sobre a existência do outro, pois nesses breves instantes de consciência plena, sinto que sou e não que estou. Observo-me de dentro dos meus olhos, consciente de que não estou dentro de mim. Estar me parece inconstante e transitório.
Sei que, mesmo quando sou coadjuvante, sou o protagonista de mim mesmo: o único responsável pelo que sou neste instante e pelo que serei e me recordarei no alento derradeiro dos meus dias. Em todo caso, o passado e o futuro não importam. Não se pode medir com os olhos e a mente de agora aquilo que pertenceu aos olhos e a mente de ontem. Assim como não se pode medir com os olhos e a mente de agora aquilo que pertence ao amanhã. As palavras morrem a partir do momento em que terminamos de dizê-las. E ao dizê-las novamente, não são as mesmas, pois não somos o mesmo hoje daquilo que fomos ontem. Não seremos amanhã o que somos hoje.
Estancar o que sou na ilusão do tempo – seja este tempo passado ou futuro – é morrer. Achamos que a morte é aquela que destrói o corpo físico... Mas na verdade morremos sempre que nos esquecemos de que o tempo é um sentimento, e todo sentimento é expressão do íntimo. Portanto, não conhecer a si mesmo é não sentir; é não atuar sobre o tempo, é morrer.
Quando dizemos “não tenho tempo”...  o que queremos dizer com isso? Será que verdadeiramente estamos aqui e agora? Quantas vezes olhamos ao redor e realmente vemos, escutamos, cheiramos, tateamos ou saboreamos?
Quando não temos tempo, ignoramos os sentidos, e consequentemente, ignoramos o pensamento. O pensamento, neste mundo material, é ação. Ao pensar, criamos. “Mas será que a maioria das ideias e sugestões que transcorrem em nossa mente ao longo do dia foram ‘criadas’ por nós mesmos? Vieram de dentro pra fora? Ou reflito a ideia de outro(s)?”.
Me parece que na maioria do tempo, estamos refletindo. Sendo condicionados a participar de ideias que não somos. “Mas por que aceitamos isto? E como aceitamos isso se nem mesmo nos damos conta?” Lembremos que ser coadjuvantes também implica em ser protagonista – ao menos de nós mesmos. Lembremos também que não ter tempo é sinônimo de não sentir. E na maior parte do tempo, quando inseridos em nosso cotidiano, substituímos nossos pensamentos e nossas ideias por notícias de jornais, por uma música da moda, um serviço, uma filosofia, um acessório... enfim, coisas que foram criadas por outros e processamos isso dentro de nós mesmos.
Será que realmente precisamos disso tudo?
Será que o criador desses jornais, músicas, serviços, filosofias, acessórios... enfim... Será que eles também precisam de tudo isso?

Será que precisamos de fato pensar para estar aqui e Agora?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

- Amor de Verdade

Sempre pensei que fosse o último romântico e por muito tempo estive angustiado e sofrido, perambulando nas ruas com minha tristeza cretina, abrindo feridas que vão além da carne. Foram inúmeras as vezes que optei pelo silêncio do tempo, ao invés de transformar o momento com aquilo que construí como verdade solene. Sei que o silêncio diz muito, mas, às vezes, pode ser também o pior palavrão. E desolar uma alma com o repleto vazio, é apenas a prova de que nossa vida é uma grande ilusão.
Nada me comove mais do que acordar sorrindo, estando livre da carga de um ego sombrio que se guia friamente pela razão. É importante lembrar que o caminho é amplo e, nele, não estamos sozinhos. Há muito mais na vida do que escolher ser bandido ou mocinho.
Amar não é uma escolha. Não é uma verdade. E sim essência que sobrepuja as barreiras da dualidade. Nada somos quando negamos o Amor. Nada nos tornamos quando estamos na dor. Doer pode parecer um sinal de maturidade, mas, ao contrário, é somente formato de apego, de interpretações baseadas no medo do desconhecido, da totalidade.
Já o Amor não pode ser definido como isso ou aquilo, não julga e não se perde na realidade. 
Tudo é. Tudo sabe. O Amor de verdade.



domingo, 1 de julho de 2012

- o sonho de Kaori [parte I]

Kaori fechou os olhos e suspirou profundamente. Permaneceu assim por algum tempo, imaginando que estava em um lugar calmo e com um grande rio de correntes e vértices infinitos. Era tudo muito fresco e tranqüilo. Com ela estava Rocco, seu cãozinho de estimação. Ao redor do rio havia muitas árvores e, algumas delas, eram curiosamente folheadas de rosa, de troncos escuros e robustos. Kaori as observou por bastante tempo e percebeu que delas nasciam, quase que instantaneamente, frutos de diversas formas e cores.
- Que lugar bonito, Rocco.
Kaori se aproximou das árvores e pegou um dos frutos disformes e excêntricos.
- Será que é bom? - cheirou e esfregou uma das frutas em seu pulôver vermelho, para lustrá-la. Em seguida, fechou os olhos e o mordeu vagarosamente. Mastigou, mastigou, mastigou e de sua face nasceu uma expressão de surpresa.
- Uau! Que bom, Rocco! Você deveria experimentar! – Então Kaori encostou o fruto no focinho de Rocco. Ele o cheirou e se afastou, desinteressado.
- Ah, esqueci que você gosta de carne e ração, não é? Tudo bem. Deve ter uma árvore de algo que se pareça com essas coisas em algum lugar por aqui. Vamos procurar.
Kaori e Rocco andaram observando as árvores todas que estavam em volta do rio, mas elas davam apenas frutos coloridos e poliformicos. Kaori ficou um pouco preocupada porque Rocco poderia estar com fome e lá não teria nada para ele comer.
Ela se sentou para pensar.
- Como vou encontrar comida para o Rocco? Aqui apenas tem essas árvores de frutos estranhamente deliciosos.
Kaori coçou a cabeça por algum momento, admirando a água do rio que corria até sumir no horizonte, formando uma miragem de gotículas, como nuvens de algodão tocando o solo cor de chocolate.
- Tive uma idéia! – Kaori se despiu rapidamente e correu para a beira do rio. Quando olhou para a água, notou que era totalmente límpida, transparente.
- Uau, olha que engraçado! Dá pra ver tudo através da água.
Kaori sutilmente colocou a mão na água e sentiu que temperatura estava perfeita. Nem quente, nem fria. Mergulhou seus pés vagarosamente e seu corpo crispou. Ela segurou a reação do riso cheio de dentes com suas mãos tímidas e, em seguida, mergulhou profundamente.
Kaori estava admirada, jamais havia visto uma água tão gostosa, tão limpa e tão transparente como aquela. Ela podia nadar de olhos abertos e também bebê-la, porque sabia que não lhe faria mal algum.
- Ei, Rocco, entra aqui, me ajude a pegar um peixe pra você!
Rocco apenas a observava, de longe, deitado na grama uniforme. Então Kaori iniciou a sua procura por um peixe bem grande para Rocco. E, num de seus mergulhos, ela percebeu algo muito, mas muito estranho: ao invés de simples peixes havia pequenos homenzinhos nadando, eram do tamanho de suas mãos e todos estavam nus. Ela nadou, nadou e nadou atrás deles e eles, apressados, sempre iam à direção contrária. Kaori se apressou, seguiu-os tentando, de alguma forma, fazer contato. “Como eles são esguios” ela pensou, “mas preciso pegá-los para saber como consigo peixes por aqui”. Depois de algumas passadas frustrantes, Kaori conseguiu agarrar um dos pequenos; ele era frágil, de braços minúsculos e pela pálida. Se debatia euforicamente, soltando grunhidos finos e desafinados.
- Calma, calma! Eu apenas quero saber como posso encontrar peixes por aqui. Você sabe?! O pequenino grunhia cada vez mais alto em tons desafinadamente agudos. Kaori tentou acalmá-lo acariciando a sua face com seus dedos delicados, mas ele reagiu mordendo-a.
- Ah! – Kaori gritou de dor e, num movimento involuntário, de espasmo, ela lançou o pequenino para longe. Ele caiu na grama, perto de Rocco, e não se moveu mais.
- Puxa! será que eu o machuquei!?... – disse ela assustada, levando as mãos aos lábios. Rocco levantou suas orelhas e correu para ver o que Kaori havia jogado na grama.
- Não, Rocco, não é pra você! Sai de perto dele – Kaori saiu da água apressada e veio em direção a Rocco.
Rocco cutucou o pequenino com seu focinho gelado e úmido, mas ele não se movia. Lambeu, lambeu e lambeu, mas nada, o pequeno não se movia. Kaori se aproximou e tomou o pequenino em suas mãos. Seus olhos lagrimejavam e logo lágrimas e mais lágrimas escorriam à sua face rosada.
- Me desculpe, pequenino, não queria machucá-lo, mas você me mordeu – choramingou limpando a face molhada com as mãos – Por que fez isso?
Ela arrancou uma pequena folha da árvore rosa, colocou sobre uma pedra e deixou o pequenino em cima da folha. Se vestiu rapidamente e se sentou ao seu lado, velando-o.
- Logo mais ele acordará.
Rocco sentou-se ao lado de Kaori, sua língua para fora, sempre com uma expressão de alegria em seus olhos.
- Depois que ele melhorar a gente consegue comida para você, Rocco.
Kaori velou, velou e velou, seus olhos se tornaram cada vez mais pesados e, assim, ela cochilou. Rocco se levantou e cheirou o pequenino. Lambeu-o algumas vezes e, então, começou a comê-lo. Primeiro os braçinhos, depois as perninhas, a cabeça e, por fim, o tronco.
- Ah! – gritou Kaori assustada – vendo Rocco com um dos bracinhos em sua boca. Ela não pôde acreditar.
- O que você fez, Rocco?! Como pode comer uma pessoinha tão pequenininha e indefesa? Você o matou, Rocco! Você o matou!
Rocco acuou. Teve medo de que Kaori o maltratasse.
- Cachorro idiota! cachorro idiota! – gritava, enfurecida, batendo os pés em direção a Rocco. Então Rocco correu, correu e correu. Foi para o meio dos arbustos acinzentados, logo depois das arvores de folhas rosa e desapareceu.
- Vai embora, seu cachorro mau! Você é mau! Cachorro mau!
Kaori estava muito nervosa e perdera o controle. Ela se ajoelhou e bateu as mãos contra a grama gritando palavras que não existiam. Ela sempre fazia isso quando estava nervosa e irritada.
- Vou mandá-lo para o canil! Isso mesmo: para o canil!
Kaori permaneceu na grama, olhando a folha solitária, onde estava o pequenino. Ela se encolheu, abraçando seus joelhos e puxando firmemente seu pulôver ao seu tórax, como se quisesse se aquecer mais. Desorientada, ela olhou ao redor. Parecia estar cercada por um vale imenso, com montanhas altas e enormes por todos os lados, cerradas de árvores das mais diversas cores e tamanhos. O som de água era frequente e turbilhante, e não se escutava nada mais. Ela permaneceu observando e ouvindo todas as impressões do ambiente solitário. Então, ela suspirou, abaixou a cabeça e começou a chorar.
- Não devia ter gritado com o Rocco. Agora ele vai ficar assustado à noite. Pobrezinho, ainda mais, está com fome. E logo também estará com frio... Quer dizer, acho que ele só estará com frio porque ele comeu o pequenino inteirinho.
Kaori não sabia onde deveria começar a procurá-lo. Ela nem sequer sabia se devia procurá-lo. O que ele havia feito foi um ato muito cruel. E ela não sabia se poderia perdoá-lo. De todo o modo, sentia falta dele. Rocco sempre fora seu amigo e companheiro. Sempre estivera com ela. Desde quando ela se lembrava de que tudo era tudo Rocco estava lá.
- Temos que fazer o que o nosso coração manda. E meu coração quer encontrar o Rocco. Então Kaori respirou fundo e foi em direção aos arbustos. Observou atentamente, para saber se havia algum movimento naquele emaranhado de folhas e troncos disformes, mas nada, nem mesmo o vento parecia repelir a relva. Kaori olhou o céu. As nuvens todas cobriam o vale. Estava tudo cinza. Ela sentiu um arrependimento do fundo da alma. Uma dor que angustiava seu peito pequenino.
- Logo choverá. Tenho que encontrar o Rocco.
Kaori correu afastando os galhos e as folhas que pareciam querer detê-la, como grandes mãos. Mas ela era exígua e rápida, o que a possibilitava escapar sem muito sacrifício. Durante a corrida, Kaori pensava o que poderia dizer a Rocco quando o encontrasse. Talvez começasse pedindo desculpa, o abraçando forte e só depois diria que “jamais se pode fazer uma coisa tão cruel como comer uma pessoinha, seja ela do tamanho que for” por motivos que ela inventaria na hora. E já sabia qual seria o castigo, afinal sempre há um castigo. O castigo seria ficar sem entrar em casa por uma semana. Teria que dormir no quintal. Mas Kaori também pensava se aquele seria um castigo justo. Talvez não fosse muito severo, mas também não queria que o mandassem para o canil, como ela havia dito antes. Ela ouvira histórias abomináveis sobre o canil e por isso não queria pensar que essas coisas pudessem acontecer também com Rocco.
De repente um estrondo veio do céu. Kaori parou. Ela observou às nuvens e viu um fio de luz estridente e forte cortá-las. Kaori cerrou os olhos e tampou as orelhas o mais rápido que pode. Mas mesmo assim ela não pôde deixar de escutar aquele imenso estrondo que ecoou pelo vale como um urro de um monstro.
- Nossa! Pareceu que a terra tremeu.
Então Kaori se lembrou que Rocco tinha muito medo de relâmpagos e trovões. Seus olhos estalaram com essa lembrança e ela levou as mãos para a cabeça, preocupada.
- Preciso encontrar o Rocco! Preciso mesmo encontrar o Rocco!
Antes de correr, ela olhou ao redor prestando atenção a todo e qualquer movimento, mas nada. Nada se movia. Kaori seguiu em frente.
Ela circulou pela relva que contornava o rio dos pequeninos, olhando a cada espaço. Enquanto avançava, chamava pelo nome de Rocco.
- Rocco! Rocco! Apareça! Prometo que não vou te castigar.
Mas Rocco não aparecia.
“Onde ele estará?” pensou com a alma esmorecida.
Kaori se arrependera profundamente de ter sido rude com seu cãozinho. No fundo, a culpa havia sido dela. Foi ela quem lançou o homenzinho à margem, onde Rocco descansava seus olhos. E, bem provavelmente, ele já estava morto quando Rocco o comeu.
“Puxa, espero que ele esteja bem”.
Agora Kaori estava sozinha e o céu se tornava cada vez mais negro e escuro. As luzes de raios, das mais variadas cores, cortavam o horizonte. Kaori sentiu seu peito apertar. Suas pernas fraquejavam. Temia não conseguir encontrar seu amigo peludo. Temia não se encontrar naquele espaço negro e selvagem.
Seus olhos encheram de lágrimas. Ela estava cansada, mas sabia que precisava ser forte. Tinha de encontrar Rocco e por isso teria de continuar a andar.
Os pingos de água molhavam gradualmente seu rosto.
- Oh não! Agora está chovendo.
Para se proteger, ela cobriu sua cabeça com o pulôver. Mas logo seu pulôver se encharcara e ela sentiu o frio atravessar sua espinha, convertendo todo seu esforço em se manter seca e aquecida em cansaço e exaustão. Estava cada vez mais escuro e, por isso, Kaori temia tropeçar e cair. Os pingos dispersos logo se transformaram numa chuva torrencial. Kaori apenas desejava estar seca e aquecida. Mas para onde ir? Estava escuro demais para enxergar. Era como andar de olhos fechados, mesmo estando abertos e atentos.
- Não agüento mais. Preciso arranjar um lugar para me proteger e descansar se quiser ter forças para encontrar o Rocco.
Kaori recostou no tronco de uma árvore e caiu de joelhos.
- Não agüento mais... – sussurrou mais uma vez, antes de desmaiar. Seu corpinho esquálido e pálido se derramou sobre o barro negro e vacilante. As poças se abriam em pequenos córregos – como se quisessem carregá-la, transformá-la em corrente – e a chuva a atingia como flechas minúsculas, desorientadamente certeiras. Não se ouvia nada além do barulho da água que escoava pelos troncos, galhos, caules e folhas que ali existiam. Kaori agora descansava em seu desmaio como que incorporada perfeitamente à paisagem triste e crepuscular.
Os estrondos orquestrados da natureza se tornaram ainda maior. O cataclismo do ambiente fazia dançar as árvores, os galhos e os arbustos. Todo o redor se tornava acidentado e desastroso. Já não era possível saber qual direção tomar. A chuva, em torrentes, deturpava a visão por completo.
- O que ser isso? – disse uma voz grave e pigarreada.
Era Buffalo Jack. Ele voltava de sua tarde de caça nos vales.
Curioso, ele deitou seu saco com a captura do dia e se aproximou de Kaori. Chutou-a levemente com seus cascos barrentos para saber se isso reagiria. Nada.
- Será que isso ser gostoso como os suricatos?
Buffalo Jack a pegou pelos braços e a jogou por cima dos ombros. Agarrou seu saco com seus dedos grossos da mão esquerda e seguiu seu caminho. Ele realizava suas passadas rústicas de gigante, como se pudesse enxergar cada ínfimo centímetro naquela negritude turva. Seu tronco era robusto e forte e carregava Kaori sem dificuldade alguma. Suas pernas, aparentemente desproporcionais ao corpo, finas e rijas, davam passos pesados e uníssonos.
- Como isso chegar aqui? Será que J. Hemmett está por traz disso? Aquele escroto! – Tossiu. Era uma tosse carregada e longa, como um grunhido de porco.
Buffalo Jack praguejava J. Hemmett enquanto cuspia seus excessos no rio cristalino dos Pequeninos, onde Kaori havia brigado com Rocco por conta do pequenino.
A chuva não cessaria tão cedo e parecia cada vez mais espessa. Buffalo Jack, percebendo que não teria trégua, cortou caminho pelas fendas do vale, embalado pelos uivos dissonantes que noite e dia ecoava pelos poros do solo e das paredes rochosas dali.
- Calem a boca! – sua voz estridente sonou pelo espaço, mas logo foi engolida pelos intensos uivos do vale sinistro.
Irritado, Buffalo Jack correu. O corpo de Kaori, como uma marionete, balançava pesadamente em seus ombros, mas ela continuava inconsciente. Depois de atravessar o vale, Buffalo Jack já estaria em sua casa. Ele habitava uma choupana de madeira enegrecida. Logo que se avistava sua choupana decadente, podia-se notar os degraus capengas e rangentes. Também se via a única janela da casa, que tinha formato de lua minguante. Na primavera e no verão, Buffalo Jack sempre se sentava ao pé da lua de madeira, fumando seu cachimbo, para observar os lírios fragorosos que nasciam perto dos teixos; as árvores que ali tinham, dançavam cortejando o sol resplandecente. Buffalo Jack não era de falar. Aliás, ele não sabia muitas palavras. Apesar dos cachimbos que tragava, dando-lhe ar de um homenzarrão intelectual, Buffalo Jack era de humor rústico – assim como sua casa. Seus trejeitos lhe faltavam beleza e delicadeza. Os pequenos olhos amarelos diziam muito pouco sobre ele e também sobre seus pensamentos. Raramente ria. Dificilmente saia de sua casa – apenas para caçar suricatos ou para buscar água no riacho dos pequeninos.
- Agora faltar pouco para comer suricatos – salivou enquanto empurrava a porta pobremente lenhada. Sugou profundamente o ar para os pulmões com sua narina negra, úmida e avantajada e esparramou pelo soalho as carcaças de suricatos mornamente mortos e totalmente ensopados pela chuva de torrentes.
Nos seus ombros ainda esta Kaori. Ele a segurou pelo pulôver, como um boneco desengonçado, cerrou os olhos para acurar a visão e tentou capturar alguma semelhança consigo ou com a realidade que conhecia. Coçou o alto da testa, calcou o queixo, negaceou com a cabeça... ele não sabia o que ser isso.
- Buffalo Jack levou Kaori para o cômodo de suas ferramentas, deitando-a no chão. Ela estava ensopada, escorrendo água por todas as extremidades do corpo.
Antes de sair do cômodo fechando a porta rangente, Buffalo Jack tirou seu cachimbo do bolso, bateu-o contra a parede para remover o excesso da guimba, desenrolou o fumo de crisântemo e, assim o acendeu; aproveitando a chama, foi até a lamparina do cômodo para acendê-la também, iluminando minimamente o local onde Kaori jazia.
- Vou preparar meus suricatos.
Primeiramente, Buffalo Jack separou as suas lenhas e, lentamente, acendeu sua lareira, pois toda lenha deveria se tornar carvão antes de estar ao ponto de assar os suricatos. Uma vez o com o fogo aceso e estalante, ele se livrou da pesada veste de pele de ovelhas e as espalhou para onde as fagulhas alcançavam.
- Assim secar rápido.
Removeu suas ferramentas e aparatos dos coldres da cintura e as encostou à beirada do sofá de penas de Dodô.
- Agora, começar o prato de suricatos!
Suricato era o prato favorito de Buffalo Jack. Ele sempre os preparava com determinada maestria. A começar pela escolha da vítima. Buffalo Jack somente escolhia os mais valentes do bando, que possivelmente já adquirira infinita imunidade em batalhas de disputa de território com outros animais de inestimada peçonha. Suas armas favoritas para caçar eram os tacapes e os machados que ele mesmo desenvolvia. Atirava-os a distância buscando acertá-los entre a nuca e a primeira medula, abaixo do pescoço. Assim a morte era certeira. Não havia agonização. Buffalo Jack quase nunca errava a mira. Neste dia ele havia matado quatro suricatos adultos.
Ao chegar em casa, ele iniciava o ritual de limpeza e preparação dos temperos, para que seu cozido de suricatos fosse perfeito. Os pequenos corpos eram colocados em fila no soalho da cozinha. Buffalo Jack amolava sua faca nas pedras-pomes e depois a esterilizava esquento à vela.
- O corte será perfeito agora.
A primeira incisão era na garganta. Linearmente, Buffalo Jack abria a fina camada de pele e pelos até a região pélvica do suricato. Assim as vísceras eram facilmente removidas com sua mão enorme e áspera. Numa panela os miúdos; na outra, os graúdos. Excetuando a cabeça, que era enterrada em honra a coragem dos pequenos suricatos, os demais órgãos eram aproveitados, inclusive o sangue, por ser o elixir que continha o soro das imunidades; Buffalo Jack o armazenava em pequenas garrafas e, todas as noites, antes de dormir, tragava um gole profundo para prevenir-se das mazelas do corpo.
Depois da incisão, aqueles que não fossem servir de alimento para o mesmo dia, eram escaldados em ervas – de modo que o excesso de pele e pelos eram removidos completamente – e, então, Buffalo Jack também os embalsamava com uma cera conseguida pela asa derretida dos pequeninos, podendo conserva-los por mais um ano inteiro. Mas, de todo modo, as conservas não eram por muito tempo, pois Buffalo Jack apenas necessitava de quatro dias para comer quatro suricatos.
- Pronto! Esse ser assado – ergueu, enfim, seu troféu de carne, empalando-o em um enorme espeto de aço. Verificou o fogo: perfeito para assá-lo. A lenha já havia se dissolvido em pedaços de carvão. Assim, Buffalo Jack acomodou o suricato na brandura do fogo. Cansado e ainda molhado, ele se sentou em sua cadeira de balanço e, parcimoniosamente, elaborou mais um fumo de crisântemo para seu cachimbo como um quebra-cabeça meticuloso.
O calor do fogo estalava fagulhas e mais fagulhas para perto dos seus cascos grossos e insensíveis. O sangue da carcaça escorria pelo espeto, atiçando o fogo, aumentando as chamas.
- Nham, nham, logo, logo, comer – disse esbaforindo a fumaça densa de seu pito.
Buffalo Jack alisou seus pelos enfados e sebáceos tentando remover a espessura d’água de seu corpo já esgarçado e frio. Esparramou-se em sua cadeira rangente e assistiu à carne esfumaçante dourar nas centelhas da clareira. Não demorou muito, e ele cerrou os olhos lentamente antecipando com a imaginação o sabor da carne em sua boca salivante. Somente voltou a si quando o ronco de seu estômago passou a afetar o andamento da fantasia de seu sonho. Para distrair a fome Buffalo Jack percorreu o pequeno casebre em passos apressados e, depois que se cansou do movimento circular, foi até sua janela em formato de quarto crescente para observar o movimento da noite que chovia uma tempestade. Do que se podia observar pelos seus olhos minguados, lá fora, a chuva estalava as calhas e as telhas. Como cachoeiras, as torrentes se arrebentavam pelos vales, se exprimiam pelas rochas e deslizavam às colinas, lavando e carregando as relvas, as árvores e os arbustos em direções caóticas e descompassadas.
- Chuva demorar para passar – sentenciou com sua sabedoria empírica.
De repente, no meio do oceano de gotas, Buffalo Jack avistou um borrão rasteiro e veloz vindo em direção à sua casa. Ele escutou o ranger dos degraus e com a coragem de um guerreiro nobre foi até a porta e a abriu sorrateiramente – embora não pudesse evitar o ranger das juntas empenadas. Seu corpo desengonçado e grande não pode ser plenamente escondido entre a parede e a folha da porta. Ele esperou. “Onde estar o vulto”, pensou. Tentou controlar sua respiração, afinal, suas narinas largas e espaçadas poderiam denunciá-lo. Nada. Nem um movimento. Buffalo Jack se impacientou em silêncio. “Tenho que ver o que ser isto”.
A expressão de sua face era de concentração e desconfiança. Mas ele estava decidido.
- Quem ser você!? – gritou pulando em frente à porta com o punho armado.
Houve um breve segundo de comoção. Buffalo Jack não compreendeu. Desarmou os punhos. Desfez a face de fúria e raiva. Por um breve instante ouviu-se apenas a chuva e seus estalos.
- O que ser você? – esbravejou Buffalo Jack.
Era Rocco. Ele farejava o chão molhado com uma certeza voraz.
Rocco latiu.
Buffalo Jack se afastou cerrando os punhos. Rocco, sem se intimidar com a reação de Buffalo Jack, entrou como se a casa fosse sua e correu para a onde farejava o sono de Kaori. Ao chegar à porta, Rocco latiu ainda mais. Ele arranhava as paredes, na tentativa de acessar o local em que estava sua dona.
Buffalo Jack tapou os ouvidos e gritou.
- Pare com isso ou eu pegar você!
Rocco insistia com seus latidos de ansiedade.
Urrando em raiva, Buffalo Jack correu em direção a Rocco e com apenas um soco, ele o desacordou.
Do outro lado da parede, escutou-se um grito agudo e abafado. Era Kaori.
- Rocco! É você? – choramingou.
- Oh, não, ela acordou – suspirou Buffalo Jack – e agora, o que fazer?
Ele pegou o corpo desfalecido de Rocco e o jogou nas costas. Depois de suspirar seus anseios e suas inseguranças, ele abriu a porta.
Kaori tinha os olhos tão marejados quanto à chuva que corria lá fora. Seu corpo estava acuado e, suas mãos justapostas e indefesas, sua pequena boca semicerrada, demonstravam o temor daquele homenzarrão grotesco.
Quem é você? – gaguejou Kaori – e por que Rocco está em suas costas?
Buffalo Jack permaneceu imóvel segurando as patas de Rocco ao redor de seu pescoço.
Os lampejos dos raios eram a única luz do ambiente, o que tornava a aparência de Buffalo Jack ainda mais grotesca. Kaori engoliu o temor e o choro e mais uma vez perguntou:
- O que o Rocco tem? Foi você quem fez isso?
Buffalo Jack caminhou em direção a Kaori. Ela hesitou se arrastando para trás, a cada passo que ele dava. Buffalo Jack se aproximava cada vez mais. Kaori tentou mais uma vez se afastar, mas logo o espaço da mesa se acabou e ela foi ao chão. Quando se recompôs da queda, Buffalo Jack já estava ao seu lado.
- Não me machuque! – gritou chorando – Não faça nada com meu cãozinho!
Buffalo Jack se abaixou e Kaori pode fitá-lo de perto. Ele era realmente feio, com suas narinas úmidas e seus odores fortes. Kaori tentou não encará-lo por muito tempo para que seu olhar não fosse considerado uma afronta. Assim, ela desviou seus olhos para Rocco, ele continuava esmaecido. Ela chorou.
Lentamente, Buffalo Jack retirou Rocco de suas costas e o deitou ao lado de Kaori. Ele se levantou e, depois de suspirar, se retirou batendo a porta.
- Não interromper meu jantar de suricatos – berrou enquanto a porta se fechava.
Sozinha com Rocco, Kaori chorou ainda mais. Ela estava com saudades e havia se arrependido de tê-lo enxotado para o meio da relva, deixando-o desprotegido. Rocco estava bastante debilitado. Era possível ver algumas escoriações em suas patas. Ela o abraçou forte e se deitou ao seu lado.
Kaori pensou em como chegara até ali.
Vagarosamente, ela tirou seus sapatos gastos e sujos. Ambos deviam estar exaustos. Ela andou o dia inteiro a procura dele. E ele andou o dia inteiro se escondendo de medo dela. As pedras machucaram os pés de Kaori e as patas de Rocco. Seus corpos estavam úmidos da chuva que tomaram. Era realmente necessário se abraçarem para se aquecer.
- Queria estar em minha caminha quente e macia com o meu cobertor quente e macio. Eu pediria para mamãe deixar você deitar na minha cama também, Rocco. Ela não ia negar. E então poderíamos dormir assistindo à TV ou lendo alguma história. O que você acha?
Rocco não respondeu estava distante e alheio àquele mundo.
- O tempo lá fora me assusta. Está chovendo tanto... Como sairemos daqui? Você sabe como viemos parar aqui? Foi você quem me trouxe aqui? E se isso tudo for um sonho? Eu não quero mais sonhar, Rocco, sonhar assusta bastante... Eu não sei se isso é um sonho, Rocco. O que será tudo isso? Por que é que a gente veio parar aqui? O que foi que eu fiz?
Ela o abraçou fortemente e fechou os olhos.
- Nunca mais eu vou brigar com você. Me desculpe.

[continua]

domingo, 8 de abril de 2012

- a viagem

Como de costume, depois da leitura noturna de um dos meus livros de cabeceira, Descoberta e Conscientização da Natureza Humana, de Masaharu Taniguchi, meditei sobre ser e existir, sobre as equivalências e os paralelos da ciência e da religião. Confesso que os alentos de luz têm me sido recorrentes e, por isso, anotei o que me foi revelado pela voz do meu interior, que ecoava exatamente assim:

“Transcendi o tempo. Transcendi o espaço. Não houve dia. Não houve noite. Não existe bem. Não existe mal. Eu não cheguei. Eu não fui embora. Eu estou aqui porque estou também em todos os lugares”.

Estas palavras doces da revelação se repetiram tranquilamente ao meu embalo de sono, de maneira serena e calmante. Eram 23h01, quando meus olhos se fecharam. Eu não adormeci, confesso; mas eu também não estava acordado. Na verdade, o que aconteceu depois de tudo pode parecer bastante fantasioso para alguns, mas me foi pedido para que eu contasse, tal qual como ocorreu, e por isso, reproduzo na integra o que me foi dito após o mantra que me acompanhou ao sono.

“Levanta e escuta:
Você sabe que as explicações a respeito da quintessência do ser podem beirar ao ridículo quando, compenetradamente, transformam o estado de ser em micro partes, dissociando-as do todo. São apenas subterfúgios das ciências modernas ou dos colapsos metafísicos incompreendidos por pessoas que interpretam a relação da religião com o todo de maneira errônea e dogmática. É necessário compreensão de que o ser denominado humano é parte integrante do cosmos, tendo como essência única a Mente – no cristianismo e no espiritismo, denominado Espírito, no Budismo, Buda.
Entenda: a Mente não corresponde ao processo resultante das reações físico-químicas da massa cinzenta, do cérebro. O cérebro é apenas uma matriz carnal complexa que engloba em si as percepções cognitivas do humano atreladas à matéria, não sendo responsável pela gênese dos sentimentos e das sensações do âmago, que a moral e a ética – dito humanas – têm tanta dificuldade em explanar. Aliás, a Mente, em sua essência, é dissociada do inconsciente coletivo, da mediunidade e das transposições e transcendências temporais e espaciais conseguidas por alguns seres da frequência humana e ou espiritual.
Aliás, também é necessário esclarecermos sobre a configuração dos planos – planos espirituais, paraísos de virgens ou “Édens”. Não existe outro plano, porque não existe a matéria. Isso mesmo, não existe a matéria. Logo, lhe será revelado acerca das propriedades do éter, que envolve o universo, e, por conseguinte, também será desvelado sobre a atemporalidade, a inexistência de espaço como resultantes deste mundo etéreo. O éter, apesar de insignificante para os cientistas da atualidade, será logo desbravado e trará para a compreensão humana que a matéria é, tão somente, luz coagulada, parada, inerte. Luz não é matéria. Não digo a luz das lâmpadas, das velas, expresso aqui a Luz verdadeira, infinita, a nossa essência.
Concomitantemente a irrealidade da matéria ocorrerá a dizimação da doença, que, em essência, é puramente psicológica, portanto inexistente. Os médicos que tratam apenas o resultado das doenças, ou seja, os sintomas que se apresentam no corpo, perderão seus empregos, pois deixarão de ser procurados tão logo se descubra a ineficiência da farmacologia, que apenas retarda ainda mais o processo de cura. Saiba: a doença, quando manifestada no corpo, através dos sintomas, já está sendo expelida, desintegrada por si só. Além de ser manifestação da mente, as doenças podem ser bagagens dos antepassados esquecidos, das angústias ou de dores guardadas de entes queridos, desencarnados ou não [como esposa, esposo, filho, filha, pai, mãe, irmão, avó, avô, sogro ou sogra, por exemplo] ou de situações mal resolvidas [provocadas por traições, abandonos, raiva, ódio, remorsos ou arrependimentos].
Para as doenças, não há necessidade de medicamentos. Apenas seja grato. Grato a tudo. Agradeça todos os dias. Agradeça de verdade.
A gratidão será a única responsável pela condução à infinitude, pois é sinônimo de fé. E, ao falar de fé, é necessário que se compreenda que não existem dogmas. Aqueles que acreditam no inferno, nele permanecerão mesmo o inferno não existindo de fato, pois é invenção da mente que tudo cria e que a tudo transforma. Também não existe pecado, pois não existe treva e nem dor em essência, essas manifestações são apenas criações humanas e não passam de ilusões que logo sucumbirão mediante a força infinita da Mente.
Tudo que existe é bem e somente o bem. As palavras de ojeriza e dor são criadas unicamente pelos seres humanos e são capazes de prejudicar a harmonia do todo material devido a sua frequência rebaixada.
Pense no belo e acredite no que é bom. Agradeça sempre. A infinitude do nosso ser se manifesta no exato instante de qualquer pensamento bom e puro, na transformação deste pensamento em sentimento e voz - e mesmo no silêncio, tão nobre e sublime quanto qualquer palavra e ato, somos e nos propagamos para além dos poros, do espaço entre ser e existir, se manifestando em tudo, porque nada é dissociado do todo. Nada. Somos tudo. Somos o instante, o eterno instante, também chamado de Deus ou Eternidade.”

Ao final dessas palavras, levantei-me assustado procurando saber onde estava. Reconheci meu quarto, o silêncio da noite. Olhei ao relógio. Suspirei fundo. Eram 23h02.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

- o livro das musas [estou bem agora]

[prólogo]

Anteriormente, quando ainda estávamos juntos, dividindo nossa intimidade – até vinte e quatro horas em determinados dias – eu não conseguia ver para além de mim mesmo, eu não enxergava você. O egoísmo me consumia. A frieza do meu caráter era esboçada pelo meu semblante de poucos amigos, minha fala lacônica e meu sentimento embotado de desinteresse e de preguiça frente às situações que você considerava bonita e interessante, mas eu não.
Foram longos meses de tentativas sua que acabaram por frustrá-la ainda mais. A minha posição de vítima e de único ser humano a compreender as questões e as dores do mundo, não deixavam-me enxergar a beleza de tudo aquilo que você tentava me fazer entender. Foram vários os dias que você desistiu de dormir para me educar com seus monólogos sobre a sanidade e a importância de viver e não existir somente. “Ame a si próprio”, você dizia, “só assim você conseguirá sentir gratidão em relação às outras pessoas”. Mas eu me tornava cada vez mais solitário, frio e condescendente.
Não me importava mais em machucar os outros só para inflar meu ego, me afirmar como ser humano. As minhas respostas eram geralmente grosseiras e terminavam por projetar meu ego inflado, agressivo e resistente. Eu jamais pedia desculpas. As pessoas me achavam temperamental e hostil, mas eu insistia em pensar que elas é quem eram ignorantes demais para compreender a raiz dos meus pensamentos. Eu sempre tive preguiça de me explicar, de perder meu tempo em fomentar detalhes sórdidos e recorrentes, só porque as demais pessoas não entendiam as coisas que eu dizia de forma natural.
Eu sempre estava criticando algo ou alguém pelo simples prazer da crítica – uma grande masturbação egocêntrica – e a envergonhava perante as pessoas que você admirava pelo simples fato de eu me julgar superior com as minhas afirmações e hipóteses pomposas e carregadas de preconceitos e de hipocrisia.
Não entendia como você podia me suportar.
Em algumas situações, você me pedia, “pelo amor de Deus” para, “pelo menos uma vez”, ser empático, e eu sempre respondia inflamando meus pulmões de motivos baratos e envoltos pela frustração de ser eu mesmo: “Não estou a fim de vestir uma máscara e comprazer com esse mal-estar social, fingindo que está tudo bem no reino da desgraça”. Você então ficava louca, temendo que eu ferrasse com tudo, desrespeitando as pessoas que estariam com você. E, geralmente, eu a decepcionava, com o louvor da missão cumprida de um miserável.
Lembro-me até hoje do dia em que causei embaraços dos mais constrangedores em sua casa, quando seu pai, depois de instalar seu novo pacote de tevê por assinatura, me perguntou o que eu tinha achado da cobertura de setenta e cinco canais. Respondi dizendo para ele tomar cuidado, pois “a tevê não trará a solução para todos os nossos problemas, seja em alguma novela, em algum programa de culinária ou mesmo nos jornais sensacionalistas que valorizam tanto a tragédia alheia e repetem-na, mais de mil vezes, com a intenção de aumentar o ibope”. Mesmo percebendo que ele me fitava encabulado, coçando a nuca e o bigode, e, às vezes, desviando o olhar para os lados na busca da vergonha que se esvaia pelos cômodos, complementei afirmando: “olha, não estou a fim de compartilhar meu tempo com essas idiossincrasias baratas e nonsenses da tevê, seja com um ou com setenta e cinco canais, pois não dará em nada nunca”. Seu pai então desligou a tevê e se retirou, chamando pelo seu nome com uma voz quase ausente. Segundos depois, você apareceu com suas passadas de  gigante irada, e me perguntou que raios eu tinha feito desta vez. Dei de ombros julgando não precisar explicar a minha razão e, você, com sua paciência monástica, discursou a respeito da empatia e da humildade e, ao final, com argumentos válidos, sentenciou: “Você não está na sua casa. E, pior, você acaba de humilhar o dono da casa. Quem você está pensando que é? Aonde você quer chegar agindo desse jeito? Custava você zapear os canais e tecer algumas palavras gentis? Algumas vezes é necessário cedermos pela paz de uma situação cotidiana. Por exemplo, como eu sempre faço em relação a você. Cedo pela paz dos nosso relacionamento. Você não pode fazer isso nem mesmo por uma tevê? Como você pode ser tão alienado em si mesmo?”. Emputecido, novamente não quis ouvi-la e, no auge de minha ignorância, reagi com argumentos insólitos e vazios, estancando todas as nossas chances de amor. “Olha, eu não estou a fim de participar ou defender seus ideais pacifistas, não pretendo me filiar a ongs, não quero adotar alguém e muito menos fazer revolução. Estou comodamente alienado e prefiro assim: nada na cabeça e dinheiro no bolso. Se quiser, vista você o seu cabresto social, afinal, a vida é um reality show de setenta e cinco canais, não é mesmo minha querida?”.
Pela primeira vez, você alterou o tom de sua voz, e, com lágrimas nos olhos, me levou até a porta da sua casa. “Vá embora, por favor”. Escutei seus gemidos inconsoláveis intercalados pela ausência de fôlego e dos soluços. “Como você pode odiar a vida? Como você pode não gostar de ser feliz, de se sentir bem, nem ao menos por um dia?”.
Embora eu tivesse a chance de permanecer calado, ir embora e refletir sobre o que você havia dito – pois hoje considero palavras carregadas de sabedoria – eu ferrei com tudo defendendo minha ideologia do ego, vazia e sem fundamentos. “Pessoas como você acham que podem simplesmente passar um corretivo ou mesmo oferecer um paliativo para todos e pronto: fica tudo muito bem! Olha, se você acha que sua vida seria bem melhor em um mundo colorido pela comunidade da alegria, me desculpe, mas não adiantaria. A humanidade teria de ser exterminada e a evolução natural teria que dar conta do recado para que outra espécie evoluísse para algo melhor, menos ansiolítico e impulsivo. Chega a ser gritante a corja de alienados que orbitam seus próprios umbigos e que, de tempos em tempos, vomitam nos nossos ouvidos metade de tudo que ingeriram com as demais pessoas. Ah!, também tem aqueles filhos da puta que culpam a natureza e seus fenômenos pelo fato de sermos rendidos em desastres. E agora que a coisa está completamente irreversível, querem que nós nos responsabilizemos - cada um de nós! - a trazermos à tona uma vida mais verde e ‘inalável’. Eu simplesmente não estou afim! Não vou salvar um panda. Não vou reciclar. Não vou racionar. Não vou tomar banhos curtos, - não importa a estação do ano - pois não estou a fim de mudar o planeta. Desculpe, mas eu já me cansei dessa violência simbólica e material. Eu não quero mudar de sexo. Não quero lutar no exército. Não quero ser pop, não quero ganhar na loteria para ser o milionário da vez e, eu, definitivamente, não vou mudar a merda do mundo só porque estou passando uma corrente maldita ou porque eu apaguei a luz do abajur do meu quarto por uma hora. Estamos pra lá de longe de nos sentirmos bem. Estamos tão doentes e tão desgraçados que já não vale mais a pena medicar. Isso apenas prolongará o sofrimento. O meu sofrimento. Você diz que eu odeio a vida, mas, pense bem, pense bem! A morte pode fazer muito mais sentido para uma espécie tão escrota como a nossa. Tão escrota que sublima tudo que pode para viver com menos desprazeres e depender mais de seus desejos egoístas!”.
- O único egoísta aqui é você com seu discurso de vida limitada e frustrada! - Você me interrompeu com um grito histérico, e então me estapeou na face na tentativa de reprimir meu desconsolo humano perante a tudo que se revelasse com disposição para vida. Você ainda negaceou com a cabeça, de olhos fechado, e confessou, enfim: “apenas queria que você ficasse bem!”.
A porta se fechou.
Eu me retirei da frente de sua casa com meu rosto inflamado e avermelhado. Andei pelas ruas tentando esconder a expressão de dor e constrangimento. Li as placas na esquina. Procurei uma direção. Eu estava a muitos quilômetros de minha casa. As pessoas me mediam, ora com repugnância, ora com deboche, meu rosto vermelho como uma maquiagem de palhaço. O formigamento e o ardor me recordavam nitidamente do tamanho de suas mãos, agora bem delineadas pelo vermelho coagulante. Mesmo depois de andar por cerca de uma hora até chegar ao terminal e embarcar no primeiro ônibus que vi, ainda sim podia sentir nitidamente o ódio expressado pela marca dos seus dedos. Eram oito horas quando o ônibus partiu. Eu levava como bagagem os seus sentimentos por mim, gravados em minha face; e meu coração apertado, de vergonha e dor.
Me sentei só no último banco tendo como vista os campos enegrecidos e sutilmente contornados pelo lume da lua. Na solidão da noite, sem conseguir dormir, me lembrei de suas palavras. De todas as suas palavras. O meu peito apertou e, na agonia, lágrimas saltaram lentamente escorrendo pelo meu rosto. Foi uma noite difícil e acabei adormecendo de cansaço, dor e arrependimento.
Quando acordei, seis horas depois, permaneci deitado, olhando para as lâmpadas do teto. Não me lembro quantos dias vieram depois, meus pais não me falaram. Me mantive ali, imóvel, observando as mesmas lâmpadas e as mesmas janelas por dias e dias. Meus pais disseram que você ligou e perguntou como eu estava. Eles também disseram que você garantiu que seu pai não está mais com raiva de mim e que agora tem cem canais na tevê por assinatura. Mas eles não disseram muito, pois logo eu apaguei devido a uma nova crise e precisaram chamar a enfermeira...
A visita para mim foi suspensa mais uma vez.
Eu sei que oito meses se passaram desde o dia que eu voltei de sua casa. Mas meus pais disseram que eu ainda não superei... que eu ainda não superei.
Eu tentei me matar.
Meus pais disseram que te contaram em um dos telefonemas.
Sei que você se culpa, mas não foi por sua causa. Eu era fraco. Um grande egoísta e ingrato.
Compreendo agora tudo o que você queria dizer a respeito da vida, sobre ‘viver e não existir’... são respostas para o que eu procurava e não percebia.
Mas agora, aqui, onde estou internado para reabilitar-me dos meus monstros particulares, aprendi muito. Consigo compreender e valorizo isso. Aprendi dizer ‘eu te amo pai e eu te amo mãe’. Agradeço a tudo. Sou mais aberto aos estranhos que me abordam e puxam assunto. Não julgo mais o que eu não conheço pelo simples fato de defender uma ideologia qualquer. Dedico um tempo para a contemplação de mim mesmo, me livro de toda alienação: divago sobre ser e existir, sobre mim, e descubro que eu posso cada dia mais, que eu sou infinito, que não existe razão alguma para doer e que apenas justificamos a nossa vida quando compartilhamos, quando somos com o outro... como você sempre tentou compartilhar comigo. Por isso, eu apenas queria que você soubesse que eu estou bem agora. E que nada nesse mundo será capaz de me alienar.
Nada.

domingo, 22 de janeiro de 2012

- o livro das musas [misto-quente, sexo & Jazz]

[prólogo]
[cd & vinil]
[um Platão a mais]

Naquela noite, eu insistia para não sair do aconchego da minha casa. Já havia preparado meu café e, também, organizado meu espaço de tintas para começar a pintar novas telas. Foi quando meu telefone tocou.
- Hoje é o meu vernissage! Não se atrase! Começará às dez.
- Perfeito! – obviamente não estava nada perfeito, mas, de qualquer forma, eu iria – Ei, não poderei ficar muito tempo – inventei –, tenho um compromisso.
Não tinha nada. Compromisso nenhum.
Apenas complementei meu visual com uma blusa de lã e um sapato velho.
- Assim está ótimo.
Eu sabia que muitas pessoas estariam lá enchendo o saco. Pessoas que gostavam de comparar masturbadoramente toda a arte, como se suas críticas esdrúxulas fizessem alguma diferença real para qualquer dos artistas plásticos vivos ou mortos do planeta Terra. Eram sempre ladainhas como “veja bem esses traços inspirados no impressionismo de Monet”, “me lembrou a fase azul de Picasso”, “nada como as entrelinhas do surrealismo de Miró” – uma verborréia explícita sem sentido algum. Por isso, assim que cheguei ao vernissage, tentei não chamar muita atenção, mas logo percebi que meu plano não funcionaria: eu estava vestido como um mendigo francês – o que poderia me render confusão, pois era como se eu fosse um deles.
No saguão, minha amiga recebia seus convidados com taças de espumante e os direcionava para as dependências do ateliê que compunha a instalação de suas obras. Depois de parabenizá-la pela conquista, me servi de uma taça do espumante com gosto de vinagre e desfilei meu visual parisiense decadente dos anos 20 pelo ateliê. Eu já havia visto todas as telas dela anteriormente – algumas até no processo de inspiração e criação para suas namoradas proibidas que nunca conheci – por isso tentei permanecer próximo daquelas sem muita adesão, para evitar os comentários pomposos. Despistando os almofadinhas do ateliê, adentrei um cômodo silencioso e solitário, com mantos enegrecidos, velas e crisântemos. No centro, havia duas telas, uma de frente com a outra, e ambas pintadas de negro, denominadas Les Ombres Ensemble. “Essa eu não conheço” pensei “deve ser mais uma dedicada às suas ex-namoradas secretas”.
- Espero que os crisântemos gostem de vinagre... – e esvaziei minha taça num dos vasos utilizados como adorno. Foi quando, do meu lado, percebi que havia uma moça observando a tela negra. Disfarcei escondendo a taça atrás do arranjo de crisântemos.
- Isso é falta de sexo, não acha?
- Me desculpe, não entendi – disse a ela.
- É. Falta de sexo. Pênis. Sabe?
- Do que você está falando? – ri.
- Dessa tela... o que leva uma pessoa a fazer algo tão desinteressante assim? Ladear duas telas negras e dar o nome de “As Sombras Juntas”. Não tem sentido algum. Só pode ser falta de uma boa foda, você não acha?
Perdi o fôlego de tanto rir. Mas tentei manter a compostura de um decadente segurando o riso com as mãos, até porque minha amiga podia estar por perto.
- Ainda bem que ao menos você acha engraçado, pois essa tela é uma piada de muito mau gosto – tragou o espumante – alguém deveria dizer a essa mulher que foi tinta desperdiçada.
- Se você quiser eu digo, aliás, eu a conheço.
Ela riu sem graça.
- Sério que você a conhece?
Afirmei com a cabeça.
- Mas, dane-se, o fato é que você, agora, tem que impedi-la de pintar lixos como esse. Ampute as mãos dela, se for preciso.
Foi exatamente assim: excêntrico. Ela não se importava com o que eu poderia pensar. E o mais interessante de tudo isso é que, segundo me disse depois, enquanto circulávamos a procura de alguma bebida que não fosse vinagre, ela não havia sido convidada por ninguém; entrou ali simplesmente porque serviam bebida de graça.
- Eu só me dei conta que não era festa, quando entrei naquele cômodo e vi você jogando o espumante nos crisântemos. Pensei “Ele também deve ter acabado de se dar conta que é uma exposição de arte!”.
Não conseguia mais conter o riso.
 - Estão gostando do vernissage?
Percebendo que minha companheira excêntrica avacalharia com as telas se abrisse a boca, atravessei pigarreando:
- Ei, essa daí é a responsável por essas belíssimas telas.
Ela a olhou atravessada, desviou o olhar, suspirou profundamente, relutando para não se exaltar e estendeu as mãos para cumprimentar minha amiga. Foi um cumprimento inerte e triste.
- Você nunca me apresentou a ela... estão saindo há quanto tempo? – minha amiga perguntou desconfiada.
Antes que minhas palavras tomassem som e forma a pergunta foi respondida:
- Estamos saindo há apenas uma semana, talvez por isso ele ainda não tivesse contado a você.
"Que loucura" pensei. Minha amiga pareceu não gostar do que ela disse ou, talvez, do modo como ela havia dito e, por isso, se retirou sem dizer mais nada.
- Que tal sairmos daqui para bebermos de verdade? A bebida aqui é uma merda.
Ela me puxou pelo braço e lá fomos nós.
No meio do caminho reencontrei minha amiga e tentei justificar a minha saída frenética e repentina dizendo que, aquela mulher, na verdade, “era a desculpa do meu compromisso” como falado no telefonema anteriormente, mas ela não me escutou ou não quis me ouvir. Como já estava perto do saguão, não insisti.
- Ei, mas aonde vamos?
- Não sei ainda, mas vamos – disse sacando sua cartela de Lucky Strike.
As ruas estavam calmas. Apenas encontrávamos casais decadentes e famílias desbotadas nas varandas dos casebres e também sobre a velha ponte rangente de águas sujas. Havia também algumas tendas noturnas permeando a praça central, onde as figuras clericais e os aposentados com visuais de adolescentes solitários esperavam ganhar a noite com alguma mulher fácil. Enquanto o alvo propício – entenda-se como alguém que estivesse afim – não aparecia, eles se esbanjavam de bebidas quentes e conversavam bucolicamente sobre suas vidas feudais com amigos tão jovens de roupa quanto eles.
Depois de acender seu cigarro, ela me levou para um beco perto das tendas da praça central. Um lugar com pouca luz, mas de visão privilegiada.
- Espere aqui.
Ela correu para onde os velhos estavam, não muito longe dali, e agarrou pelo braço um senhor parecido com o Clint Eastwood. Conversaram por alguns minutos. Ela se sentou com ele numa velha mesa de ferro oxidado e, pelo que percebi, pediu para que o velho comprasse uma garrafa de vinho. E lá foi ele. Curiosamente, quem vendia os vinhos eram os padres – Padres (?).
Antes que ele se sentasse para cortejá-la, ela fez mais um pedido, desta vez era algo para comer. Vi o velho Clint indo para a barraca de doces, mas, então, enquanto ele dava as costas, tropegamente, na enorme fila repleta de outros velhos e também beatos e carolas, ela agarrou a garrafa de vinho e correu em minha direção.
- Corre! – saímos por um dos becos que havia atrás das tendas. Ela ria como uma adolescente desgovernada, daquelas que desobedecia seus pais fugindo à noite com os amigos. Quando já estávamos a uma distância considerável do antro geriátrico, paramos para descansar o fôlego.
- E agora, para onde vamos?
- Vamos andar e beber vinho.
Caminhamos rumo a lugar nenhum. Era possível escutar as folhas das árvores, a dilatação de metais dos carros estacionados nas sarjetas e nas esquinas, e o vento, o vento que ecoava um bramido delicado e triste pelas bocas de lobo. A calmaria silenciosa da escuridão logo se transformou num cenário solitário e gélido, com pouca luz para iluminar nossa vista às próximas ruas à nossa frente. Nessas nossas andanças, enquanto revezávamos a garrafa de vinho, ela relatou o tanto de vez que já roubara garrafas desses velhos perversos nas praças do centro. Rimos muito. Ela então estendeu sua mão para mim, pedindo com os dedos a garrafa. Mas, mesmo sabendo que ela desejava o vinho, fingi não perceber dando a ela minha mão, envolvendo a ponta de seus dedos, até alcançar sua mão por inteira. Ela não reagiu. Assim, de mãos dadas, compartilhamos o caminho das ruas e os goles de vinho. Percorremos ruas e mais ruas até nossas pernas adormecerem de frio. Paramos para descansar em frente ao Forte da cidade. Apesar de ser um patrimônio municipal ainda era bem cuidado. Lugar estrategicamente projetado para o alto, proporcionando maior visão para se defender possíveis ataques e invasões do passado, mas, atualmente, era apenas utilizado como reduto de casais românticos, velhos solitários e nostálgicos e pré-escolares e suas visitas obrigatórias do liceu, nos horários comerciais. O portão nunca estava fechado, pois não havia nada para ser furtado. Somente os velhos canhões de chumbo de três toneladas, mas, como eu disse, eles têm três toneladas.
- Vamos subir? A vista de lá é linda.
Concordei.
Era possível perceber o reluz em alguns casebres do longínquo. E a névoa. A névoa, como um manto, envolvia o horizonte. As gotículas de orvalho eram carregadas pelo manto de névoas e, às vezes, alcançavam a nossa face como um chuvisco invisível mas latente.
- Ainda bem que temos a garrafa de vinho para nos mantermos aquecidos.
Debruçamo-nos no parapeito. Ela acompanhava distraidamente o contorno da névoa no horizonte da cidade. Era possível enxergar sua respiração, o volume de seu sorriso, o som de sua voz.
- Veja só, ainda há muitas luzes acesas... – ela riu com o canto dos lábios e completou – quantas pessoas você acha que estão trepando nessas casas?
Ri.
- Por que você diz isso? Você gosta de trepar somente com as luzes acesas?
- Ah, tanto faz... Mas você já reparou que algumas pessoas têm complexos corporais e preferem a penumbra, o escuro. Acho que é válido fazer o que se tem vontade. Quando os casais estão sintonizados essas coisas não são importantes. Agora, aquelas pessoas que iniciam rituais para transar são broxantes. Coisas como “só faço de luz apagada”, “não faço essa posição”, “não faço sexo oral”, “não visto fantasias” enfim, não há necessidade dessas proibições, pois desejos como esses podem até enobrecer ainda mais a relação.
Concordei balançando a cabeça.
- Sou da opinião que pessoas que impõem limites precisam de terapia freudiana ou então, se mesmo assim não resolver, o fim do relacionamento... – mexeu em sua bolsa e tirou seu Lucky Strike – Quer um cigarro?
- Eu não fumo.
- Como assim você não fuma? Que diabos você é?
- Nunca tive vontade de fumar. Só isso.
- Pois então hoje você vai experimentar. Tome, pegue o meu que já está aceso. Vou te ensinar a tragar.
Foi assim que comecei a fumar. Enquanto observávamos os casebres do sexo, ela me ensinou como eu deveria puxar a fumaça e como deveria expeli-la de maneira que não incomodasse a garganta ou as narinas. Tossi algumas vezes, mas logo já estava parecendo um dos Corleone.
- E ai, o que achou do Lucky Strike?
Senti gosto de engarrafamento, de janela de apartamento, de esquinas, de cotidiano de cidade. Talvez por isso eu não soube descrever a ela o que achei do gosto do cigarro.
- Eu gosto de conversar fumando. Pode parecer bobo, mas é inspirador. Deve ser porque todas as personalidades que me influenciaram diretamente na adolescência também fumavam, sabe – tragou – como Charles Bukowski, David Bowie e Salvador Dali.
- Quem é Charles Bukowski? – perguntei tossindo os pulmões.
- Você não conhece o velho Buk? Cara, de novo, o que você faz da vida, afinal? – Antes que eu pudesse responder ela continuou, estridentemente – Isso é um absurdo! Quando chegarmos no meu apartamento vou te emprestar um livro dele.
Seu apartamento?! – boquiaberto com o que acabara de ouvir, a taquicardia começou.
- Ei, calma! Meu apartamento não é tão longe assim. São apenas duas quadras daqui. Chegaremos lá antes de acabar o efeito combustivo do nosso vinho.
E assim foi. No caminho para o seu apartamento, ela me contou sobre suas músicas favoritas do Bowie e também sobre as suas interpretações particulares e nefastas dos quadros de Dali. Ela não era como os almofadinhas. Nossas idéias batiam. Não comparávamos ninguém. Apenas dizíamos o que achávamos e como nossas influências marcavam nossas vidas.
- Chegamos.
Suspirei profundamente. Senti meu peito vibrar. A sensação reverberou pelo meu corpo inteiro e, por alguns instantes, permaneci estacado em frente à escada do condomínio sem conseguir me mover.
- Venha logo! – ela gritou da porta da recepção – o elevador já está aqui!
Despertando do meu transe de confusão particular, corri para alcançá-la. Ao entrarmos no elevador, recostei à parede e olhei para o teto. Assim como os quartos de motéis, aquele elevador tinha um espelho. E, assim como todos os elevadores, esse também tocava músicas pop dos anos setenta e oitenta. You Don’t Understand Me, do Roxette, era a música da vez. E nessa balada particular foi que, pela primeira vez, pude fitá-la detidamente, me atentando a seus traços. Ela estava num vestido vermelho. Seus cabelos confusamente emaranhados pendiam para suas orelhas pequenas e delicadas. Diante da luz peculiar do elevador, sua pele contrastava com seus lábios vermelhos.
- Eu definitivamente não gosto de música de elevadores – disse ela me acordando do transe da contemplação. A porta do elevador se abriu. Percorremos alguns passos na penumbra. Apartamento 101. Entramos. Ela jogou suas chaves no sofá e foi para a cozinha. Permaneci inerte, com as mãos no bolso, enquanto observava ao redor. Havia pôsteres da Françoise Hardy, da Marilyn Monroe e da Liv Ullman espalhados pela parede. Na estante alguns amontoados de LPs de Jazz e R&B, como Nina Simone, Dinah Washington, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, Etta James e Areta Franklin.
Numa escrivaninha, ao lado da estante, havia um pequeno álbum de fotografias. “Uma oportunidade de conhecê-la melhor” pensei. Indiscretamente, enquanto escutava os barulhos da demora dela na cozinha, folheei algumas páginas do álbum. Uma viagem para Paris. Fotos clichês no Louvre, na Torre Eiffel, no Arco do Triunfo. Me apressei pulando algumas páginas de paisagens e mais paisagens de tundras e mais tundras, foi quando, num estalo, percebi escapar pelos meus dedos uma foto de um beijo. Voltei, tentando reconhecer a imagem que acabara de escapar das minhas mãos. “Achei”: Eram duas silhuetas contra o sol. A reconheci como uma delas. A outra silhueta, bem... a outra silhueta também era a de uma mulher. Frustrei-me. Devolvi o álbum à escrivaninha, do mesmo modo que havia encontrado, fechado.
“Merda!”. Todas as minhas expectativas foram dizimadas.
- Quer cerveja? – ela adentrou a sala com uma garrafa já aberta.
- Obrigado.
Me sentei no sofá e recostei minha cabeça olhando para o teto. Esfreguei o rosto com as mãos, tentando fazer me esquecer daquela fotografia do beijo de silhuetas.
- Ei, venha aqui no meu quarto, preciso te mostrar uma coisa.
Lá, ela me mostrou suas prateleiras de livros. Havia diversos títulos, mais do que eu planejei ler à minha vida toda.
- Você já leu tudo isso?
- Sim – disse ela tateando alguns de seus títulos.
Naquelas fileiras intermináveis, havia também títulos em francês e em inglês. Ela puxou um e me entregou em mãos.
- Toma. Esse é para você. Quero que você o leia e depois me diga o que achou.
Se chamava Misto-quente, e era do Charles Bukowski.
- Fechado.
Me sentei em sua cama e folheando o livro, enquanto me distraía com suas idas e vindas do banheiro para o quarto, ora vestida, ora enrolada em toalhas. Confesso que eu não estava animado para ler aquele livro. Não mais. Ainda mais depois dos meus pensamentos concluírem que não haveria mais finalidade alguma, pois ela tinha namorada.
- Não precisa lê-lo agora. Temos coisas mais interessantes para fazer aqui – e jogou suas toalhas no meu rosto. Quando me livrei das toalhas, vi que ela estava nua. E caminhava lentamente em minha direção. Seus pés eram delicados e silenciosos, pareciam flutuar rente ao chão. Em seu pé esquerdo havia uma pequena tatuagem de Shiva, que suavemente contornava o calcanhar. Me detive em contemplá-la por inteira. Percebi que suas pernas magras e fortes combinavam com sua estrutura esquálida. Seus seios firmes, macios e pequenos eram perfeitamente moldados ao tamanho de minha mão. Seu pescoço era longo e elástico. A sua marcha sensual e demorada era envolvida pela fumaça do cigarro, acompanhando-a como uma névoa emanadora de prazer. Arredia, parou em minha frente. Sorriu. Se virou de costas, observando suas estantes de LPs. Escolheu um com a capa parecida com a do Pulp Fiction.
- Agora você me escutará cantar – ela sussurrou enquanto se apoiava em sua vitrola de 45 e 78 rotações. Me sorriu mais uma vez, cruzou os braços, tragando o tempo e a sedução pertencentes somente a ela. Uma voz linda ecoou pelas quatro paredes. Era My Funny Valentine, na voz de Bernadette Seacrest. Ela balançava, na velocidade do som. Em seu corpo, cada instante da música era reproduzida e a melodia parecia exalar de seus poros. Seus lábios mudos imitavam perfeitamente os versos sentimentais – até mesmo a reprodução dos momentos de silêncio eram idênticos aos de Bernadette.
- Melhor que a versão do Sinatra que eu tenho em casa – aplaudi solitário.
Ela riu e, com passos silenciosos, estacou em minha frente, cantando lascivamente:
- My funny valentine. Sweet comic valentine. You make me smile with my heart… – com suas mãos, ela percorreu meu rosto e me beijou na face – Your looks are laughable. Unphotographable. Yet, you’re my favourite work of art.
Delicadamente, percorri sua cintura com minhas mãos, deslizando-a até contornar todo o abdômen. Tomei-a então pelos braços e lentamente os descansei em meus ombros para dançarmos. Dançamos enquanto ela continuava a cantar com seu silêncio suave para os meus ouvidos. Alternávamos os versos tristes com beijos lentos, envolvidos um ao outro pela hipnose da melodia apaixonada e melancólica. E sob a névoa do incenso que ela tragava, eu a dominei em meus braços. Deitamo-nos na cama, nos beijando. O soar da voz e da melodia se esvaeceram suavemente, pouco a pouco, até desaparecer por completo, dando voz aos nossos suspiros e gemidos descompassados pela ansiedade do prazer. Transamos. Transamos ainda quatro vezes mais embalados pelo álbum de Bernadette Seacrest, até que, cansados da nossa longa noite, retesamos um ao lado do outro enquanto falávamos preguiçosamente como nos sentíamos ao escutar Jazz e Blues.
Ela dormiu quando o sol penetrou na janela do quarto. Permaneci ainda por algum tempo ao seu lado, contemplando sua beleza, mas logo a monotonia se configurou no cenário da janela. A acomodei de maneira que não despertasse seu sono e me levantei. Enquanto esfregava meu rosto para me manter acordado, vi jogado ao chão o Misto-quente do Charles Bukowski. “Vou ler até a hora que ela acordar”. Me sentei na varanda com o sol da manhã. Li cerca de quarenta páginas. Senti fome. Fui até o quarto, ela ainda estava dormindo. Vesti minha roupa e desci para comprar alguma coisa. As ruas continuavam tristes e vazias. Vasculhei um mercado em busca de comidas rápidas. No caixa, uma frase do Bukowski começou a ecoar repetidamente na minha mente “Os cigarros Camel eram mágicos”.
- Ei, cara, me vê um maço de Camel – disse para calar a premonição.
Quando voltei ao apartamento, escutei o barulho do chuveiro ligado.
- Vou fazer um café para você – gritei.
Enquanto passava o café, experimentei meu Camel.
Não sei descrever o que senti quando traguei, pela primeira vez, um Camel.
- Sem dúvida são mágicos! – Jamais o troquei por outro.
Ela se sentou à mesa vestindo sua toalha úmida e assim tomamos juntos nosso café do meio-dia, enquanto fumávamos e conversávamos a respeito do que eu estava lendo do “velho Buk”.
- Preciso te apresentar para alguns amigos meus – ela disse – eles vão adorá-lo. Aliás, podemos vê-los hoje à noite, que tal?
- Tudo bem, mas antes preciso ir para casa.
- Fechado.
Ela marcou numa cafeteria, no centro. Onde sempre iam.
Fui para minha casa, tomei um banho. Quis ler um pouco mais do Misto-quente do Bukowski, mas o havia esquecido na casa dela. Entediado, esperei a hora passar. Acabei dormindo, estava exausto das andanças e, também, de tanto trepar. Acordei atrasado. De qualquer forma, sai sem pressa e, novamente, mal vestido. Depois de muito andar pelas ruas e becos por cerca de quarenta minutos, encontrei a cafeteria.
- Lá está ele. Eu disse que ele viria – ela gritou, me identificando para os seus amigos.
Acenei em resposta, um pouco desapontado – não por chegar atrasado, mas pelos estereótipos que a acompanhavam.
- Pensei que você fosse me dar um cano depois da noite que tivemos – ela sussurrou em meu ouvido rindo.
Me sentei ao lado dela enquanto era introduzido ao clube noir de pseudo-intelectuais que viviam na belle epóque. “Merda, esses filhos da puta estão em todos os lugares”.
Não me lembro do nome de nenhum, pois instantaneamente à apresentação, os reconheci de acordo com suas pseudo-qualidades: havia o crítico de cinema e arte, que usava os óculos parecidos com o do Woody Allen e se vestia como um jazzista de New Orleans, com direito a boina e suspensório; havia uma que se vestia como a Cindy Lauper, fazia critica a todo e qualquer artista que estivesse na mídia e gostava de bandas que ninguém conhecia, classificando-as sempre como blasé ou hype; havia também uma que, ali na mesa, não falava com ninguém, parecia estar bem puta com o mundo, e na apresentação a chamaram apenas pelo apelido de Françoise – porra, Françoise?
- Você precisa vê-la falando em francês!
Perfeito, tínhamos europeus, norte-americanos e paga-paus, não falta mais ninguém.
A masturbação logo começou. Falavam de escritores que não leram, de lugares que não visitaram, de filmes que não assistiram e de peças que não viram. O mais sabido de todos era o Woody Allen de boina. Suas declarações pomposas e quiméricas eram postulados de ordem. Depois de duas horas de ejaculações verborrágicas do clube noir meu estômago já estava corroído de azia – e não era nem pelo excesso de café e Camels –, o fato é que eu já não agüentava mais.
- Vamos embora – segredei no ouvido dela.
- Calma. Teremos a noite inteira para ficarmos juntos.
Ela estava muito interessada naqueles assuntos insuportáveis. E eu apenas queria ir embora. Para ganhar tempo, pedi licença e fui até o banheiro. Lavei meu rosto e permaneci olhando para o espelho enquanto imaginava uma maneira de me livrar daquela situação nauseante. Mas nada me ocorria. Bati contra a pia, estapeei o rosto, xinguei todos de filhos da puta e voltei. Quando saia do banheiro, Françoise me puxou pelo braço.
- Por aqui – disse enquanto me arrastava pelos degraus da saída do café.
Paramos na calçada, do lado dos ativistas do Greenpeace, que distribuíam panfletos sobre os dentes de marfim dos elefantes brancos. Ela sacou sua cartela de cigarros e depois de tragar contra o vento, disse:
- Percebi que você também não gosta daqueles maricas. Só topou vir aqui porque está trepando com aquela idiota – pigarreou – mas eu preciso te advertir sobre uma coisa a respeito dela.
Dei de ombros.
- É sério, cara.
Topei em escutá-la, afinal, era a melhor maneira de acabar logo com tudo aquilo. Ela pigarreou mais um vez, amassou os panfletos do Greenpeace e disse:
- Ela era minha namorada.
Acendi um cigarro para amenizar mais uma vez o rubor da frustração.
- Mas não é mais, certo?
- Não.
- Ótimo! – traguei devolvendo meu hálito nebuloso na cara dela – agora vamos lá para dentro; podem sentir a nossa falta.
Quando chegamos à mesa, todos eles tomavam vinho. Soube então que o Woody Allen de boina havia escolhido a safra. “Safra? De onde tiraram esse cara!?”. Eles papagaiaram cerca de mais duas horas fermentando a barriga com álcool de uvas portuguesas colhidas no inverno, segundo apurou o mago do Jazz. A minha paciência estava se esgotando. Entendam: eu não tenho nada contra os intelectuais, sejam eles artistas ou representantes do submundo da arte, mas quando figuras como estas assolam minha vida, se metendo a falar sobre coisas que não sabem, que nunca sequer viram ou ouviram de fato para dar testemunhos sóbrios, a minha vontade é uma só: que morram.
- Ah, mas essa safra é muito hype!
Foi o estopim.
- Me desculpem, mas se eu continuar nessa mesa serei obrigado a mandar vocês tomarem no meio do cu. E, para que isso não aconteça, estou indo embora.
Boquiabertos, eles me seguiram com os olhos enquanto eu me levantava. Françoise pigarreou e desviou o olhar quando passei por ela. Enquanto dava as costas para todos, pude escutar minha garota pedir desculpas em meu nome e, em seguida, senti seus passos me alcançarem perto da saída.
- O que você fez? Você ficou louco?
- Seus amigos são um pé no saco.
Sem saber o que dizer, ela cessou os passos ali, na calçada, imediatamente após a minha fala. Mas continuei minha marcha para o metrô. O pessoal do Greenpeace a cercou para profetizar a favor da causa dos dentes de marfim. Enquanto descia as escadas do metrô ainda pude escutá-la vociferar.
- Saiam daqui! Que se fodam os elefantes!
Apesar de ler as placas  e os mapas do metrô, eu não via sentido algum em qualquer das direções. Com as mãos no bolso, permaneci olhando para o vácuo dos túneis, para os trilhos da linha. E esperei. Esperei para saber para onde ir.
- Você sabia que eu viria atrás de você, não é?
- Você é imprevisível. Não me assustaria se você saísse com um dos caras do Greenpeace logo depois que ele te falasse dos dentes de marfim.
Vi Françoise descer as escadas alucinadamente até nos alcançar na plataforma.
- Ei, aonde você pensa que vai? Eu te disse que ela era minha namorada.
Nossa namorada não disse nada.
- Verdade. Você me disse, Françoise – fechei meus olhos; ignorei a presença de Françoise e volvi meus olhos para ela – Me recordo agora do álbum de fotografias que vi em sua casa ontem à noite, enquanto você estava na cozinha. Eram fotos de Paris. Nesse álbum havia silhuetas se beijando. Em todo caso, você não me disse nada sobre Françoise, embora eu já imaginasse, depois do que ela me contou na calçada, que fosse ela na foto das silhuetas de Paris.
Françoise arregalou os olhos. Ela segurou nossa namorada pelo pescoço gritando freneticamente.
- Sua vaca! A gente nunca foi pra França! Nunca tiramos sequer uma foto juntas porque você dizia que seus pais não podiam nem sonhar que você era lésbica. E agora esse filho da puta me diz que você tem uma foto beijando uma mulher que não sou eu! – Françoise chorou – Quem é ela?
Nenhum de nós, afinal...
Maculada de uma dor intrínseca e irreversível, ela tirou as mãos de Françoise de seu pescoço e, depois de nos observar por algum tempo, diante de um silêncio permeado por culpa, ela sentenciou:
- Por que você acha que eu estava naquele vernissage ontem? E por que você acha que sua amiga ficou tão puta quando te viu comigo? E os quadros negros chamados Les Ombres Ensemble?
Compreendi.
Me curvei esfregando os olhos, negaceando com a cabeça, enquanto ouvia o metrô estacionando na estação. Antes de embarcar, olhei para Françoise. Ela estava sentada no chão da plataforma. Chorando como uma criança perdida. Seu coração estava despedaçado.
- Tchau.
A porta se fechou. Vi quando os guardas da estação vieram ao encontro de Françoise. Olhei nossa ex-namorada, pela última vez, e sorri. Ela também me sorriu de volta, enquanto serrava os olhos, lentamente. Pouco a pouco sua imagem se tornou distante, até desaparecer na primeira curva do subterrâneo. Percorri algumas estações com essas lembranças do passado de ontem. Depois de ir e vir por cerca de uma hora, desci e vaguei pelas ruas do centro até chegar em meu apartamento. Me deitei no sofá e por horas e horas eu não me movi, olhando para o teto, indisposto e melancólico. Não vi a noite passar. Não senti sono. Não vi o dia nascer. Não senti fome. Acredito ter perdido a noção do tempo.
Escutei a campainha soar, rompendo meu transe hipocondríaco.
Pensei em deixar tocar, mas poderia ser ela.
Esfreguei meus olhos e fui até a porta.
Era Françoise. Ela me olhou de cima a baixo.
- Você está com essa roupa há dois dias?
- Foda-se.
- É. Ela realmente acabou com a gente.
Percebi que Françoise não havia aparecido ali para brigar comigo, pois seu humor era bem diferente de quando a conheci. Talvez tivesse percebido que a culpa não era nossa.
- Eu te trouxe... - era um lindo embrulho - Te trouxe como pedido de desculpas. Por ter te aloprado na estação de metrô e tudo mais. Você não teve culpa de nada. Ela é quem foi uma grande filha da puta.
- Muito obrigado, Françoise.
Ela circulou ao meu redor enquanto eu abria seu presente.
- Você tem uma vista bonita daqui do oitavo andar – disse voltando seus olhos para os prédios e casas da varanda.
Abri. Era o Misto-quente do Bukowski.
“Como ela sabia?”... Fui até a varanda do apartamento, onde Françoise se debruçava no parapeito.
– Como você sabia que eu estava lendo esse livro?
Françoise não me respondeu. Aliás, ela não me escutou. Estava compenetrada, observando o longe de sua imaginação. Permaneci ao lado dela, respeitando seu silêncio, que também era a razão do meu. Depois de algum tempo, Françoise irrompeu nossas ausências com um riso tímido e crescente.
- O que foi? – perguntei.
Ela mirou às casas e aos prédios com seus olhos e disse:
- Quantas pessoas você acha que estão transando, agora, com essas luzes acesas?
Olhei para Françoise. Apenas sorri timidamente.
Eu sabia o que fazer.
- Ei, Françoise, você já escutou My Funny Valentine, do Frank Sinatra?
- Não. Nunca escutei Frank Sinatra.
- Venha comigo.
Levei Françoise para a sala. Servi para ela uma taça de vinho, enquanto ligava minha vitrola de 45 e 78 rotações. A voz de amor do velho Frank começou a soar pelo ambiente.

“My funny valentine.
Sweet comic valentine.
You make me smile with my heart…

'Françoise fechou seus olhos sorrindo, balançando seu corpo delicadamente, se espalhando pela minha sala'.

Your looks are laughable.
Unphotographable.
Yet, you’re my favourite work of art”

Enquanto ela dançava, silenciosamente me despi da camiseta, da jaqueta, do jeans e dos sapatos e caminhei em sua direção. Tomei as suas mãos e as envolvi ao redor do meu pescoço, conduzindo-a na valsa do Sinatra. Dançamos enquanto eu cantava para os ouvidos dela com meu silêncio rouco. Ela me sorria. A deitei no sofá, lenta e delicadamente. Despi de suas roupas. A voz e a melodia de My Funny Valentine tomaram conta da sala e dos quartos, se esvaiu como um eco surdo pela varanda e transformou o vento e atmosfera da cidade numa melodia única e transitória...
... e todas as pessoas que transavam, naquele exato momento, assim como nós, puderam escutá-la, perfeitamente.


[de o play e escute My Funny Valentine na voz de Bernadette Seacrest]